
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
As carreiras profissionais renovam-se e multiplicam-se. E o trabalho – mais descontínuo e flexível – já não é o que era. Há muito boa gente perdida neste cenário. Entenda o que está a acontecer para poder adaptar--se e evoluir. O futuro é agora!
Hoje já não se é só médico ou só dentista. Os engenheiros não constroem apenas pontes – a Genética é agora um dos campos florescentes da Engenharia – e os arquitectos não trabalham unicamente com espaços – a Arquitectura da Informação não só desponta como uma nova profissão, mas também promete ser uma carreira de futuro.
Os avanços da ciência e da tecnologia, a entrada da mulher no mercado de trabalho, o envelhecimento da população, o surgimento de novos e grandes mercados emergentes como a China, a Índia, o Brasil e a Rússia, assim como as mudanças na sociedade e na economia, fruto |
 |
 |
 |
 |
Por Mariza Figueiredo |
 |
 |
 |
 |
de outros tantos fenómenos nacionais e globais, são factores que vêm transformando, a pouco e pouco, o cenário do trabalho. A tecnologia cruza de forma transversal todas as áreas profissionais enquanto novas exigências da sociedade mostram sectores em franca expansão, em detrimento de outros votados a um vertiginoso declínio. O futuro, no que toca às profissões, mostra-se activo e imparável, assim como as carreiras se prevêem dinâmicas e mais diversificadas, ao longo de uma vida, do que alguma vez já foram.
Mas se os campos de acção se multiplicam e transformam, a maneira de trabalhar tem igualmente sofrido alterações. E o mesmo acontece em relação às competências que são exigidas a cada um de nós – para além da formação – para que consigamos conquistar e preservar o nosso espaço no mercado de trabalho.
Os jovens
Os jovens, mas também as gerações anteriores, só têm a ganhar com a adesão a novas atitudes perante um mercado de trabalho em constante mutação. |
Ter um curso superior já não é a chave para um futuro garantido. E as profissões já não são para o resto da vida. A segurança parece, por vezes, precária e é preciso perceber melhor o terreno que se pisa para não se ficar vulnerável ao sabor das marés socioeconómicas. Essa é a chave da questão, tanto para quem ainda se prepara para um curso superior como para aqueles que já vislumbram num horizonte não muito longínquo o fim da vida profissional.
“Nos anos 50, um rapaz e uma rapariga que chegavam à idade adulta tinham, em regra, dois percursos completamente diferentes. Ela ia procurar casar-se e cuidar dos filhos. Ele ia procurar um emprego, no qual ficaria até se reformar – provavelmente na mesma profissão, com o mesmo patrão. Isso hoje já não é assim. Rapazes e raparigas não se separam à entrada da vida adulta. A feminização do emprego é uma das características mais fortes da sociedade em que vivemos, o que não era há uma geração atrás. E o emprego tornou-se mais descontínuo e volátil”, refere António Dornelas, sociólogo do ISCTE, relator do Livro Branco para as Relações Laborais.
O Processo de Bolonha
l O objectivo é criar no espaço europeu um sistema de graus comparável e facilmente compreensível por todos
l A Declaração de Bolonha na Europa foi assinada por 45 países
l O desafio de Bolonha é o de, simultaneamente, internacionalizar o ensino superior, reforçando a ligação entre o meio empresarial e a universidade, fomentando a operacionalidade de conhecimentos
l Na base do processo está a estruturação do ensino superior em três ciclos: licenciatura (com duração de três anos), mestrado (dois anos), e doutoramento (três anos)
l Permite mais flexibilidade, mais mobilidade e mais facilidade no reconhecimento de diplomas nos países signatários
l Mesmo os trabalhadores com mais idade, que já se licenciaram há mais tempo, têm acesso a integrar o processo
l Acredita-se que só esse tipo de formação resultará num aumento da capacidade de resolução de problemas concretos em situações profissionais concretas
l Para determinadas profissões e em determinados sectores de actividade económica, impõem-se medidas de aprendizagem que passam pelo encorajar o acesso a qualificações híbridas: ou seja, as competencies |
Por altura do 25 de Abril, havia 30 por cento de analfabetos em Portugal. “Quem tinha 12 anos de escolaridade parecia um intelectual. E acima destes estavam os que tinham uma licenciatura: os médicos, engenheiros, advogados… Esses, então, tinham comprado a chave para o futuro. Hoje já não é bem assim”, observa o especialista.
Nos dias que correm, as pessoas estão mais escolarizadas e qualificadas. “Melhor escolarização representa menos tempo à espera de emprego, melhor emprego e melhores remunerações ao longo da vida”, destaca António Dornelas. “A probabilidade de um jovem desempregado, que acabou os estudos, permanecer desempregado ao fim de um ano é tanto menor quanto mais alto for o seu nível de escolaridade.”
E se os empregos, e mesmo as profissões, não são para toda a vida, convém ter-se em mente que é mais fácil reconverter pessoas escolarizadas do que não-escolariza-das – dar-lhes oportunidades de formação e prepará-las para reintegrar o mercado de trabalho.
Os empregos que tendem a desaparecer num futuro próximo são aqueles de baixa qualificação. É o que indica António Dornelas. Isso resulta do despontar de gigantes emergentes como a China, a Índia, o Brasil e a Rússia, que dantes não tinham indústria e que agora têm-na a custos sociais muito mais baixos do que os nossos: em muitos casos, os trabalhadores não têm direito a férias ou a reformas, não têm protecção social nem liberdades sindicais. Perante esta realidade, a aposta mais indicada é, então, em níveis médios e altos, e em sectores como o dos serviços – actualmente, o que mais cria emprego nos países ocidentais.
“O diploma continua a ter importância, embora agora mitigada com o conceito de competências”, refere Glória Rebelo, professora associada na Universidade Lusófona e investigadora do Dinâmia/ISCTE. “As empresas exigem hoje, para além da formação académica, diversos outros atributos: as competências. A capacidade de iniciativa, a criatividade, a visão do negócio, por exemplo, são aspectos cada vez mais valorizados por quem emprega.”
Novas profissões
São incontáveis e abarcam os mais diversos sectores. Destacamos aqui apenas algumas.
l Engenharia do Ambiente
l Comunicação Ambienta
l Saúde Ambiental
l Ecologia Urbana
l Sociologia da Saúde
l Administração de Comunidades Virtuais
l Engenharia de Rede
l Gestão de Segurança na Internet
l Bioinformática
l Coordenação de Projectos
l Consultoria de Carreiras
l Design e Programação de Jogos
l Marketing Desportivo
l Gestão de Patrocínios
l Engenharia Genética
l Psicogerontologia
l E-Formador
l Criogenia
l Coolhunting
l Trendspotting |
Não restam dúvidas: neste cenário, “garantirá maior estabilidade profissional e financeira quem procurar construir o seu percurso através do enriquecimento das suas competências profissionais, garantindo um reforço da sua empregabilidade. Uma formação académica consolidada (obtida através de um curso reconhecido e prestigiado, e com boa classificação) e, ainda, um percurso contínuo de alargamento de competências e de aprendizagem ao longo da vida, serão a melhor forma de assegurar, a prazo, a empregabilidade”, defende a investigadora.
O conhecimento é fundamental, mas a sua amplitude ainda mais. “Cada vez mais teremos de saber fazer e ser em diferentes domínios, sermos mais ousados e não nos limitarmos à nossa zona de conforto”, afirma José Guerra, psicólogo de organizações, consultor e formador em Desenvolvimento Pessoal e Organizacional. E tendo em vista que as fronteiras geográficas hoje são mais ténues do que dantes, chama a atenção para a importância da aquisição de “competências relacionais, comunicacionais e linguísticas, que trazem vantagens para a integração em mercados internacionais e para um mercado cada vez mais heterogéneo e multicultural”. Para evitar a “infoexclusão”, este especialista destaca ainda ser essencial a conquista de competências técnicas na área das novas tecnologias.
O valor das competências
Hoje, as competências são fundamentais. Para além de formação académica, o mercado exige:
l Espírito de iniciativa
l Capacidade de comunicação
l Criatividade
l Capacidade de trabalhar em equipa
l Domínio de idiomas
l Capacidade de aprendizagem
l Domínio de informática
l Ousadia
l Visão do negócio
l Capacidade de associação de ideias
l Liderança
l Habilidade em tomada de decisão
l Preocupação com a cidadania e a responsabilidade social
l Visão de conjunto
l Capacidade de actualização
l Autodidatismo
l Habilidade para encontrar novas formas e soluções para alcançar as metas |
Formas mais flexíveis de trabalho são uma tendência quase inevitável para os novos tempos, seja a nível dos contratos, dos horários ou dos locais e espaços de trabalho. Nos últimos 30 anos, novas formas de contratação têm vindo a ganhar terreno. De acordo com Glória Rebelo, contratos de trabalho temporário e a termo – mais flexíveis – permitiram às empresas responder melhor em termos de gestão de necessidades temporárias de Recursos Humanos. O contrato a tempo parcial permitiu maior flexibilidade ao nível da gestão do tempo de trabalho. E, mais recentemente, já com o Código do Trabalho, “a previsão da figura do contrato de teletrabalho veio igualmente flexibilizar o local de trabalho, permitindo que hoje possa ser considerado local de trabalho todo aquele onde o trabalhador exerça actividade controlada à distância pelo empregador”. Hoje já se assiste ao surgimento de empresas com “secretárias rotativas”, que servem mais do que um trabalhador. A especialista destaca ainda algumas novas políticas de gestão de Recursos Humanos que têm sido introduzidas na vida das empresas e que em muito têm alterado, ao longo dos tempos, a forma de trabalhar, sobretudo ao nível da avaliação de desempenho (por objectivos ou por competências). “E o futuro parece ir neste sentido”, sublinha.
Saúde, Educação e Turismo. Os especialistas não têm dúvidas. Em Portugal, estas são as áreas do futuro. “As pessoas não só vão viver mais anos como vão querer viver com mais qualidade, o que significa que o recurso aos cuidados de saúde, mesmo para os não-velhos, vai tender a intensificar-se”, observa o sociólogo António Dornelas. Por este domínio passa também um leque amplo de áreas de investigação ligadas a doenças relacionadas com o aumento da expectativa de vida, assim como o recurso à tecnologia de apoio, não só à investigação como ao rastreio e tratamento de ponta das mais variadas doenças.
O papel do diploma
Há quem defenda que não servem para nada. Mas estão enganados!
l As sociedades cada vez atribuirão maior importância à certificação do que sabemos fazer
l Não chega dizer que se sabe, é preciso provar que se sabe
l Antes do período experimental, a melhor forma de provar que se sabe é ter diplomas
l A certificação das competências profissionais é uma tendência em expansão
l A geração mais antiga no mercado de trabalho possui poucos certificados e estes tendem a ser inferiores ao que as pessoas realmente sabem. Não aprenderam na escola, mas com a experiência em campo
l Para estes casos existe um sistema de certificação das competências adquiridas no exercício da profissão, levado a cabo nos Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC)
l Avalia-se o que as pessoas sabem fazer e desenha-se um esquema de formação para completar vazios e permitir o reconhecimento das qualificações equivalentes a um nível escolar superior ao que a pessoa já tenha
l Este sistema facilita a articulação entre a oferta e a procura no mercado de trabalho, sendo particularmente importante para os desempregados |
Tendo em consideração as características geoeconómicas nacionais, o Turismo, na opinião da investigadora Glória Rebelo, “terá muito forte expansão nos próximos anos, e todo o conjunto de actividades associado a este sector que – de forma directa ou indirecta – empregará muita população, ou seja, unidades hoteleiras e outros locais como a restauração”. O Turismo implica ainda o cuidado com o ambiente e a natureza que o país tem para oferecer, além das muitas horas de Sol. E não nos esqueçamos das energias renováveis, da biotecnologia e da reciclagem do lixo. Glória Rebelo destaca ainda “o incremento que as actividades ligadas ao mar podem vir a ter a curto prazo em Portugal, quer no que concerne ao aproveitamento do potencial de energia quer no que respeita à investigação ou construção e reparação naval”.
A Educação será um sector-chave para o futuro, como já o é para o presente. E neste campo incluem-se novos formatos de aprendizagem como o e-learning (formação à distância) que, segundo o psicólogo das organizações José Guerra, “começam a ter algum impacto e constituem alternativa em muitas das áreas do conhecimento no que toca ao formato exclusivamente presencial a que estávamos habituados, por norma no horário pós-laboral”. Permitem uma gestão mais eficaz do tempo para quem dá e quem recebe formação, evitando as deslocações, usufruindo de formação à medida e flexível quanto à sua frequência.
A tecnologia, para além de criar variadas opções dentro das mais distintas áreas, servirá de apoio estrutural a todos os níveis e sectores, sendo um campo de crescimento certo. Gestores e analistas de rede, gestores de sistemas informáticos e de comunidades online, engenheiros de software e especialistas em suporte de programação são algumas das profissões neste campo.
Outras áreas que, no futuro, terão maior tendência para o crescimento serão, na opinião de Glória Rebelo, “os serviços de proximidade – de assistência a idosos ou a crianças, de serviços de limpeza e higiene, fornecimento de refeições ao domicílio… – mas também as actividades dos serviços dos equipamentos sociais, públicos ou privados”. Para além destas, a especialista destaca “o sector financeiro – a banca em sentido geral, mas também actividades afins, como os seguros, os fundos de pensões e outras actividades de intermediação financeira; fruto da permanente mutação tecnológica, os sectores associados às telecomunicações (incluindo a electrónica e a informática); os sectores ligados à energia (produção e distribuição de electricidade, de gás e de água, e alguns serviços específicos, como é o caso do tratamento de águas); o comércio (por grosso e a retalho) e a reparação de veículos e bens de uso pessoal ou doméstico”.
Os “farejadores” de tendências começam a ser cada vez mais procurados pelas grandes empresas dos mais variados sectores, já tendo deixado o universo exclusivo da moda. Coolhunters e trendspotters são algumas das profissões neste sector. O mundo do entretenimento dificilmente sairá de moda e o universo das experiências de vida e prazer estão para ficar, pelo menos por mais algum tempo.
Porque se trabalha?
segundo Isabel Leal
A maioria das pessoas julga que trabalha para ganhar o dinheiro com que paga as despesas que faz. Sendo verdade para muitos, não o é completamente para muitos outros que canalizam para o traba-lho um conjunto de investimentos afectivos que poderiam estar dispersos por outros aspectos da vida.
Trabalha-se para ganhar dinheiro, mas também para ganhar estatuto, poderes vários, visibilidade, espaço de manobra e autonomia, trabalha-se até para se estar entretido, para se sentir útil, para dar sentido à vida ou, mesmo, porque não se sabe fazer mais nada. Trabalha-se porque o trabalho, na teia complexa de significações que os humanos usam para comunicar e se relacionarem entre si, é um “significado imaginário central”, quer dizer, é um aspecto nuclear das suas identidades.
No nosso mundo, o trabalho é pois, antes de mais e depois de tudo, um aspecto fundamental da capacidade de afirmação dos indivíduos que no desenvolvimento de tarefas e actividades, além de proverem o seu sustento, encontram um espaço privilegiado de aquisição de novas competências, de crescimento de interesses e até de expansão ou ascensão social.
Porque é assim, porque uma parte muito importante das pessoas trabalha hoje, não propriamente para assegurar a sobrevivência mas para ganhar com isso outros níveis de acesso à respeitabilidade social (traduzida na capacidade de aquisição de mais bens, mais serviços, mais relações, maior visibilidade), o mundo do trabalho tornou-se hipercomplexo, hiperinvestido e hiperdifícil. Tornou-se um território de disputa e competição em que só os muito dotados (de dotes vários, bem entendido) ascendem ao almejado sucesso, deixando para trás hordas de insatisfeitos que, muitas vezes, nem percebem bem o que lhes vai acontecendo.
Porque o mundo do trabalho é hoje o lugar eleito de exercício de todas as agressividades, numa espécie de regresso a uma barbárie alindada com cetins e brilhantinas, dava jeito, era simpático, que a maioria de nós soubesse o chão que pisava. Dava jeito que cada um de nós pudesse ser consciente dos seus limites, fosse capaz de estabelecer objectivos realistas e não vivesse frustrado e infeliz a achar que é mais um azarento ou incompreendido. |
|
|

|