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“Eu odeio gritos, mas não consigo deixar de os dar”, reconhece Ana, de 37 anos, directora de um laboratório farmacêutico. “Tenho a sensação de que as crianças só me obedecem quando sentem que já perdi a paciência.” Como muitas outras mulheres, Ana está submetida a uma mecânica dos gritos à qual se obedece, como se o cenário nunca mudasse. A tensão sobe, defendemo-nos, resistimos, o corpo crispa-se e distende-se, pronto a atacar. Quando é ultrapassado o limiar da tolerância, surgem os gritos para expulsar uma tensão interior que se tornou insuportável. Como se chega a esse ponto? Os gritos, alimentados pela ira, por um sentimento de injustiça ou de impotência, dão a impressão de controlar uma situação ou uma relação que é sentida como uma ameaça. “Não devemos esquecer-nos que a principal função dos gritos é afastar um perigo ou pedir ajuda”, explica a fisiatra Stéphanie Hahusseau*. “Na base, é um comportamento de protecção. É por isso que não é preciso diabolizar sistematicamente os gritos, mas antes conservá-los como recurso excepcional. Quando se tornam uma forma de comunicação habitual, é talvez a altura de nos interrogarmos sobre o seu significado.”
Nunca se grita sem razão e, sobretudo, nunca porque se gosta de o fazer. Os gritos são uma má res-posta a uma boa questão. Grita-se para que os outros nos ouçam ou nos respeitem, para defender o nosso território ou ainda para extravasar uma agressividade acumulada. E fica-se tão viciado nos gritos que não se des-codifica a sua função.
O yoga do sorriso
Antes de querer disciplinar os seus filhos, os pais devem saber disciplinar-se a si próprios
Thich Nhat Hanh, mestre zen vietnamita, dedicou um livro à ira*. Quando sentimos
a ira tomar conta de nós, ele aconselha que retiremos alguns segundos para praticar
o “yoga da boca”: de olhos fechados, inspira-se, sorrindo e dizendo para nós mesmos: “Eu sorrio.” Depois expira-se, sentindo o rosto, o pescoço e os ombros relaxarem e prosseguimos até nos sentirmos apaziguados. Nenhuma tensão resiste a esta prática
Isto porque um corpo descontraído envia ao cérebro límbico, centro das emoções, mensagens apaziguadoras e este, por sua vez, remete-as para o organismo
O nosso rosto possui mais de 30 músculos, explica Thich Nhat Hanh, e todas as tensões interiores se reflectem neles. A prática deste exercício permite dissipar todas
as tensões musculares e transformar
a emoção negativa em tranquilidade
La Colère, edições Pocket. O exercício do sorriso foi extraído do livro Soyez Libre lá où vous êtes, de Thich Nhat Hanh (edições Danares) |
Teresa, chefe de secção numa grande superfície, tem 45 anos e duas crianças em idade de “testarem a minha capacidade de manter a calma. Quando a minha filha de quatro anos mede forças comigo, perco as estribeiras e entro numa espiral de gritos da qual saio sempre com um enorme sentimento de culpa e de vergonha de mim mesma. Eu sou a adulta, sou eu que devo dar o exemplo. Mas estou a trabalhar intensamente para parar com este padrão. E o que descobri é que a minha família vive agora muito melhor. Decidi que era tempo de mudar quando, um dia, a minha filha mais velha, que tem sete anos, no meio de uma cena de gritos, me disse, muito calma: ‘Mãe, já chega. Não grites mais que eu não gosto.’”
“O pequeno grito irá tornar-se grande”, constata a terapeuta Jeanne Simon. “O crescendo é inevitável.” Não existe uma forma razoável de gritar... porque o grito é a expressão de um sentimento de impotência. “E o limiar de tolerância diminui quando se é regularmente confrontado com uma situação que toca precisamente no ponto que dói.” Muitos são os pais que, apesar de adorarem os filhos, acabam por perder toda a possibilidade de comunicação com os filhos por causa de anos de gritos e de discussões. Para sair desta espiral, terá de fazer-se uma pequena sessão de introspecção. A primeira questão que deve colocar-se é: “O que é que acontece… se eu não gritar?” O facto de gritar será medo de perder a autoridade? De ser dominada ou esquecida? Ou serão os gritos uma manobra de diversão face a uma dificuldade que não se ousa enfrentar? Para renunciar aos gritos, é também necessário tomar consciência de que eles são perniciosos. “Enquanto não sentir que os gritos são um mau trato que se está a infligir a si própria, continuará a acreditar que deles se pode tirar benefícios”, sublinha Stéphanie Hahusseau.
Como parar de gritar
Meta-se na pele dos seus filhos pequenos e pense no terror que eles sentem quando a vêem fora de si
Evite situações de stress. Não mande as crianças interromper uma actividade que lhes dá prazer para os mandar para o banho, limpar o quarto… Dará discussão. Estipule que, depois dos desenhos animados, sem discussões, irão para a banheira
Diga para si mesma, se sentir que está a perder o controlo: “Vou-me acalmar e pensar no que vou fazer”
Feche os olhos e respire lentamente até sentir que é capaz de adoptar um comportamento positivo |
Ora essa agressividade é um verdadeiro veneno: faz subir a pressão arterial e o ritmo cardíaco, perturba as funções digestivas e provoca pro-blemas de concentração e de sono… A ira paga-se muito cara. Quem está sempre a gritar com uma criança ou com um familiar sabe que, de uma maneira geral, essa forma de comunicar conduz a um impasse. Perante os gritos, o outro fecha-se, responde com agressividade ou foge.
Não existem fórmulas mágicas para calar os gritos. Os métodos voluntaristas, do género “Juro que não vou gritar mais!” estão sempre, mais tarde ou mais cedo, condenados ao fracasso. Porque sufocar uma emoção não faz com que ela desapareça. “Há que adoptar o caminho inverso”, preconiza Stéphanie Hahusseau. “É preciso debruçar-se sobre o sofrimento ou a confusão que estão por detrás de uma fúria. Terminados os gritos, pode deixar-se vir ao de cima as emoções, em vez do desprezo e do sentimento de culpa. Os gritos têm então boas hipóteses de desaparecer.”
“Estava consciente de que o meu comportamento era inadequado à minha função parental, mas não conseguia agir de outra maneira”, confessa Luísa, de 43 anos, enfermeira, mãe de uma rapariga de oito anos. “Perante o sofrimento da minha filha e também do meu, decidi pedir ajuda a uma psicóloga. O meu comportamento tinha uma história com várias décadas e os meus gritos faziam-me lembrar outros que tinha ouvido na minha infância. Eu repetia o padrão, repetia um modelo educativo que tinha ‘herdado’. Não foi fácil parar, mas impus-me metas diárias: hoje não grito, amanhã também não. Compreender por que agia daquela forma ajudou-me na minha busca da paz familiar.”
Uma outra sugestão é fazer uma pausa assim que sentir que se está a dois passos de perder a calma. E para evitar a inevitável escalada, o melhor é usar o que nos resta de sangue-frio para acabar com a discussão. Adiá-la não é passar-lhe por cima. Comunicar a sua fúria permite por vezes não a expressar fisicamente. “Quando os gritos fazem parte de um modo de ‘comunicação’ habitual, perdem sempre a sua força de discussão”, explica Jeanne Simon. “São muito mais entendidos como uma confissão de fraqueza do que de força.”
Foi, aliás, depois de ter ouvido o filho de 14 anos dizer ao telefone a um amigo: “A minha mãe, depois das crises, fica ainda mais fixe”, que Edite decidiu ser mais firme nos castigos e mais calma na sua forma de comunicar. “Ganhei autoridade e serenidade.”
*Tristesse, Peur, Colère. Agir sur ses Émotions, edições Odile Jacob. |
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