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DOSSIER







Polígrafo
Este instrumento de registo de respostas fisiológicas permite detectar se uma pessoa está
a mentir. Mas, no nosso dia-a-dia, teremos de recorrer a métodos mais simples...

Fazêmo-lo todos os dias. E que atire a primeira pedra quem (pensa que) só diz a verdade. Mas se as falsidades do quotidiano são relativamente inócuas, as grandes mentiras podem trazer consequências devastadoras.

Por Mariza Figueiredo

“Fica-te muito bem este vestido”, “Desculpe o atraso, estava um trânsito horrível”, “Sim, sim, claro que já fiz este tipo de trabalho!”, “O cheque já seguiu pelo correio”. Soa-lhe familiar?

Não estranhe. Diariamente, somos confrontados com situações que nos levam, pelas mais variadas razões, a não dizer exactamente o que pensamos ou a não revelar a verdadeira realidade dos factos. Dizemos estas e muitas outras pequenas mentiras e meias verdades, ou simplesmente omitimos certos aspectos que não nos interessam ou que achamos que não vêm ao caso numa determinada situação.

Dizemos cerca de duas mentiras por dia. É o que afirmam os especialistas. E é incontestável que a mentira faz parte do nosso dia-a-dia. Um contra-senso, se levarmos em conta a nossa tradição cultural judaico-cristã, que tem a mentira como algo que vai contra a moral e os bons costumes. A mentira é, por isso mesmo, censurável, ou não fosse este um dos sete pecados capitais. Os ditados dizem: “Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo” ou “A mentira tem pernas curtas”. “São expressões que sublinham este carácter moralista da questão”, observa a psicóloga Ana Eduardo Ribeiro.

Seremos todos imorais? E a mentira será mesmo condenável? Quem mente? E por que o faz? Quais serão as consequências de todas estas mentiras?

“O mundo seria inviável se fosse preciso dizermos tudo o que nos passa pela cabeça”, declarou a psicóloga e investigadora francesa Claudine Biland à revista Madame Figaro. Para esta especialista que se dedica há mais de uma década ao tema e é autora do livro Psychologie du Menteur (Psicologia do Mentiroso), “a mentira é, felizmente, uma actividade quotidiana muito banal”.

A forma como nos apresentamos no dia-a-dia é necessariamente editada de alguma maneira. Quando estamos a interagir de forma verdadeira, escolhemos apresentar aspectos nossos que são mais relevantes para a conversa ou para os objectivos do momento, sem qualquer tentativa de induzir em erro. As interacções enganadoras são frequentemente motivadas pelos mesmos objectivos”, comenta, no artigo The Many Faces of Lies*, a psicóloga norte-americana Bella DePaulo, da Universidade da Califórnia, que tem também a mentira como campo de trabalho. A especialista acrescenta: “Podemos querer trocar amenidades ou opiniões, criar uma determinada impressão de nós mesmos, ganhar amigos ou influenciar pessoas.

A criança e a mentira
Até aos 6 ou 7 anos, não há uma grande distinção entre o real e o imaginário, como têm os adultos
Antes desta idade as suas mentiras são falsas mentiras, que misturam real e imaginário de forma pouco intencional
A falta de domínio da linguagem pode dar origem a afirmações que podem ser erroneamente consideradas mentiras
A palavra, para a criança, tem o sentido real e não tão simbólico como para nós. Num caso real, os pais revelaram à filha que a avó tinha ido “para o céu” e, durante muito tempo, esta temia que os aviões magoassem a avó
A criança mente frequentemente para evitar um castigo.
E quanto mais pequena, mais rapidamente se desarma perante
as evidências
Teme o castigo, mas, por outro lado, não quer desiludir os pais, quer agradar-lhes
As crianças aprendem a mentir a observar-nos. Vêem-nos a dizer mentiras, mas depois dizemos-lhes que é feio fazer isso
É importante mostrar-lhe que é bom dizer a verdade.
Mostrar que é importante ter a coragem de assumir a asneira que fez e dar-lhe espaço para falar sobre ela
Se for constantemente castigada, mente e gera-se uma barreira comunicacional

Quando estes objectivos podem ser alcançados sem induzir ninguém em erro – por exemplo, quando as impressões que pretendemos transmitir coincidem com o que realmente pensamos de nós mesmos ou quando os alvos da nossa tentativa de influência não têm qualquer razão para resistir a estas tentativas – então não há razão para mentir. Sob condições menos auspiciosas, no entanto – por exemplo, quando queremos mostrar familiaridade com um tema em discussão, quando na realidade não temos nenhuma, ou quando os alvos de um lançamento de vendas pudessem virar as costas e ir embora caso soubessem a verdade que está por detrás do produto – então mentir seria uma tentação.”

Num dos estudos que desenvolveu sobre o tema, Bella DePaulo, juntamente com a investigadora Deborah A. Kashy, da Universidade de Michigan, pediram a dois grupos de voluntários que anotassem num diário, durante uma semana, todas as mentiras que dissessem a cada interacção social que tivessem. Um grupo era composto por alunos da universidade e o outro por cidadãos comuns, membros da comunidade, com o objectivo de obter uma amostra mais representativa da população. A investigadora verificou que, em média, os estudantes mentiam em 38 por cento das situações, ou seja, diziam duas mentiras por dia ou uma mentira a cada três interacções sociais. Os membros da comunidade, por sua vez, mentiam em 30 por cento das situações, o que significa uma mentira por dia ou uma mentira a cada cinco interacções sociais. De entre os 124 voluntários, apenas um estudante afirmou não ter dito qualquer mentira e somente seis membros da comunidade afirmaram ter sido completamente honestos no período de tempo em que teve lugar o estudo.

Refira-se que a maioria das interacções em que não houve mentira tiveram lugar pessoalmente, em encontros cara-a-cara. As que decorreram à distância, como pelo telefone, apresentaram uma taxa mais elevada de mentiras. E tanto estudantes como membros da comunidade disseram menos mentiras do quotidiano àqueles que sentiam como sendo mais próximos. As pessoas estudadas contaram menos mentiras por conveniência ou lucro pessoal aos amigos do que aos conhecidos ou estranhos, mas contaram mais mentiras altruístas aos amigos do que aos conhecidos e estranhos.

Integrantes de ambos os grupos afirmaram não se sentir perturbados com as suas mentiras, ainda que declarassem ter-se sentido um pouco mais angustiados enquanto mentiam. Mas o desconforto era, de uma maneira geral, baixo. E, passada uma semana, afirmaram que teriam voltado a contar 70 por cento das mentiras.

Mentimos essencialmente sobre cinco tópicos específicos: os nossos sentimentos e opiniões; as nossas acções, planos e locais onde estivemos; os nossos conhecimentos, as nossas realizações e as nossas falhas; as explicações sobre o nosso comportamento; e factos e posses pessoais. As mentiras mais comuns entre estudantes e membros da comunidade estudados por Bella DePaulo foram as relacionadas com os sentimentos e opiniões.

Farejar uma mentira
Esqueçam os estereótipos sobre os mentirosos. A psicóloga e investigadora francesa Claudine Biland revela como detectá-los:
Ao mentir, as pessoas não tendem a corresponder ao estereótipo – nervosismo, agitação, olhar fugidio. Pelo contrário, fazem-no com calma, a sorrir, a olhar o interlocutor nos olhos mais do que as pessoas de boa fé, têm um discurso fluido e sem excitação
A voz está ligada à sede das emoções no cérebro
A sua tonalidade pode revelar as emoções. A tonalidade mais grave corresponde a uma emoção positiva, e a mais aguda, a uma negativa
O detector de mentiras usa como base as emoções, o ritmo cardíaco e a sudorese, mas pode induzir em erro
O sistema FACS (Facial Action Coding System) parece ser o mais fiável detector de mentiras
Em cada interacção, as palavras representam apenas 35 por cento. A expressão facial desempenha um papel muito importante e revelador
O sorriso verdadeiro envolve um só músculo – o grande zigomático – que provoca uma série de efeitos em redor dos olhos, cria um ligeiro inchaço na parte inferior, pés de galinha no canto externo e, sobretudo, o abaixamento das sobrancelhas
O falso sorriso faz mover apenas um conjunto de músculosà volta da boca

Os motivos que levam à mentira podem ser egoístas – centrados na própria pessoa – ou altruístas – centrados no outro. As mentiras egoístas visam proteger ou beneficiar o mentiroso psicologicamente, aumentando a sua auto-estima, ajudando-o a conquistar o respeito dos outros, entre outras coisas, ou proteger ou promover os seus interesses. São contadas para evitar que o mentiroso seja exposto ao embaraço, ao conflito, à desaprovação ou a que tenha os seus sentimentos feridos. Neste âmbito, a maioria das mentiras recolhidas ao longo do estudo eram contadas mais por razões psicológicas do que por razões de conveniência ou lucro pessoal.

As mentiras altruístas, por sua vez, são também contadas por razões psicológicas, para protecção ou vantagem, mas o protegido ou beneficiado não é o mentiroso. O objectivo é poupar o outro. “Pelo menos do ponto de vista do mentiroso, as mentiras altruístas são bem intencionadas”, afirma DePaulo. Mas muitas vezes este assume o que o outro quer ouvir, sem que isso seja realmente verdadeiro. É possível haver diferenças entre o ponto de vista do mentiroso e daquele que este quer salvaguardar.

Engana-se quem pensa que as mulheres mentem mais do que os homens. Isso não é verdade. Homens e mulheres fazem-no com a mesma frequência. “A única diferença é que a mentira feminina tende a ser mais por motivos altruístas do que egoístas, com a finalidade de não ferir o interlocutor”, observa Claudine Biland. O estudo de Bella DePaulo indicou que, quando os homens eram os mentirosos e/ou alvos da falta de verdade, as mentiras que visavam servir os interesses do mentiroso foram duas vezes mais frequentes do que as altruístas. Agora, “quando a mulher é vítima de uma mentira, reage de forma mais violenta e é-lhe difícil perdoar. Para o sexo feminino, a confiança é tudo”, comenta, por sua vez, Claudine Biland.

Os mentirosos perfeitos representam apenas 15 por cento de toda a população. É o que diz a especialista francesa. São pessoas como os agentes secretos ou os grandes burlões, que conseguem esconder completamente as suas emoções.

Não podemos dividir a população entre mentirosos e não mentirosos, mas a verdade é que há pessoas que têm mais tendência para mentir do que outras. Os extrovertidos, por exemplo, têm mais facilidade que os introvertidos, pouco confiantes nas suas capacidades relacionais. E, segundo as investigações de Bella DePaulo, as pessoas que contam mais mentiras são realmente mais manipulativas e irresponsáveis do que as que contam menos.

A mentira é um meio de ocultar a realidade. “Estas pessoas mais dadas à mentira não serão aquelas que têm mais dificuldade em encarar a sua realidade interna?”, pergunta a psicóloga Ana Eduardo Ribeiro. A mentira pode servir como barreira de protecção para não se contactar com aspectos internos.

Os mitómanos, por sua vez, também mentem por prazer. “Mentem sobremaneira e extraordinariamente! O grande prazer que sentem é perceber o efeito que a mentira tem nos outros, perceber que estão a manipular o outro. Nestes casos, a mentira é uma forma de exercer poder”, observa Ana Eduardo Ribeiro.

O facto de serem banais tornará aceitáveis estas mentiras do quotidiano? Para Claudine Biland, “as mentiras altruístas são normalmente encorajadas”. Dizer toda a verdade a um doente grave, por exemplo, é uma atitude contestada por muitos, uma vez que o papel do aspecto psicológico é muito importante na cura.

“Também aceitamos as mentiras egoístas mais ou menos insignificantes, como apresentar-se nos seus melhores dias no início de um namoro (nesta fase, apresentamos uma mentira a cada três interacções, enquanto que, num casal já instalado, isso acontece apenas uma vez em cada 10 interacções), ou dourar os méritos profissionais quando se trata do currículo para conseguir um trabalho”, comenta a psicóloga francesa.

Para Bella DePaulo, as pequenas mentiras do quotidiano parecem deixar uma pequena mancha, ainda que a maioria pareça ser de pequenas consequências morais.

Mas além das pequenas mentiras, há aquelas mais sérias e graves. Aparecem com menos frequência, mas têm maiores consequências, sobretudo se directa ou indirectamente envolverem crianças.

As grandes mentiras giram em torno de tópicos como os casos amorosos, as más acções, factos pessoais ou sentimentais, socialização proibida, dinheiro e trabalho, morte e doença, identidade, violência e perigo. São mentiras que também podem ser egoístas ou altruístas. Bella DePaulo indica que enquanto 25 por cento das mentiras do quotidiano podiam ser descritas como sendo bem intencionadas e orientadas para proteger o outro, no caso das mentiras sérias, só 10 por cento tinham estas características. Os outros 90 por cento foram em benefício próprio.

Cerca de dois terços das mentiras mais sérias foram contadas a pais ou por estes, a cônjuges ou parceiros românticos, a melhores amigos e crianças. “As mentiras são contadas a estas pessoas, não porque os mentirosos não lhes dêem importância ou não se preocupem com o que elas pensam, mas exactamente porque se importam. Na realidade, quanto maiores as expectativas do outro sobre o nosso comportamento virtuoso e quanto mais importante é para nós manter a nossa honra perante os seus olhos, mais provável será que mintamos para cobrir as nossas falhas”, esclarece a especialista.

Existem mentiras familiares que são perpetuadas com as melhores das intenções do mundo, muitas vezes sob o pretexto de proteger a criança”, escreveram Danielle Dalloz e Véronique Rolland, no livro Mentira (Pergaminho). Mas o que fará com que a criança sofra menos: ter conhecimento da verdade ou viver alheada do que é o mundo, construindo a sua existência à volta do terreno pantanoso da mentira?

Mentir sobre as grandes verdades da vida – o nascimento, a vida, a morte – da criança ou daqueles que a rodeiam deixa marcas difíceis de superar. No seu livro, as autoras francesas relatam diversas histórias que são reveladoras desta verdade. Uma delas é a do menino Michel que é criado pelos avós e desconhece quem é o pai. É levado à consulta de psicoterapia devido às suas crises de violência, sobretudo quando alguém lhe faz uma promessa e não cumpre. “Chama a mãe pelo nome próprio e aos seus avós chama papá e mamã. ‘É mais fácil, isso não lhe levanta problemas e ele nunca faz perguntas’, dizem-me [os avós]”, lê-se. “(…) Vivem uma mentira de consequências pesadas, visto que anula, suprime, mata a filha deles. (…) O imaginário de Michel parece bloqueado. A mentira sobre as suas origens autênticas fê-lo construir-se em torno de uma recusa do outro (o pai recusou o seu nascimento), e vive uma fúria interior que se descarrega a todo o momento à menor recusa e logo que há mentira.”

As mentiras de que
se fazem as verdades
segundo Isabel Leal

1
Para que os pequeninos ascendam a esta difícil condição humana, temos que lhes ensinar, de forma simples e clara, os nomes das coisas. Como ainda por cima os nomes são arbitrários, esforçamo-nos como podemos para que as palavras se associem a imagens, sensações e objectos e, só na fase seguinte, entramos em profundidade naquelas complexas abstracções que nem nós percebemos bem, quanto mais eles. Aí, para simplificar, bem entendido, clivamos tudo em bom e mau, feio e bonito, certo e errado, e esperamos que a vida e o crescimento ensinem o que nós não somos capazes: que tudo é muito matizado e complicado.

2
Como em muitos registos ensinamos aos outros o que nos ensinaram a nós, passamos sobre a mentira o que é comummente aceite: que mentir é mau, feio e errado. Logo, a coisa fica assim, eternamente, e sentimo-nos, vida fora, em permanente transgressão quando inventamos desculpas; quando mentimos com os dentes todos e um enorme sorriso ou uma enorme atrapalhação; quando desviamos a conversa para omitir o que não nos interessa; quando enrolamos meias verdades com meias mentiras em busca de um equilíbrio conveniente à situação ou ao interlocutor.

3
Alguns de nós, por rigidez ou por plasticidade excessivas, escapam a esta mediania pecaminosa e mesquinha.
Os primeiros esforçam-se por não mentir e dizem coisas terríveis que magoam horrores ou calam-se, uma e outra vez, até quase perderem capacidade de intervenção, confrontação e opinião. Os segundos dizem o que lhes apetece ou lhes convém, acabando, bastas vezes, por perder qualquer capacidade crítica e, frequentemente, acreditam nas histórias que vão contando e modelam o que são, e como estão, em conformidade.

4
Depois, há sempre uns tantos inquietos que buscam a verdade e se enrodilham em pequenos detalhes, em palavras bonitas ou exóticas, em formas de dizer, em sugestões inacabadas, em corpos densos de revisões conceptuais. Desses emergem, para nosso gáudio, os pensadores que dão corpo à filosofia e os sofredores que dão voz à poesia. Às vezes, por caminhos ínvios de pequenas batotas, leves mentiras ou imensos enganos, chegamos a verdades absolutas que servem, pelo menos a nós. É por isso que nem tentamos explicar aos mais pequenos.

A adopção (e a sua revelação) é outra área em que a mentira pode marcar de forma profunda. “Revelar a sua concepção e as suas origens a uma criança é necessário para a sua estruturação. A verdade constrói a criança”, escrevem Danielle Dalloz e Véronique Rolland, que acreditam não haver uma idade ideal para fazer esta revelação. “Deveria falar-se à criança das suas origens logo no início da vida. Mas podemos adiantar que os danos são preocupantes quando a verdade é desvendada tardiamente (por exemplo, entre os 15 e os 18 anos).” As autoras referem duas histórias sobre dois homens que souberam tardiamente que eram adoptados. A sua relação com as mulheres revelou-se instável e enganosa, tendo-se transformado em verdadeiros Don Juans.

“Estes homens foram destruídos pela mentira sobre as suas origens. Anularam o que sentiam, a sua afectividade, para se identificarem com o mentiroso e se vingarem assim deste logro nas mulheres e na sociedade. É um preço considerável a pagar.”  Mentir sobre a morte de um ente querido e próximo não protege. Pelo contrário, impede que a criança faça este luto, dando origem a diversos sentimentos negativos. No seu livro, Danielle Dalloz e Véronique Rolland contam a história de Marina, uma mulher de 35 anos com dificuldade em aceitar o escoamento do tempo, que tinha relutância em deixar que a própria filha crescesse e que temia o abandono. Através da terapia, chegou ao ponto fulcral: quando a avó, que praticamente a criou, morreu, a mãe disse-lhe que esta tinha ido para Espanha. Queria que a filha “tivesse uma infância de sonhos, numa redoma cor-de-rosa, dentro de algodão em rama”. Marina tinha cinco anos e não compreendia como é que a avó tinha partido sem lhe dizer nada. Passava os dias a olhar pela janela, à sua espera. E a menina, dentro de si e até àquele momento, nunca tinha feito o luto pela avó, fazia tudo para se lembrar dela e recusar a sua morte. “A mentira gera confusão, ofusca. Não permite à criança elaborar o luto, tomar consciência de que não vai voltar a ver aquela pessoa. Neste caso, o contacto com a verdade também a ajuda a organizar-se”, observa a psicóloga Ana Eduardo Ribeiro.

Mas há mentiras que salvam. É o que acreditam Danielle Dalloz e Véronique Rolland. “Os contos de fadas tradicionais ensinam o uso da mentira e das desobediências salvadoras perante adultos todo-poderosos: o Polegarzinho salva a sua vida e a dos irmãos enganando o ogre; a Gata Borralheira encontra a felicidade enganando a madrasta; a Branca de Neve escapa à rainha porque o caçador mente e mata uma corça”, escrevem. “Os contos de fadas também têm um poder organizativo para a criança. É bom haver fadas e bruxas, assim como é bom o mau morrer no fim. Têm valores parecidos com os rituais de iniciação em África”, completa a psicóloga Ana Eduardo Ribeiro. Mas a verdade tem limites. E a realidade dos factos, de tudo o que envolve a criança, deve ser-lhe revelada na medida em que o seu desenvolvimento psicoafectivo o permitir.

* Incluído no livro The Social Psychology of Good and Evil (Guilford Press)













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