A melhor
amiga de Beatriz chama-se Sofia e mudou-se há pouco
tempo para o bairro. À tarde, no regresso da escola,
as duas crianças de oito anos entretêm-se
na casa da primeira para brincar com bonecas e partilhar
pequenos segredos. “Para o ano a Sofia vai para
a minha escola e vamos passar ainda mais tempo juntas”,
diz a menina, que não cabe em tanto contentamento.
A mãe sorri e explica que a filha mais nova é
muito extrovertida e sociável. “A Beatriz
mostrou sempre muito prazer em estar com as outras crianças,
ao contrário da irmã, que é muito
reservada.”
Apesar da natureza sociável que nos é intrínseca
e se anuncia desde muito cedo, nem todos temos a mesma
capacidade – ou à-vontade – de ir ao
encontro do outro e de nos deixarmos cativar por ele.
Os especialistas em comportamento asseguram que, quando
esta dificuldade se revela e permanece no tempo, é
preciso agir, criando incentivos que levem a criança
a ultrapassar a situação. Porque é
bom ter amigos. “
Com eles, descobre-se o prazer das
coisas feitas em conjunto – brincar e jogar –
e da cumplicidade”, observa a pedopsiquiatra Teresa
Goldschmidt. Mas não só, assegura. Muitas
das descobertas que as crianças fazem, “e
são essenciais para o seu desenvolvimento”,
fazem-nas com os amigos. Uma das mais importantes “diz
respeito à capacidade de resolução
de conflitos”, uma aptidão que se vai revelar
igualmente necessária à medida que vamos
crescendo. Por outro lado, a amizade permite “desenvolver
sentimentos de pertença e de identidade”,
lembra a psicóloga Sara Almeida, explicando: “Aprende-se
a ser com o outro.”
A amizade surge assim como um importantíssimo suporte
emocional e social da criança, conforme referem
a psiquiatra Anita Guarin e a psicóloga Alice Pope.
“Através deste tipo de relação,
os mais pequenos aprendem o dar e receber do comportamento
social, em geral”, escrevem no livro Do Kids Need
Friends? (As crianças precisam de amigos?). As
especialistas norte--americanas, autoras de várias
obras sobre desenvolvimento na infância e na adolescência
e relações entre pares, enunciam as vantagens
de uma boa amizade: através dela, aprende-se a
acatar as regras mas também a arranjar alternativas
e a tomar decisões perante as dificuldades, aprende-se
a ganhar e a perder e descobre--se o que é e não
é correcto. Com os amigos, experimenta-se o medo
e a raiva, a agressividade e a rejeição,
e aprende-se a compreender o ponto de vista dos outros,
entre outras coisas.
Nada nem ninguém nos pode dar tanto, de forma tão
genuína. Ou como disse João dos Santos,
médico e psicanalista infantil, nas suas conversas
na rádio: “Nem na escola nem na vida nos
conseguem corrigir da perda que consiste em não
aproveitarmos tudo quanto os amigos nos podem dar.”
 |
A
amizade ao longo do tempo
Sara Almeida explica-nos o conceito da amizade ao
longo das várias fases da infância:
• Até aos 2, 3 anos: a criança
vive numa fase de egocentrismo (brinca sozinha,
observa e explora) • Estádio zero,
até ao 6 anos: a amizade ainda tem um carácter
momento, o amigo é o que está perto
• Estádio 1, até aos 8 anos:
o amigo deixa de ser só o semelhante e familiar,
mas ainda é momentâneo •
Estádio 2, dos 9 aos 12 anos: a evolução
do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo e
psicoafectivo leva a um enriquecimento do conceito
de amizade, desenvolvendo-se a noção
de intimidade na relação |
Com os amigos, adquirem-se aptidões
que não seriam possíveis de desenvolver
na família, com a protecção dos pais
ou a rivalidade entre irmãos. “Com os amigos
não se discute o lugar na família, logo
a criança identifica-se e aprende mais facilmente
com eles. Os irmãos até podem ser amigos,
mas, antes disso, são irmãos”, observa
Sara Almeida.
A amizade ou a capacidade de estabelecer relações
sociais não é idêntica ao longo de
todas as fases do desenvolvimento. O próprio conceito
de amizade está em evolução constante.
Nos primeiros três
anos, a criança não brinca com as outras,
estabelecendo uma relação preferencial
com os adultos, garante Teresa Goldschmidt. “Embora
possam estar juntas na mesma actividade, como acontece
com as que estão no jardim infantil, cada uma
está a brincar com as suas próprias coisas.
Observam, manipulam alguns o-bjectos e já fazem
alguma coisa do jogo simbólico, mas ainda não
interagem.” Não há sequer a noção
de partilha.
É só depois de ultrapassar esta “fase
de egocentrismo, que é natural”, que se
começa a dar os primeiros passos no sentido da
relação com o outro. Por volta dos cinco
anos, os meninos já têm amigos, “alguém
que lhe é familiar e está próxima”,
explica Sara Almeida.
Agora, a criança já brinca com as outras.
Partilha os brinquedos e demonstra prazer nas brincadeiras,
as quais, segundo Teresa Goldschmidt, “lhes vão
ensinando muito das regras de comportamento do mundo”.
O processo de aprendizagem no campo emocional e social
está finalmente em curso. Inevitavelmente, também
surgem as zangas, as guerras pela mesma boneca ou pelo
mesmo carrinho, os primeiros desgostos com o amigo e
as lágrimas. “É natural que as crianças
se zanguem e batam, mas também que resolvam a
situação entre elas, pois é a forma
de adquirirem cada vez mais capacidade para resolver
os conflitos. Por isso, é muito bom quando os
adultos não têm de interferir. Por vezes,
há uma tendência protectora dos pais nesse
sentido, a qual deve ser evitada.”
Os especialistas defendem que, a partir dos quatro anos,
já é possível perceber claramente
as crianças mais sociáveis: são
aquelas que chegam ao parque infantil, por exemplo,
e vão ao encontro dos outros. Oferecem-lhes os
seus brinquedos ou pedem-lhes para brincar com elas.
Mostram prazer na relação.
Outras, mais acanhados, evitam o contacto. “São
meninos com dificuldades em se organizarem rapidamente
e entrarem na relação com os outros”,
diz Teresa Goldschmidt, sublinhando que, muitas vezes,
a situação é superada através
da aplicação de pequenos truques. “Levar
a criança para o jardim infantil quando ainda
há poucos meninos na sala pode ser uma forma
de facilitar a aproximação.”
Hoje, é muito comum responsabilizar
a televisão, a playstation e o computador pelo
isolamento das crianças. Diz-se que são
bloqueadores da sociabilidade. Sara Almeida discorda totalmente
desta teoria, embora defenda que “deve haver bom
senso” na relação que se estabelece
com estas ferramentas de entretenimento. Por outras palavras,
o excesso de envolvimento nestas actividades pode ser
negativo a vários níveis, mas, na medida
certa, não prejudica ninguém. Em consciência,
não podemos tomá-los como bloqueadores da
sociabilidade. “Para além disso, é
sempre possível assistir a um filme e jogar acompanhado,
com um amigo.”
 |
O
que os pais podem fazer
• Mostrar aos filhos, de preferência
através de exemplos práticos, o quanto
valorizam a amizade
• Interessar-se pelas coisas de que a criança
gosta e ajudá-la a estabelecer amizades que
proporcionem intimidade e companheirismo
• Nas situações em que as dificuldades
relacionais da criança se ficam a dever ao
facto de ter preferências muito específicas,
pouco comuns para a sua idade, tentar encontrar-lhe
um grupo onde a sua inclinação possa
ser bem-vinda
• Se a criança é introvertida
e o problema tem sobretudo a ver com timidez, evite
expô-la, mas permita-lhe experiências
relacionais em contextos mais pequenos e mais acolhedores
• Nunca adopte uma atitude de protecção
exagerada |
Para a psicóloga infantil,
o perigo só se instala efectivamente quando as
crianças utilizam estes meios como uma forma de
evitamento maciço das relações sociais.
“Há casos desta natureza, mas situam-se no
domínio do patológico”, diz. “Dentro
do registo normal, há variantes. Contudo, cabe
aos pais agirem rapidamente se perceberem que o seu filho,
que já demonstra dificuldades em entrar em relação
com os outros, está a utilizar a televisão
ou o computador como refúgio.”
Quando as coisas correm bem ao nível do desenvolvimento,
é esperado que a criança se torne mais selectiva
nas suas amizade entre os seis e os oito anos. Por esta
altura, o conceito de amizade evolui um pouco mais, embora
o amigo ainda seja um pouco “momentâneo”
– isto é, o que está nas proximidades.
A partir dos oito anos, a criança torna-se ainda
mais selectiva e “um pouco tímida no iniciar
do relacionamento social”, o-bserva Teresa Goldschmit.
“É uma atitude normalíssima, que tem
a ver com a diferenciação que se faz entre
aqueles que estão próximos e os que não
se conhece tão bem.”
O final da infância acompanha
o desenvolvimento cognitivo, o qual está por
detrás do conceito de amizade. De acordo com
a psicóloga infantil Sara Almeida, a criança
começa a ter a noção da abstracção.
“As relações de amizade, que nos
primeiros anos de vida passavam muito pelo ‘ele
é meu amigo porque é parecido comigo,
gosta das mesmas coisas que eu, empresta-me o seu brinquedo,
faz--me feliz e faz aquilo que eu gosto’, transformam-se.
O amigo já não é só aquele
que está no momento, mas aquele que está,
mesmo quando não está, e aquele que me
diz coisas que eu não gosto.”
À medida que uma nova noção de
amizade se consolida, as crianças podem sentir
necessidade de procurar outro tipo de relação
social, como a inserção num grupo –
aliás, até mesmo antes, se considerarmos
a entrada nos Escuteiros uma experiência desse
tipo.
Teresa Goldschmidt distingue-as: “Ter um amigo
é uma relação mais individualizada,
enquanto pertencer a um grupo é algo bem mais
difuso. Com os amigos, as coisas são resolvidas
a dois. Com o grupo, onde existe a figura do líder,
há que ter outras competências, tal como
aceitar as regras vigentes ou introduzir mudanças
ou ainda disputar a liderança.”
De qualquer forma, de acordo com um estudo da Universidade
do Maine, nos Estados Unidos da América, “não
há grupo que substitua um grande amigo”.
“O grande amigo resgata a criança da solidão
e da depressão, mesmo que esta seja considerada
uma estranha no grupo de pares”, afirma Cynthia
Erdley. De acordo com a psicóloga e com Douglas
Nangle, outro especialista envolvido no mesmo projecto,
“a experiência de ter um amigo em quem confiar
pode promover sentimentos de verdade, de aceitação
e de ser compreendido, enquanto a aceitação
no grupo oferece o sentido de inclusão”.
Ambas as relações ajudam a desenvolver
algo tão importante como a auto-estima, “mas
enquanto a aceitação no grupo afecta os
sentimentos de pertença, a amizade afecta directamente
o sentimento de solidão”. Para os dois
psicólogos nor- te-americanos, “os amigos
funcionam como um ‘amortecedor’ da solidão
e da depressão”.
Mas os amigos não acontecem.
É preciso conquistá-los, ir ao seu encontro
e mostrarmo-nos disponíveis. E como vimos, há
meninos que têm maior dificuldade em fazer este
caminho, não só porque as crianças
são movidas por temperamentos, mas também
porque uma relação de amizade ou de inserção
no grupo pressupõe a possibilidade de se ser
rejeitado, posto de parte. Algumas não estão
preparadas para essa prova difícil. “Se,
ao longo do seu crescimento, a criança tiver
desenvolvido uma boa imagem de si, uma boa auto-estima,
vai passar relativamente bem por estes contratempos.
Uma mais frágil, deste ponto de vista, vai pôr--se
em causa nesta situação, vai sentir-se
infeliz e retrair-se”, observa a pedopsiquiatra,
sublinhando que, mesmo assim, é preciso ousar,
ter coragem. Nestes casos, a motivação
passa obrigatoriamente pelos pais, que devem saber incutir-lhes
a importância de fazer amigos e amá-los,
sem os proteger demasiado.
|