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Alcançar o estatuto de “eleita” no mundo da moda é o sonho de muitas raparigas. Conheça o que hoje se considera talento para ser “a tal”modelo. Por Clara Soares
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Magnetismo. Carisma. Presença. Definir o que é ser top model é complicado. Um “não sei o quê” que funciona como um íman, impondo naturalmente a sua presença (mesmo quando a impressão deixada não é consensual).
Comecemos pelos atributos pessoais: ter as medidas standard de beleza, boa postura, flexibilidade, charme, originalidade e disciplina. A empatia com a câmara e o estilo de vida saudável também contam na equação. Junte-se-lhe uma boa dose de equilíbrio emocional para interpretar personagens em várias situações, sem perder a graça nem a descontracção.
Um desafio hercúleo com morte anunciada por destino: quem chega ao pódio das atenções como ícone estético sabe que essa cotação tem, quase sempre, uma validade efémera. Sobretudo na sociedade de banda larga que marca mais um início de década, em que os conceitos de moda já não se enquadram nas grelhas de leitura de outros tempos. As imagens e símbolos do que é considerado “padrão” tendem a ser diversos e mutantes, ao sabor das economias de escala e das motivações dos consumidores que, nas redes sociais, produzem criadores e seguidores de tendências, marcando a agenda dos estilistas, das marcas e do que é, a cada momento, ser Top.
O programa Ídolos (SIC), em que pessoas comuns podem tornar-se famosas pelo talento (cantar e encantar), é um exemplo de como a popularidade de pessoas reais pode condicionar os critérios que definem o que é moda. As agências reorientam o foco da sua atenção para os candidatos da final, do mesmo modo que já o tinham feito com os actores de novelas, os apresentadores de televisão e os atletas.
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O sonho de ser modelo parece estar hoje ao alcance de todos, em dimensões e escalas diferentes, mas não menos relevantes. Tal convicção traduz-se, por exemplo, no sucesso esmagador do programa Americas´s Next Top Model. Presente em mais de 170 países, alcançou, na temporada 11, o estatuto de programa mais visto do canal por cabo SIC Mulher, destronando o imbatível Oprah Winfrey Show. Em cada episódio, que pode ser numa cidade e país diferente, o júri do programa de Tyra Banks vai eliminando uma das 14 candidatas a top model, em função da sua prestação em provas que medem, desde a fotogenia e a capacidade de desfilar em alta-costura, até às competências de improvisação e relacionamento com potenciais clientes (marcas). Porém, até que ponto estes reality shows representam os critérios reais das agências?
Para Paulo Gomes, director de projecto do Manifesto Moda (em Portugal, em Angola, no Brasil e na China), trata-se de uma iniciativa com meios de produção imbatíveis e que divulga aquilo que são as regras básicas, de forma realista, para quem deseja abraçar a profissão. A começar na definição dos atributos essenciais de uma modelo: “Seguir os dons naturais, ter bom metabolismo, simpatia, entender o que o cliente quer e usar o corpo como instrumento de trabalho e meio de linguagem.”
O ex-director criativo de casting da ModaLisboa admite que “ser top model não é uma profissão, é apenas TV e marketing” e vai mais longe quando refere “Top” como um termo desactualizado, tal como a dicotomia “modelo de pronto-a-vestir ou de alta-costura”. Estes rótulos faziam sentido nos anos 80, mas não agora, em que a especialização deu lugar à polivalência. Como saber então se os atributos que se possui são suficientes para seguir o sonho, torná-lo real? Paulo aponta alguns mitos que importa rever, logo de início, quando se pensa em ser modelo: “Esquecer a ideia de que os modelos se descobrem na rua, ao virar da esquina; contar com muitas frustrações; partir do princípio que a beleza é relativa; e resistir à rejeição.” Daí que o primeiro contacto com ingresso no meio, que pode ser também encarado como ritual de iniciação moderno, deva contemplar alguns cuidados: “Antes de concorrer ao que quer que seja, vá a uma agência e aconselhe-se com os directores e bookers, que estão avalizados para avaliar as suas competências.” Caso contrário, as expectativas defraudadas podem ser difíceis de gerir. Num dos artigos que escreveu sobre o assunto, a psicanalista Miriam Tawil, autora do livro Mundo Fashion: Modelos e Bastidores, editado há quatro anos, afirma que entre as candidatas que, aos milhares, se candidatam a reality shows de moda e são excluídas – ou vão à final e vão sendo, depois, eliminadas –, o embate com a realidade pode exacerbar fragilidades adormecidas. A terapeuta e conferencista revelou à Máxima que, nas palestras com os pais das candidatas, procura alertá-los para o estado de fragilidade e desequilíbrio que podem induzir nas filhas – por vezes com consequências dramáticas – se as pressionarem demasiado para ingressar no meio: “Quando recusada, a jovem pode ir ao ponto de cortar os pulsos; se não for seleccionada, pode acusar o agente de tê-la iludido.” Uma vez no mercado, manter a sanidade é outro desafio. Entre a centena de modelos que entrevistou para a sua pesquisa, Miriam identificou o mecanismo de defesa de dissociação como o mais frequente: “Para muitas, é o modo possível de romper com o passado e poder trabalhar num ambiente tantas vezes em conflito com os seus valores familiares.” Talvez por isso, nunca se canse de lembrar que, face às exigências da função, é vital que não percam o contacto com o passado, a família e as raízes; que sejam elas mesmas, sem confundir a personagem que representam com a pessoa real.

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À esquerda, desfile Prada. À direita e em baixo,
o backstage de vários desfiles.
Apesar de os concursos e dos castings poderem ser vistos como trituradores de ilusões – os eternos maus da fita –, também é evidente que afectam mais quem já vem iludido.
A actriz Sofia Aparício, conhecida por ser a modelo mais camaleónica de Portugal e com projecção internacional, acredita que o que a fez singrar na profissão, o seu “factor X”, se resume a isto: “Somos aquilo por que passámos e é isso que nos confere valores sólidos e isto aplica-se a mim, que nunca fui a mais bonita, nem a mais alta, ou sequer a mais bem feita.” A chave está na atitude. Sofia frisa que se engana quem acha que ser modelo é – ou pode ser– mais do que apenas um trabalho, em que se espera que a pessoa dê o seu melhor para servir bem o cliente. O que se passa actualmente, acrescenta, é que “muitas pessoas querem seguir determinado caminho por mera vaidade: não querem ser actores, mas estrelas, não querem cozinhar, mas ser chefes de cozinha, e por aí fora, mas à mínima contrariedade fi-cam fragilizadas e sofrem com esse equívoco”. Para quem tem estamina e uma atitude disponível, além dos ditos dons naturais, o percurso pode, ainda assim, não ser fácil. O fotógrafo Cristóvão coloca questões ligadas ao mercado em si, como o facto de “em Portugal, não existirem escolas nem mestres, nem o cliente (marca) ter o hábito de trabalhar com os directores criativos das agências”. Cristóvão também considera, apesar de desconhecedor e pouco dado ao risco, que o mercado tem espaço para tudo neste momento (figuração, publicidade, catálogo, etc.), assim haja gente que reúna postura, bom gosto, atitude, conhecimentos sólidos e sentido de desafio: “O acting (capacidade de representar), o saber sorrir com os olhos que vai além do corpo e da ‘cara laroca’, são aquilo que funciona, porque o mercado já não quer só Barbies como defende o júri do reality show de Tyra Banks.”
Luís Graça, booker internacional da L’Agence, diz ser mais sensível a competições como Super Model of the World ou Elite Model Look, que “fazem uma selecção a pente fino, reunindo condições para que a vencedora de cada país seja uma potencial modelo, com carreira praticamente garantida”. Luís também partilha a ideia de que “vivemos uma altura em que não há top models, caminha-se progressivamente para o anonimato”.

À esquerda, backstage Dolce & Gabbana, a modelo Isabeli Fontana e desfile Balmain.
Em tempo de incerteza e contenção económica global, o mercado (clientes) tende a apostar na normalidade, nas “pessoas reais, cujo atributo mais valorizado é definitivamente o acting. Mas será apenas a isso que se resume o tal factor X, o tal ‘não sei o quê’ ou a ‘star quality’ que há em toda a modelo bem sucedida? Provavelmente não, mas continua a ser complicado definir. David Simões, director da agência DXL, sugere o conceito de classe, baseando-se também na sua longa experiência enquanto modelo premiado e com projecção mundial. David Simões deu-se conta, a certa altura, de que aquilo a que chamava sorte era, segundo os clientes, fruto da sua atitude nos castings: “Ter um corpo decente, estar apresentável e de cabeça erguida, ser empático e capaz de transmitir confiança ao cliente e entrega ao público.”
O que é que o modelo tem?
7 CARACTERÍSTICAS PESSOAIS QUE MARCAM A DIFERENÇA, OU O FACTOR X.
• Presença (físico, postura, estilo de vida)
• Estar informado sobre a sua área
• Identificar o que o cliente ou agência quer
• Capacidade de representar
• Equilíbrio emocional
• Resistência à frustração
• Atitude de entrega
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