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| É a única mulher em evidência no mundo masculino do Rap nacional. Dama Bete está nele com a mesma determinação que a levou a ultrapassar quase tudo na vida. Menos da vontade de vencer. |
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DAMA DO RAP
Quis ser médica, mas o destino reservou-lhe um lugar sem rival na música portuguesa |
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Por Anabela Mota Ribeiro
FotograFia de Carlos Ramos
Styling de Paulo Gomes
Maquilhagem: Antónia Rosa
Cabelos: Helena Vaz Pereira
Casaco Tara Jarmon
Tomamos um capuccino num hotel fino de Lisboa. Ela está sentada à minha frente e tem um corpo franzino, uma voz frágil, uma atitude quase dócil. Custa a identificar aquela como sendo a Dama Bete desafiadora, segura, afirmativa, que está, por exemplo, na capa do disco De Igual para Igual. Ou a Elizabet que não baixou os braços e que não quis desistir. (As suas colegas, como diz, foram mães adolescentes.) Talvez tudo fosse diferente se não fosse o rap. “Quando começo a rappar, eu transformo-me!”, esclarece.
O disco tem dois temas que rolam nas rádios e televisões: Cala-te e Definição de amor. Mas há mais. A atitude, o universo, uma estética americanizada que se abre ao R&B e à cultura europeia. O seu flow(ou seja, a forma de rimar, de brincar com as palavras) é importante, mas não é o mais importante. Dama Bete tem coisas para dizer, e di-las.
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| O álbum De Igual Para Igual marcou a história do hip hop nacional em que Dama Bete se demarcou como a primeira MC feminina. |
Comecemos por palavras suas. “Já percorri caminhos em que me perdi/já tive sonhos que nunca foram cumpridos.” “Destino: tenho que aceitar?” Quando é que percebeu que o seu destino estava nas suas mãos?
Quando era criança, ia à catequese, ia à missa. Achava que tudo estava nas mãos de Deus, que já havia um destino e que nós só tínhamos de obedecer. Ao mesmo tempo, uma parte de mim era contra isso. Aos 16, 17, quis tomar as minhas próprias decisões.
Escolher o curso que queria, impor-me contra os meus pais. Percebi que comandamos o nosso destino. Se lutarmos, conseguimos. Apesar de haver coisas que não escolhemos, como o sítio onde nascemos, a família, a raça.
Que percurso está para trás, até encontrar o seu caminho?
Aos 10 anos, tive uma professora que nos incentivava a escrever poesia. A minha escola ia mudar de nome e passar a chamar-se Matilde Rosa Araújo. Ganhei o concurso, conheci a Matilde Rosa Araújo, pensei que se calhar tinha talento para escrever poesia. Eu tinha boas notas. Até ao sétimo ano tinha cinco a tudo. A partir do sétimo, deixei de me identificar com as minhas colegas. Passei a dar-me com pessoas que viviam em bairros sociais [bairro das Marianas e bairro de Matarraque] que ficam perto da minha casa, na Parede. Percebi que havia outras realidades, comecei a ouvir rap e música negra. Quis falar na minha poesia – que já não era sobre as árvores, o céu – dos problemas da sociedade, de coisas que eu via e que não achava justas. As notas baixaram.
Até aí, quis ser médica.
A minha média era 16,7. O meu pai: “Disseste sempre que querias ser médica e agora já não queres?” Quis cinema, vídeo e comunicação multimédia. Algo em mim chamava-me para um curso ligado às artes. Fui, estudei um ano e desisti. Já começava a fazer música e levava-a a sério. Desisti da Universidade Lusófona, onde a propina era cara… Fui para uma universidade pública estudar Gestão do Lazer e da Animação Turística. Com o intuito de estar ligada aos eventos. Neste momento estou na Restart para aprofundar os meus conhecimentos.
Nasceu em Moçambique, veio aos dois anos para Portugal. Como é que descreveria e situaria a sua família, e como é que isso determinou o seu percurso?
Em 1986, quando vim para Portugal, em Moçambique havia uma guerra civil. E havia fome. O meu pai é português, a minha mãe é moçambicana. O meu pai queria que viéssemos para Portugal. Poderíamos estudar e ter uma melhor vida do que aquela que tínhamos lá.
Somos três filhos do meu pai e a minha mãe tem mais três filhas. O meu pai continuou a trabalhar lá, na exportação de madeiras para a África do Sul. Sempre vivi só com a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão. O meu pai, o contacto que tive, foi: pagou os estudos, foi o sustento da família. Acompanhava a nossa vida e as nossas decisões. Sempre disse aos amigos: “Esta vai ser médica.” O meu pai, que tem família espanhola, ainda quis que eu pensasse estudar Medicina numa universidade espanhola. Não queria desistir da ideia de eu ser médica.
De onde vem o desejo de intervenção social que está muito presente nas suas letras?
Tem a ver com o facto de a minha mãe ser moçambicana, negra. O meu pai parece indiano, o pai dele era mulato e a mãe branca. A minha mãe nunca teve os mesmos direitos dos portugueses. Sempre que eu queria fazer alguma coisa, a minha mãe não tinha dinheiro para isso, ou não tinha forma de tratar disso. Não tivemos direito a subsídios para livros ou transportes, abonos familiares. O meu pai, não estando presente, não havia quem tratasse. Trato dos meus documentos desde os 14, 15 anos, sozinha. Revia-me nas pessoas dos bairros sociais porque eles tinham os mesmos problemas.
A vossa condição era: não viviam num bairro social, mas tinham uma vida material próxima daqueles que viviam num bairro social.
Sim, muito próxima. Eu não me identificava com os meus colegas cujos pais iam buscá-los à porta da escola. Nunca pude fazer nada. A nossa viagem de finalistas do nono ano era aos Açores e eu não tinha dinheiro para ir. No último dia, a professora ofereceu-me o bilhete. São realidades que quem está de fora não percebe. Por exemplo, acabei a faculdade e só um ano e tal depois pude pagar a propina e ter o diploma.
O que se passa nestas letras é bastante autobiográfico?
É denúncia. Quando escrevo, também penso na situação de pessoas que observo. Na Porta Amiga da AMI (onde estagiou) de dia estava com crianças, à noite com idosos. Olhava para as crianças e pensava: que futuro é que vão ter?
Houve alguém que tivesse aparecido na sua vida e que a tivesse influenciado?
Acho que isso aconteceu no primeiro ano da faculdade. Fiz um estágio no Santiago Alquimista (tinha enviado o meu currículo e feito entrevistas, fui aceite). Participei no Festival Musidanças. Foi nesse festival que realmente quis ser artista. Conheci músicos. A Sara Tavares, os Terrakota, o Firmino Pascoal. O Firmino foi a pessoa que mais acreditou em mim. “Tu cantas, vais ter que cantar.” Eu estava apenas na produção do Festival. Saiu uma crítica na revista Blitz, positiva, apontando-me como a artista revelação do festival.
Dama Bete é um personagem. A maneira como está e como olha é diferente da da Elizabet que está à minha frente.
Quando tive oportunidade de gravar o álbum, quando a Universal quis assinar comigo, queriam a rapper. Tenho uma grande preocupação com a estética. Não gosto de fotos em que não esteja bem… Tem a ver com o meu lado feminino. Queria que o título do álbum, De Igual para Igual, me representasse. Que fosse ao encontro dos outros homens que fazem rap. Também estou aqui, também aqui cheguei, também consigo.
Há muito menos mulheres a fazerem rap.
Era muito maria-rapaz. Daquelas que estão sempre com feridas e que sabem sacar com a bicicleta [fazer cavalinho], dar toques na bola. Não ter o meu pai presente fez-me ouvir o que o meu irmão dizia. A dada altura, o meu irmão criou um grupo de rap. Comecei a imitá-lo. Levava as minhas letras superinfantis, em que falava da floresta e dos problemas da Natureza. Tentava rimar como ele rimava. O meu irmão criou uma comunidade na Internet e não havia raparigas. “Tu não queres fazer uma das tuas musiquinhas?” Eu era a B.Boss – influência dos Estados Unidos. Já não consegui parar.
Esteve perdida? Fala disso na letra do Já. “Já andei perdida sem saber como voltar.”
Quando comecei a perceber e a sentir a injustiça – porque é que uns faziam isto e outros não podiam? –, revoltei-me. Andei com más companhias. Tinha daqueles amigos que as mães não querem que entrem em nossa casa. Não diria que os meus amigos fossem todos assim, mas muitos eram. Tinha um namorado que com 16 anos foi preso. Há uma fase em que as raparigas gostam dos mauzões. [Risos] Tinha cabelo rapado de lado, rabo-de- cavalo, ténis da Nike, fato de treino. Eu conseguia ver o outro lado. Viam-no como um ladrão, que roubava telemóveis, que andava sempre à porrada. Eu via o lado da injustiça que ele estava a viver; o pai que faleceu cedo, a mãe que não ligava, não estar na escola aos 14 ou 15 anos. No fundo, é bom rapaz.
O que é que não a fez resvalar para o outro lado?
Eu sempre quis continuar a estudar. Sempre tive o sonho de ser alguém. Às vezes não sabia o quê, mas tinha o tal sonho de vencer, vencer pelo meu esforço. Os meus amigos dessa altura: as raparigas, quase todas, tiveram filhos aos 16, 17 anos. O meu ex-namorado foi preso mais duas vezes. O meu irmão também já esteve perdido. Desistiu dos estudos no 12.º ano, passava a vida a dormir. Um dia decidiu voltar e com 23 anos inscreveu-se em engenharia multimédia.
O que é que os seus pais dizem do seu disco?
A minha mãe gosta. Apesar de não dizer, sei que tem orgulho, e fica feliz quando perguntam: “A sua filha é a Dama Bete?” O meu pai não tem noção do que se passa cá. Sempre que liga, pergunta: “Então, já arranjaste emprego?” .
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