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FAMÍLIA


Muito além da estética, tem um valor social. A moda permite a identificação com os pares, dá um sentimento de pertença. Competências essenciais durante este tempo de adolescer.

Por Júlia Serrão

A moda é um símbolo, na adolescência tem um valor social. Permite que os jovens “se identifiquem com aqueles que são parecidos com eles, com o grupo. E, portanto, os ajudam a crescer e crescem com eles”, observa a psicóloga clínica Sara Almeida, esclarecendo que, em termos de construção da personalidade, isto é um suporte muito grande para os adolescentes. “Durante este período da vida, nesta fase, os jovens ainda estão a descobrir quem são e o que querem.”

Para além da identificação. Por outro lado, a roupa, e muito concretamente a moda, torna possível uma outra coisa fundamental e extraordinária nesta idade “que é o sentimento de pertença”. A especialista explica que isto é importante na medida em que os jovens se encontram numa fase em que, não sendo adultos, também já não são crianças – estão numa espécie de fronteira, “a fazer o luto da infância”. Ora, “em termos de identidade, é uma fase de mudança, de procura de algo, em que o sentimento de pertença é muito organizador”. E, portanto, este sentimento de pertença ao grupo, “nomeadamente vestindo-se da mesma forma” que os seus elementos, “faz com que o jovem se sinta muito mais integrado e equilibrado”.

Os jovens vestem como o grupo. E de forma distinta dos pais, marcando assim a diferenciação destes últimos. É também claramente diferenciação quando, “já no campo da patologia, vemos miúdos que se identificam com alguns movimentos que se vestem de forma muito peculiar”, sendo conhecidos precisamente por essa característica exterior. Aqui a roupa significa claramente “eu identifico-me com aqueles porque sou diferente”, observa a psicóloga clínica, lembrando que “o jovem não é só diferente por fora, também o é por dentro”. As escolhas não são feitas por acaso. É claro que isto não significa que jovens saudáveis não façam este mesmo tipo de escolha, porque o fazem. A diferença está na atitude, nas motivações que levam à integração.

Vestir como o resto do grupo tem a ver com coesão. A ideia é: “Escolho-os porque eles são como eu, estão a passar pelas mesmas coisas.” “É organizador, estruturante”, diz a especialista, lembrando que a investigação na área da saúde mental tem vindo a mostrar claramente a importância desta relação grupal. “De facto, as relações precoces com os pais são essenciais. Mas estar integrado num grupo, ser aceite, é um factor protector.”

O passaporte para o imaginário.A moda também permite sonhar. Não é por acaso que até mesmo os jovens expostos a situações mais complicadas, por vezes de alguma infelicidade, dão tanta importância à questão da roupa, garante Sara Almeida. “O objecto de desejo de alguns destes jovens é muitas vezes um par de ténis de uma determinada marca. Porque representam o Cristiano Ronaldo e mais todos os jogadores que fazem sucesso no futebol. Porque eles usam essa marca no dia- -a-dia – logo, é fashion usar.”

Com as raparigas, acontece o mesmo. Elas imitam as suas heroínas, cantoras e actrizes, modelos, escolhendo peças de roupa que se assemelham às que elas usam. Maquilham-se da mesma forma e usam “cópias” dos acessórios destas. “A moda permite sonhar, acedendo ao imaginário colectivo.” E isto é de facto extraordinário, “sobretudo nas populações mais carenciadas, pois permite ter um sentimento de existência – isto é, ‘se eu tenho, eu existo’”. Por outro lado, “a moda é muitas vezes um complemento narcísico”. Acontece nomeadamente nos jovens que, do ponto de vista económico, têm tudo. “Permite-lhes, antes de mais, sentirem-se bonitos.”

Sendo facilitadora de aprendizagens e competências, a moda por vezes pode “escravizar”. Isto acontece “na medida em que não permite que, um dia, eu não esteja na moda”. Mas a especialista não concorda com a ideia generalizada, em alguns contextos, de que a moda é uma coisa maléfica nos adolescentes. “A moda não tem de ser necessariamente as miúdas com saias e tops muito curtos e os miúdos com os boxers à mostra. A moda tem um lado muito criativo.”

Cabe aos pais moderar alguns impulsos. Não sendo defensora de proibições à partida, a psicóloga clínica defende uma contenção externa dos pais quando os adolescentes se excedem no que respeita à forma como se vestem . “Às vezes, é preciso saber dizer ‘não podes ir tão longe’.” Um adolescente não deve vestir-se de determinada forma para ir para a escola, é preciso um mínimo de recato para estar na instituição e para aprender. É aí que os pais entram, lembra Sara Almeida, concordando que, nos nossos dias, os progenitores têm por vezes pouca possibilidade de dizer “não”. “Ou porque estão fragilizados no exercício do seu poder ou porque, tendo um lado saudável para perceber o quanto é importante para os filhos estarem integrados, acabam por ceder também no que respeita ao guarda-roupa.” Aqui, diz, entramos no problema sociológico que é de base um problema psicoafectivo, emocional: estarmos a matar etapas. Ou seja, permitir que as nossas crianças cresçam antes do tempo. E isso, pelos danos que vai provocar a curto e a longo prazo – em que, entre outras coisas, se inscreve o sentimento de vazio –, há que evitar a todo o custo.


AS NOSSAS TRIBOS URBANAS
Diz-me como vestes, dir-te-ei a que tribo pertences... A moda e os sinais exteriores de cada uma delas.

• EMOS, abreviatura de ‘Emotional’: vestem roupa preta com caveiras e desenhos em xadrez. Exibem pulseiras, colares e anéis negros com picos. Rapazes e raparigas maquilham os olhos a lápis negro e usam bases claras e lábios rosados. O cabelo é liso, ‘colado’ ao rosto. Aparentam um ar nostálgico. O estilo musical é punk, tendo como referência os Mayday Parade e os My Chemical Romance, entre outros.
• RASTAS, vulgo rastafáris: usam tranças soltas ou entrelaçadas e o modo de vestir é colorido (destaque para o preto, o vermelho, o amarelo e o verde). O género tem origem na Jamaica e adoptam os ritmos do reggae.
• GÓTICOS: o negro é o seu universo. Destacam-se pelo preto das roupas e pelo mesmo tom nos olhos, lábios e verniz – dizem-se de ‘luto pela sociedade’. A tez é esquálida. Preferem couro ou látex. As referências musicais são darkwave/gothic rock, death rock, trip hop, ebm, synthpop, e as bandas de referência são os Bauhaus, Specimen, The Cure, Siouxside and the Banshees.
• PUNKS: vestem calças de ganga rasgadas ou calças pretas justas de algodão, assim como as bondage pants (calças de xadrez com vários fechos nas pernas), os pins de bandas punk e de protesto, casacos de couro com tachas e mensagens escritas nas costas, ténis Converse. Usam alfinetes e lenços no pescoço. O cabelo é tingido e rapado nos lados e espetado em cima com gel. Na música elegem os Blink-182, Green Day, Fall Out Boy e The Offspring.
• PREPPY, BCBG ou, em português, Betos: é, segundo algumas fontes, o grupo com mais adeptos em Portugal. Vestem roupas clássicas, quase colegiais, e denotam um ar supostamente conservador. Peças preferidas: jeans, pólos, camisas de quadrados, blazers azuis, calças cinzentas, saias de pregas, sapatos de vela. Cabelo solto e farto.
DESPORTISTAS RADICAIS: vestem-se com roupas próprias das modalidades desportivas que praticam. É uma tribo essencialmente masculina. Sejam surfistas, skaters ou outros, envergam calças e blusas largas, calções abaixo do joelho, hoodies, ténis tipo Vans, t-shirts e sweat-shirts gráficas, bonés com pala. Ouvem Jack Johnson, Jason Mraz, Ben Harper ou Pearl Jam e tudo o que seja punk melódico.
• BASOFES: adoptam o estilo hip-hop e rap. Usam vários colares, anéis, pulseiras e brincos metálicos, chapéus e bonés, jeans, t-shirts, blusões, botins e sapatos de ténis. É o que definimos também por “estilo de futebolista”. Recortam o cabelo e as sobrancelhas. Usam piercings. Adoptam o estilo musical das roupas que envergam.
• FROM UK: são adeptos do estilo emo. Ao contrário destes, os rapazes não delineiam os olhos com lápis preto e as raparigas optam por olhos gizados mas também por sombras escuras e rímel. Usam piercings nos lábios e sobrancelhas e são fãs dos Bullet For My Valentine e Bring Me the Horizon.
• GRUNGES: a roupa, usada em camadas, denuncia um modo de estar na vida anti-glamour. Descompostos, usam calças rasgadas e calções abaixo dos joelhos, camisas de flanela quadriculadas e ténis, quanto mais sujos melhores. Ouvem Pearl Jam, Nirvana, Bush, Screaming Trees e Mudhoney.














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