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Ela pode ser uma lenda, mas Meryl Streep está muito menos impressionada consigo própria do que se possa imaginar. Embora comande glacialmente a sua equipa de actores e a sua expressão, quando se torna fria, possa ser muito intimidativa, Meryl adora rir-se de si própria e gosta de desmistificar o seu estatuto de ícone do Cinema. É considerada uma das maiores actrizes de todos os tempos, já ganhou dois Óscares para Melhor Actriz e teve globalmente 15 nomeações numa carreira que inclui clássicos como Kramer Contra Kramer, A Amante do Tenente Francês, África Minha, A Escolha de Sofia e As Pontes de Madison County. Recentemente, regressou em força com filmes como O Diabo Veste Prada e Mamma Mia.
Hoje continua com tanta vitalidade e empenhamento como sempre, com o seu desempenho em Julie & Julia, em que faz o papel da falecida grande escritora americana de livros de culinária e chef em televisão, Julia Child. A incarnação que Meryl faz de Julia – que tinha 1,90 m de altura e falava num melodioso falsete – tocou quer o público quer os críticos e é favorito para arrebatar mais um Óscar. Além disso, vê-la-emos em breve na comédia It’s Complicated, no papel de uma bem sucedida proprietária de um restaurante/ padaria que inicia uma relação amorosa com o seu sedutor ex-marido (Alec Baldwin), embora este se tenha casado com uma jovem atraente (Lake Bell) e apesar do envolvimento que a sua própria personagem tem com um afável arquitecto (Steve Martin). Meryl Streep tem quatro filhos (três raparigas e um rapaz com idades compreendidas entre os 30 e os 18 anos) e é casada com o escultor Don Gummer há 31 anos.
Ficou agradavelmente surpreendida com estes incríveis papéis dos últimos anos?
O factor sorte é muito importante nesta actividade e há muito poucas mulheres de 60 anos capazes de encontrar bons papéis em Hollywood. Mesmo Bette Davis e Katharine Hepburn, no seu tempo, tiveram de esperar até serem muito mais velhas para conseguirem encontrar trabalho como avós. Parece que tive mais escolhas nestes últimos cinco anos do que nos cinco anos anteriores, mas realmente não sei porque é que isso aconteceu. Em parte, penso eu, tem a ver com o facto de agora haver mais executivas a tomar decisões em Hollywood, embora ainda seja um mundo muito masculino.
Continua a gostar do processo de representação?
Sim. Adoro representar. Gosto de dizer que é como o vento no meu cabelo. Nunca nos fartamos dessa sensação. Por isso é que nunca me habituei a estar sem trabalho. É uma vida muito incerta e poucas são as pessoas capazes de casar com alguém que é actor. O meu marido é um artista e compreende as vicissitudes deste trabalho, mas não deixa de ser frustrante. Os meus filhos já são crescidos e agora que tenho mais tempo livre, gostaria de fazer trabalhos interessantes.

Amar... é Complicado! é o filme em exibição em que Streep contracena com Alec Baldwin. Mas foi em Julie & Julia que Meryl teve a mais recente nomeação para o Óscar, cuja primeira estatueta foi ganha pela actriz em 1980 em Kramer Contra Karmer.
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Como é que foi interpretar Julia Child, que tem uma imagem pública tão marcante com aquela voz maviosa e aquela imponente presença física?
Não quis que a voz dela ou a sua imponência física se sobrepusessem ao seu verdadeiro carácter que é, no fundo, aquilo que o público quer realmente descobrir. Apercebi-me de que a Julia era muito parecida com a minha mãe. Ambas tinham uma enorme alegria de viver – um inegável sentido de como desfrutar a vida. Qualquer sala onde a minha mãe entrasse se iluminava, e o meu desempenho é, num certo sentido, uma homenagem a esse espírito. Sempre quis ser mais como a minha mãe e por isso a minha interpretação de Julia é uma versão idealizada dela, mas é de facto mais uma versão idealizada da minha mãe. Quis captar aquela alegria e aquele entusiasmo. Infelizmente, na minha própria vida consigo ser bastante lamurienta.
A sua mãe era boa cozinheira?
Não, nem por isso. O lema da minha mãe era: “Se não estiver feito em 10 minutos, não é jantar!” Ela tinha muitas coisas que queria fazer, e cozinhar não era uma delas.
Está também num outro filme, It’s Complicated, em que se vê envolvida com Alec Baldwin num escaldante romance…
Sim, não é costume e é surpreendente estar nesta posição. Já tinha desistido de voltar a encontrar romance na tela! [Ri] E sinto-me uma privilegiada em ter o Alec como amante! [Ri] Também acho que ela é uma mulher bastante atraente, não tão diferente assim da mulher que desempenhei em Mamma Mia. Às vezes, acho que o público pensa em mim como uma mulher triste. Sombria e austera por causa de alguns dos papéis que desempenhei, especialmente no início da minha carreira.
Tem-se dado muita atenção à sua beleza física e à sua arte de representar. Preocupa-se com o envelhecimento?
Tento não pensar muito nisso. Há uma certa inevitabilidade em tudo isso, mas acho que me estou a sair razoavelmente bem. Nunca me considerei uma grande beldade e, quando era mais nova, preocupava-me por achar que não era suficientemente bonita para trabalhar como actriz. Continuo a achar que, no meu melhor trabalho, não parecia nada bonita. E isso nunca foi problema.
De onde vem o instinto para descobrir a essência subjacente a uma pessoa?
Provavelmente vem da minha infância, em que muitas vezes me sentia negligenciada e incompreendida e em que estava sempre a tentar mostrar às pessoas quem eu, de facto, era. Eu era insegura em relação a mim própria e à minha aparência, e no meu trabalho sempre quis passar por cima de tudo isso e descobrir a verdade nas mulheres que estava a representar.
Críticos e escritores descrevem-na frequentemente como uma espécie de lenda viva. Às vezes é difícil viver com esse tipo de elogio?
Nunca me deixei levar por isso. Basta- -me ir à Internet para ter a outra visão das coisas. E é o suficiente para manter o meu ego na ordem! [Ri]
O seu marido Don Gummer tem sido aquele tipo de homem animador e compreensivo face aos altos e baixos da vida de uma actriz?
Penso que temos de ter como parceiro alguém que partilhe o que somos na vida. Sempre adorei criar uma família e o Don sempre percebeu que era um trabalho imenso, importante e árduo. Muito, muito árduo. E que nunca acaba. Penso que ter esse tipo de apoio tornou muito mais fácil para mim desaparecer durante meses de cada vez e trabalhar mais livremente e sem me preocupar com o que poderia estar a acontecer com os meus filhos. O Don é um artista e por isso compreende o tipo de vida estranha que levamos. E isso provavelmente ajudou-nos a mantermo- nos juntos e a sermos felizes juntos durante todo este tempo. Sinto que tenho muita sorte.
O que é que lhe dá a confiança para criar as suas personagens?
Às vezes, na solidão da nossa caravana, temos alguma dificuldade em nos convencermos de que somos aquilo que dizemos ser. Mas depois entramos no local das filmagens ou nas ruas de Paris, onde filmámos uma parte [de Julie & Julia], e, lentamente, acontece.
Tem representado mulheres bastante liberais em filmes como Mamma Mia e agora em It’s Com plicated. Há uma mensagem nestes filmes?
Talvez algo como: podemos continuar todos amigos e ter sexo! [Ri]
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