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CELEBRIDADES


É inteligente, alegre e entusiástica. Gabourey Sidibe, nomeada para o Óscar de Melhor Actriz, está a ter os melhores tempos da sua vida como protagonista de Precious, um dos filmes mais chocantes e falados do ano.

Por Harold Von Kursk

Aos 26 anos, equilibrada mas sorridente, não só caminha para a glória em termos de carreira profissional e nomeação para um Óscar como está entusiasmadíssima com o facto de ser uma actriz.

Gabourey Sidibe ou Gabby, como lhe chamam, fez uma especialização em Psicologia no City College (Nova Iorque) e a sua experiência de representação limitava-se a alguns papéis de pouca importância (Pirata n.º 2 em Peter Pan) na faculdade, quando soube das audições para Precious. E quase não foi – porque teria de faltar a uma aula. No filme, Gabby desempenha a personagem Precious, uma adolescente analfabeta do Harlem, miseravelmente agredida pela sua temível mãe (a actriz Mo’nique), grávida do segundo filho do seu próprio pai e praticamente incapaz de articular o que sente em relação à vida que tem. Embora muitas vezes chocante, o filme, tal como o romance de Sapphire no qual se baseia, é essencialmente um tributo ao triunfo do espírito humano, apesar dos terríveis fardos que a jovem heroína tem de suportar.

 
Gabby, é verdade que quase decidiu não ir à audição para Precious?
Sim! Não estava nada a levar aquilo a sério. A minha mãe chateava-me para eu ir, e acabei por passar outra vez os olhos pelo livro mesmo antes de sair de casa, só para conseguir entrar na personagem e ouvir a “voz” dela. Tinha uma aula na universidade exactamente à mesma hora que a audição. Ou me dirigia para a zona residencial para a audição ou para a baixa, para a aula. Acabei por dar por mim a seguir para a audição. [Ri]

E o que é que aconteceu a seguir?
A minha primeira audição foi na segunda- feira [Gabby foi uma das 400 actrizes entrevistadas pelo director de casting] e depois chamaram-me para lá voltar na terça-feira, para outra audição. Encontrei-me com o Lee [realizador Lee Daniels] na quarta-feira. Ficámos sentados a conversar durante uma meia hora e depois ele disse que eu estava contratada. Primeiro pensei que era a brincar. Eu não era actriz – o meu único emprego antes disto foi como recepcionista. Por isso, achei que era impossível eles estarem interessados em mim! Mas toda a gente na produção me pareceu bastante solene e saí de lá bastante atordoada. E agora aqui estou eu! [Ri] Afinal, parece que era a sério! [Ri]

Como é que foi a sua relação com Mo’nique, que faz o papel de Mary, a sua violenta mãe no filme?
Na verdade, espectacular. Ela é como uma segunda mãe, muito carinhosa e fantástica. Não estou a gozar, ela é a própria personificação do amor. Portanto, a nossa relação é estupenda. Ela ensinou-me imensa coisa e também não tem nada a ver com a Mary. Quando tínhamos de ser como as nossas personagens, entregávamo-nos à representação. Quando o realizador dizia “Corta”, abraçávamo-nos.

Até que ponto lhe foi difícil interpretar algumas das cenas?
Sentia-me como se estivesse com o cabelo e a cara com sangue, sempre suja e a fugir. Às vezes era muito esgotante, mas nunca me deixei derrubar pela personagem. Sou uma pessoa feliz por natureza e isso ajudou-me muito. Estou contente por o filme não ser tão sombrio como o livro, que é sexualmente muito gráfico. Teria ficado um filme pornográfico se contivesse algumas das cenas mais chocantes do livro. Também gostei do facto de o filme ter algumas sequências fantasiosas que não estão no livro. O realizador acrescentou cenas de fantasia para as pessoas poderem respirar. Foram maravilhosos aqueles dias em que eu podia usar um vestido, ficar bonita e sair com aquele modelo tão sexy – aquele rapaz de sonho que é o meu melhor amigo e companheiro de quarto nas sequências de fantasia. Foram os meus dias preferidos.


Precious, A Força de Uma Mulher,
de Sapphire (Alfaguara, 180 pp), um
romance cujo título original é Push.

 
Quando andava no liceu, conheceu algumas raparigas que tivessem uma vida como a de Precious?
Conheci muita gente como ela. Quando estava a ler o livro, apercebi-me de que reconhecia esta rapariga em muita gente diferente. Não apenas raparigas, também rapazes, e não apenas de raça negra, mas também brancos, orientais e indianos. Conheci-a sob imensas formas diferentes. Além disso, fiz uma especialização em Psicologia e, portanto, compreendia os aspectos psicológicos de Precious e a forma como ela lidava com tudo aquilo. Eu tinha bons conhecimentos sobre a forma como as vítimas agem, como regridem para dentro de si próprias ou tentam esconder- se no seu corpo.

Em que é que se parece com a Precious?
Temos o mesmo corpo! [Ri] Nesse sentido, tivemos ambas de lidar com gente a olhar fixamente para nós e a fazer troça, quando éramos miúdas. Aprende-se a ser mentalmente rijo e a seguir em frente. A Precious tem 16 anos e todos os abusos que sofreu a prejudicaram em alguns aspectos. Eu relacionei-me com ela a partir da minha própria experiência e sentimentos quando tinha a idade dela. Mas a lição fundamental a ser retirada da vida dela, e da minha, é que embora a vida possa ser dura, tem de se continuar a viver.

O que é que aprendeu sobre a vida e sobre si própria?
Aprendi a nunca desistir, a nunca pensar que vou deixar de ter sucesso no que quer que seja só por causa do meu peso e do meu aspecto físico. Não me via a fazer mais nada excepto ser recepcionista. Não via mesmo. Mas aprendi que a aparência física não interessa. O meu talento não pode ser diminuído pelo meu aspecto.

E agora vê o seu futuro como actriz?
Sim. Já vou entrar noutro filme e agora é mesmo isto que quero fazer na vida. É o meu destino, foi isto que Deus pôs no meu caminho e vamos ver onde isso me levará. Acredito do fundo do coração que nasci para isto.















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