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Era um homem tímido capaz das maiores extravagâncias na arte de vestir as mulheres. Era também subversivo, controverso, visionário, minucioso e independente. O único defeito foi ter-nos deixado cedo de mais.
Por Helena Assédio Maltez | Fotografia De David Lachapelle
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Senti um arrepio. Morreu McQueen?! Estranho! Co mo?! Esquecemos que certas pessoas são humanas, têm vida e emoções. Um dia péssimo para a Moda, pensei. Corri para a Net, para ver o que tinha acontecido...
Lembrei-me, então, de estar em Paris com três graus negativos numa gigantesca fila, enrolada em casacos, eram nove horas de uma noite de Fevereiro de 2006 e eu estava feliz por ter convite para o desfile de Alexander McQueen. Olhei para o lado e vi, numa outra fila mais vip, alguém muito branca, muito loura, num maravilhoso vestido dourado, de alcinhas, e sandálias. Como único agasalho, uma clutch. Sorri. Ainda bem que ninguém me conhece, posso estar aqui bem quentinha, pensei. Na verdade, a única coisa que me interessava era estar presente no desfile. Fiquei em standing porque estava completamente cheio. Estiquei-me para ter melhor visão da passerelle. À volta, uma multidão bonita, bem vestida e com algumas caras que me eram familiares. Baixam as luzes, faz-se completo silêncio. Música: começa o desfile.
Modelos em fatos e casacos com um corte sem defeitos, com as cabeças adornadas de chapéus com gigantes asas de passáros e chifres de veados. Véus e vestidos esvoaçantes, cabelos ondulados soltos e golas de rufos. Caras empoeiradas. Tudo bom e lindo, e reconhecidamente inglês. De repente, numa pirâmide de vidro aparece um fumo branco que se transforma numa figura de mulher: Kate Moss. Durante segundos, dentro de uma pálida cascata de folhos de organza, o seu corpo balança e os seus cabelos loiros esvoaçam. Prendo a respiração para não perder o momento e tudo se desmaterializa e desaparece. Esta visão era um halograma e o momento era pura Arte. Recomeça a música, entram os modelos em fila contínua, há uma explosão de palmas e gritos. Quando a fila de modelos começa a desaparecer, finalmente ei-lo de mão dada, talvez, com a sua modelo preferida ou mais amiga. McQueen rapidamente sorri e agradece, deixando transparecer uma grande timidez.
Todo o desfile em todo o seu detalhe era Arte e tudo para mim foi puro prazer. Na Moda já desapareceram talentos que deixaram grandes legados artísticos, culturais e sociais. Foram substituídos por outros talentos que dignamente dão continuação. Mas hoje, perplexa, pensei: quem é que vai continuar este Nome?!
Revi as extraordinárias imagens do desfile deste Verão. Vestidos curtos em estampados digitais e grotescos sapatos lembram-nos répteis marinhos em cores deslumbrantes. É de cortar a respiração! Aqui, no de partamento de Moda, enquanto escolhíamos e jun távamos as imagens para o nosso suplemento de Tendências da nova estação, gritávamos de prazer sempre que era McQueen. É verdade, sempre nos surpreendeu e fez vibrar.
Os seus acessórios são ergonómicos. Não parecem. Mas quando experimentados, tudo encaixa. As clutchs têm luvas exteriores onde entra a mão, as calças assentam maravilhosamente e os casacos são estruturados com mestria. Tudo cai com perfeita elegância.
Para além da criatividade, é de referir que a educação de Lee Alexander McQueen passou por grandes alfaiates, pela prestigiada St. Martins School, por Romeo Gigli e pela Casa Givenchy. No seu trabalho há visivelmente uma grande ligação aos antepassados, à Natureza e uma mensagem futurista e ecológica. E, agora, quem vai declarar as fronteiras de mudança neste Mundo tão sedento de visionários?

McQueen com a mãe, Joyce, e com Isabella Blow. A morte das duas abalou irreversivelmente o criador. Em cima, com a amiga Kate Moss e no apoio que lhe deu quando a modelo quase caiu em desgraça.

Os três últimos desfiles de McQueen para o Inverno e Verão de 2009 e, ao lado, para a próxima Primavera/ Verão.
UM PERCURSO FULGURANTE
1969 A 17 Março, nasceu Lee Alexander McQueen no bairro de East End, em Londres. Filho de um taxista e de uma professora, era o mais novo de seis irmãos.
1985 Quando tinha 16 anos desistiu da escola e começou a trabalhar como aprendiz de alfaiate no Anderson & Sheppard, em Savile Row. Mais tarde passou por Gieves and Hawkes, também alfaiate, e por Angels and Bermans, que se dedicava a guarda-roupa para teatro.
1990 Mudou-se para Milão aos 21 anos, onde trabalhou com o criador Romeo Gigli, depois de ter trabalhado durante um ano com Koji Tatsuno.
1994 Terminou o curso na Central St. Martins College of Art and Design com uma extraordinária colecção final que foi adquirida na totalidade por Isabella Blow, que assim se tornou sua mecenas, amiga e musa.
1996 Bernard Arnault, figura máxima do grupo LVMH, convidou-o para director criativo da casa Givenchy, onde ficou até 2001. A relação entre ambos deteriorou-se e o criador acabou por se aliar a um rival: o Grupo Gucci.
1996 Ganhou o prémio British Designer of the Year, nos British Fashion Awards. Voltou a receber este prémio em 1997, 2001 e 2003. 2000 O Grupo Gucci adquiriu 51 por cento da marca Alexander McQueen, mantendo-o como director criativo.
2000 Casou-se em Ibiza com George Forsyth, de 24 anos, realizador de documentários. Kate Moss foi dama-de-honor. O casamento não durou muito. 2003 Conquistou o prémio International Designer of the Year, atribuído pelo CFDA. Foi condecorado pela rainha Isabel II: A Most Excellent Commander of The British Empire (CBE). Lançou o seu primeiro perfume, Kingdom.
2004 Recebeu o prémio British Menswear Designer of the Year, nos British Fashion Awards. 2005 Em Outubro foi lançada uma colecção de calçado em parceria com a Puma. Lançou o segundo perfume, MyQueen.
2006 Em Janeiro lançou a segunda marca: McQ.
2007 Em Fevereiro estabeleceu uma parceria com a Samsonite para uma colecção de malas de viagem.
2007 A 7 de Maio morreu Isabella Blow.
2010 A 2 de Fevereiro morreu a mãe.
2010 A 11 de Fevereiro foi encontrado morto na sua casa de Londres, onde se terá enforcado. Tinha 40 anos
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