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CORPO & ALMA

A doença bipolar caracteriza-se por variações acentuadas
no estado de ânimo,
com crises de depressão
e mania.
Por Natacha Gonzaga Borges
 

Nas fases de hipomania sentem-se bem, activos e produtivos, sendo difícil acreditar que a esta fase sucederá uma outra, de profunda depressão. Os doentes têm muitas vezes dificuldade em aceitar a desordem, por este motivo.

Em Portugal, estimam-se em cerca de 200 mil as pessoas afectadas por esta desordem e que carecem de tratamento. Porém, não se sabe ainda com exactidão quantos doentes existirão por diagnosticar.  “Um doente pode ter várias depressões e ser diagnosticado como unipolar. Só quando tem a primeira crise de elevação do humor é que se pode fazer o diagnóstico da doença bipolar”, explica José Manuel Jara, psiquiatra no Hospital Júlio de Matos.

A perturbação afecta pessoas de todas as idades, de ambos os sexos. Mas afinal que desordem psíquica é esta que parece andar associada à criatividade e à genialidade? Na bipolaridade, o mais comum são os estados depressivos. As fases de depressão são mais graves e frequentes do que as fases de elevação do humor. Estas são mais discretas e passageiras. Podem durar apenas alguns dias, existindo apenas um quadro de hipomania, não de mania (doentes bipolares tipo II).

O principal sintoma é um sentimento de tristeza, fracasso e a incapacidade de agir. Muitas vezes acompanhado de perturbações da ansiedade ou de pânico. A auto-estima cai. Os pensamentos são negativos e obsessivos, muitas vezes suicidários. Embora possa existir agitação, é mais frequente o cansaço ou a inacção total. O raciocínio fica mais lento e surgem dificuldades de concentração, mesmo em tarefas simples. O doente bipolar sente uma perda generalizada de interesse pelo trabalho e pelas pessoas, mesmo familiares e amigos.  “Um indivíduo com perturbação bipolar tem, por um lado, mais propensão ao consumo de substâncias. Mas também à instabilidade afectiva, com muitas rupturas, relações intempestivas e desconexas, o que agrava a bipolaridade”, afirma ainda José Manuel Jara.

 

Como surge a doença?
Tal como a depressão (unipolar), a bipolaridade tem sobretudo uma origem genética. Mas se os factores genéticos e biológicos elevam a predisposição para a doença, a personalidade, os acontecimentos marcantes da vida e os níveis de stress parecem desempenhar um papel no desencadeamento das crises.

ADEB – Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (www.adeb.pt) – Lisboa: 21 854 07 40/8; Coimbra: 239 81 25 74; Porto: 22 606 64 14 
SOS Telefónico, Avaliação e Reabilitação Psico-Social: Sessões Psicopedagógicas, Grupos de Auto-ajuda de utentes e familiares, Orientação Profissional

 

O psiquiatra defende que “nem todas as reacções das pessoas devem ser psiquiatrizadas”. No entanto, reforça que “se estas forem muito intensas e desadaptativas, então trata-se de uma depressão, uma doença que tem de ser tratada. Existem psicoses depressivas que se traduzem em delírios de culpa, ou de ruína. A agitação pode ser permanente e a pessoa não dormir e não comer, ou então ficar imóvel, em estupor depressivo, em que não tem um pensamento na cabeça e, por isso, não consegue falar”.  No estado de hipomania ou mania (mais comum nos doentes bipolares tipo I), a energia e produtividade aumentam e a necessidade de dormir diminui. Há um aumento da auto-estima, da comunicação e da sociabilidade. O humor encontra-se elevado e expansivo. São frequentes despesas disparatadas, dívidas e ofertas excessivas. A incapacidade de reconhecer a doença e a recusa de tratamento conduzem à distorção da realidade, muitas vezes agravada pelo abuso de álcool ou de outras substâncias. As fases de mania graves implicam normalmente internamento hospitalar.

“As crises de euforia e mania não são uma alegria normal. Há hiperactividade, delírios, ideias de grandeza, desinibição sexual, gastos e compras estapafúrdias. O indivíduo gasta o que não tem e faz coisas que nunca faria se estivesse normal, porque a sua personalidade não é essa. Pode mentir e assumir condutas de vigarista ou de desonestidade, sem o ser”, explica o psiquiatra José Manuel Jara.

Algumas pessoas adquirem características místicas. “Pensam por exemplo que são uma divindade, um rei, ou têm outras ideias delirantes e psicóticas. Podem ouvir vozes que lhes dizem ser uma grande personagem ou até Deus.”














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