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FAMÍLIA

Ralhamos, dizemos que ‘não’ vezes sem conta. E a reacção das crianças é igualmente negativa. Cria-se um ciclo de tensão pouco eficaz. Romper esta corrente e retomar um caminho positivo é possível. Descubra como.

Por Mariza Figueiredo

Já se gastou muita tinta para dizer que os pais devem dizer ‘não’ aos filhos. De que não adianta chegarem cansados a casa e simplesmente dizerem ‘sim’ às propostas mais terroristas ou a porem de parte tarefas obrigatórias só para não darem início a uma verdadeira batalha. E é verdade. Isso não é bom para as crianças. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

“A auto-estrada é provavelmente a estrada mais regulamentada do mundo. Não podemos parar, não podemos andar a menos do que uma determinada velocidade, não podemos virar quando queremos. No entanto, a maioria das pessoas é nestas estradas que se sente mais segura e à vontade”, refere a psicóloga educacional Maria Dulce Gonçalves, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Um conjunto básico de regras em casa, claras e bem definidas, pode proporcionar às crianças igual conforto e segurança. Mas é importante que as mesmas sejam planeadas previamente, mesmo que com o tempo vão sendo adaptadas às diversas fases do desenvolvimento da criança e da família. Planear é importante, sobretudo quando estamos a lidar com crianças e jovens entre os nove e os 18 anos de idade. Agir de forma impulsiva não é bom e leva a reforçar o ciclo negativo. “A maior parte dos pais que dizem muitos ‘nãos’ tende a ter uma atitude mais reactiva, ou seja, reagem caso a caso, sem um conjunto de regras pré-estabelecido”, observa a psicóloga, que reconhece que para algumas famílias é difícil antever problemas e atitudes.

Os primeiros ‘nãos’ que os pais devem aprender a dizer são os que surgem no âmbito da rotina e gestão familiar: ‘Jantamos sem televisão’ ou ‘não se salta nos sofás’. “E um ‘não’ é um ‘não’, cuja única explicação pode ser ‘porque o pai e a mãe decidiram’”, comenta Luísa Teles.

A ordem deve ser sempre clara, muito precisa, muito concisa e não admitir dispersão. Uma ordem não é negociável. “Temos de ensinar às crianças que na vida todos en- frentamos ‘nãos’ que não são negociáveis”, observa a pediatra.

COMO AGIR
“Um bom exercício para os pais não exagerarem nos ‘nãos’ é pensar qual o comportamento oposto positivo que gostariam que substituísse o desajustado. Se não for fácil encontrar a resposta, então este ‘não’ talvez pudesse ser substituído por um ‘sim’, reflectindo a compreensão dos pais relativamente ao significado daquele comportamento da criança”, observa a pediatra Luísa Teles. Não entrar num registo emocional alterado é a melhor forma de reagir. Aproximar-se, dar a ordem num tom monocórdico, tocar ligeiramente na criança, apontando para onde deve ir, se for preciso. Situações recorrentes? Reveja estratégias: analise a situação e tente perceber o que espera da criança, se está de acordo com a sua idade, o que desencadeia a birra ou comportamento de oposição e quais as consequências.
Mas atenção: “Não existe nenhuma cri- ança que consiga viver só com ‘nãos’ indiscutíveis. Temos de treiná--las para as alternativas. O ‘sim’ quer dizer que, sabendo que o limite é aquele, a criança tem de pedir autorização aos pais quando se sente preparada para passar para uma nova etapa. E quando buscam uma excepção devem ser capazes de explicar o que querem, porque querem e como isso é importante para elas. Então, o ‘não’ pode transformar--se”, refere. Abre-se uma excepção. “Os pais continuam a controlar a situação mas explicaram à criança que, se tem uma barreira à frente e se quer muito ultrapassá-la, deve ir lá e lutar por isso. Se somos sempre do ‘sim’ ou do ‘não’, como lhes ensinamos que, às vezes, conseguimos levar a nossa à frente?”, pergunta Luísa Teles. “É também educativo viver uma excepção. É ela que ajuda a definir a regra”, concorda a psicóloga educacional Maria Dulce Gonçalves.

A oposição, quando surge, vem de parte a parte. Se, por um lado, os pais não estão preparados ou não têm uma boa estratégia para lidar com os filhos, por outro é preciso reconhecer que algumas crianças e jovens tendem a apresentar com mais frequência um comportamento de oposição. Pode ser pela fase de desenvolvimento em que se encontram. “É normal e faz parte, sem que isso tenha um significado patológico”, explica Luísa Teles.

Há, no entanto, crianças que têm um temperamento difícil por terem maior dificuldade em auto-regularem-se (sono, emoções, movimento, atenção – sensibilidade a estímulos visuais). As crianças não têm maldade, ou seja, não agem com propósito frio de magoar os pais. “Nascem quase com o instinto de agradar aos pais. Se não o fazem é porque não conseguem”, observa a pediatra. A maior recompensa para uma criança é a atenção positiva dos mesmos. “Os comportamentos de oposição e a birra nada mais são do que uma incapacidade de, naquele momento, encontrar uma estratégia para resolver um problema. Muitas vezes é o comportamento dos pais na sequência da birra que a reforça de forma negativa”, refere.

Mas isso não significa que devem ser aceites. Ninguém pode obter um privilégio porque faz uma birra ou porque se nega a obedecer. Isso cria um padrão de comportamento em que a birra e a negação passam a ser o meio para obter o que se quer.

Proibir o sentimento de zanga e frustração, no entanto, não é o caminho. Todos temos o direito de ficar zangados, mas não de incomodar os outros. Devemos convidar a criança ou jovem a traduzir o sentimento em palavras ou a pensar no que é que podia fazer para além da birra, a reflectir sobre o que está a pedir e, em relação aos mais velhos, co-responsabilizá-los pelo que pedem.

“Quando os pais detectam que estão em ciclos de comunicação negativos, devem pensar que, se respondem da mesma forma, se são coercivos e muito negativos na forma como lidam com a criança, vão ter como consequência um agravamento destes comportamentos”, observa a pediatra do desenvolvimento Luísa Teles. O comportamento dos pais é normativo para o desenvolvimento emocional dos filhos.

Não se deve falar à distância, não se deve recorrer a sistemas como o de contar até três, por exemplo, ou repetir a ordem até estar exaltada. Isso acaba por significar que a ordem é só para ser cumprida quando a mãe chega ao ‘três’ ou quando começa aos gritos. Na realidade, de uma forma geral, um ‘não’ não acrescenta nada de novo. “Pode ser muito útil mas não ensina um comportamento alternativo. É necessário associar-lhe algo de construtivo, de positivo – ‘assim não, porque não experimentas’, por exemplo”, comenta a psicóloga educacional Maria Dulce Gonçalves. O objectivo da educação é que mais tarde a criança ou jovem seja capaz de dizer ‘não’ a si próprio e alcance o autocontrolo.

É importante tentar perceber a razão das suas reacções. Muitas vezes é tão simples como ver que a criança ou jovem tem fome, está cansada ou demasiado estimulada. Ou que não percebe exactamente qual é a regra. “Se a criança não aprendeu intuitivamente o comportamento normativo daquela família, é necessário ensiná-lo explicitamente”, afirma Luísa Teles.

Valorizar os comportamentos positivos é também fundamental. “Muitos pais usam o tempo disponível que têm para criticar, castigar, ralhar. Quando chegam à parte do bom comportamento, que deviam estar a elogiar, a promover aquela acção para que esta se repita, os pais descansam ‘porque é suposto que se portem bem’. A única coisa que fizeram foi dedicar atenção aos comportamentos negativos. E a atenção dos pais é o maior promotor de comportamentos”, afirma a pediatra Luísa Teles. “Sugiro que criem momentos especiais para brincar, para ver que o filho faz muitas coisas bem feitas e, a partir desse momento, criar uma cumplicidade emocional que permite ir mais longe”, explica a pediatra.













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