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MODA - Especial







Griffe internacional? Para a mulher brasileira, a moda que conta é aquela que é fabricada no Brasil. E o Fashion Rio é uma grande montra dessa fiel predilecção.

Por Manuel Dias Coelho, no Rio de Janeiro

 

Helena é uma mulher elegante, na casa dos 40 anos, que diz ter saudades do tempo em que as amigas elogiavam as roupas que vestia pela beleza das peças. E ironiza ao afirmar que hoje, perante um bonito vestido ou um belo par de sapatos, a exclamação “Mas que lindos!” foi substituída pela pergunta “De que marca são?”. Este culto, por vezes desmesurado, das griffes internacionais não faz sentido no Brasil. De facto, a mulher brasileira privilegia a moda criada e fabricada no seu país e sente orgulho em usá-la. O mesmo sucede com o homem. Por razões ligadas à cultura, ao modus vivendi, ao preço (o imposto de importação é muito elevado), ao alheamento em relação às grandes marcas estrangeiras, e, acima de tudo, a uma indústria nacional de vestuário e de calçado pujante, as brasileiras vestem brasileiro. Da mulher do Presidente, à burguesa do Leblon, passando pela operária no Mato Grosso, elas vestem a camisa do Brasil. Apenas os happy few exibem as grandes marcas estrangeiras.

 
O Fashion Rio em números

Público: 100 mil pessoas. Postos de trabalho: acima de 3 mil. Modelos: 100 (em média, 25 por desfile). Maquilhadores e cabeleireiros: 10 equipas. Agências de modelos: 15. Estilistas: 14. Imprensa: 800 jornalistas. Orçamento: 6,5 milhões de reais. Seguranças: 350. Salões para desfiles: 4 (Ipanema com 450 lugares, Copacana, com 600, Corcovado, com 1000, e Pão de Açúcar com 1500).
Cheia de vitalidade, é a indústria de moda do Brasil que toma a dianteira e veste um país com 180 milhões de habitantes. Os dados disponíveis referem que, em 2004, o país produziu 5,6 biliões de peças, num montante de 15,9 biliões de dólares, gerando 1,1 milhões de empregos, extravasando as suas fronteiras. Por exemplo, a Colcci – que teve até ao final do ano a ubermodel Gisele Bündchen como rosto da marca – exporta para 39 países, entre os quais Portugal. Para os portugueses mais atentos, o único vislumbre dessa moda tem sido dado pelas novelas televisivas cujos protagonistas exibem o que de melhor se fabrica no país. Quantos de nós co-nhecemos a moda made in Brazil ou compramos uma peça ou acessório seus? Mas a situação está a mudar e, entre outros exemplos, os fatos de banho ou biquinis das griffes Rosa Chá, Companhia Marítima, Salinas ou Lenny (e aqui fazemos uma vénia) conquistam as mulheres portuguesas.

É neste contexto de grande enriquecimento da moda brasileira que o Fashion Rio (www.fashionrio.org.br) assume um lugar de importância ao apresentar numa semana e em primeira mão (segue-se-lhe o São Paulo Fashion Week) as criações da estação em cerca de 40 desfiles. Com impacto mediático no estrangeiro, o FR é a iniciativa de uma mulher combativa, a jornalista Eloysa Simão, que colocou o evento no mapa das manifestações de moda mundial, mantendo-se firme na liderança do projecto.

 

Bem talhada, criativa (não é essa a mais-valia dos brasileiros?) e despretensiosa, a moda que tem desfilado no FR também tem de ser vista à luz de como se vive abaixo do Equador e numa cidade voltada para o mar, como é o Rio de Janeiro. Do vestuário formal ao casual, passando inevitavelmente pela moda de praia, ela é centrada na mulher, ainda que os homens ganhem cada vez mais espaço nesse segmento. Na sua esmagadora maioria, os homens e mulheres que criam moda no Brasil reflectem nas suas criações a atmosfera burguesa em que cresceram ou vivem, e tem ressaltado em cada edição uma crescente profissionalização, quer na moda em si (o calçado e os acessórios têm melhorado) quer na apresentação das colecções nas passerelles. Neste particular, e ainda que não atinjam a excentricidade ou o refinamento dos desfiles das grandes Casas de Moda europeias, o Fashion Rio leva-lhes a palma em criatividade. Na colecção de Verão, a que se referem as imagens nestas páginas, assistiu-se a um crescendo quase competitivo. O pontapé de saída foi dado, no Verão anterior, pela Salinas que ocupou toda uma das duas enormes bancadas destinadas ao público com 45 toneladas de bananas contidas em caixas de madeira, dando o mote ao desfile. Agora, essa marca especializada em moda de praia colocou 700 figurantes em cena, com os corpos pintados com motivos étnicos e com toucados de penas, numa alegoria ao tempo em que os índios povoavam o Rio de Janeiro. Cem percussionistas interpretaram músicas indígenas com misturas de samba enquanto as modelos desfilavam. A Blueman elegeu o cenário exterior do velho aqueduto da Lapa para dar lugar ao seu desfile com 800 figurantes negros vestidos de preto que executaram coreografias com espelhos, flores e velas, enquanto os modelos femininos e masculinos mostravam a nova colecção de fatos de banho e biquinis. Tirando todo o espectáculo, a moda dentro e fora da praia é pautada pelas grandes tendências internacionais (vestidos românticos, padrões étnicos, motivos florais, grafismos, branco total, cores vivas, anos 80, sport chic...), com um toque da multiculturalidade brasileira e africana. E com o bom sabor a pecado que só um país como o Brasil, cujo clima quente obriga à nudez e à exaltação do corpo e da sensualidade, nos sabe dar a provar.













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