Helena é uma mulher
elegante, na casa dos 40 anos, que diz ter saudades do
tempo em que as amigas elogiavam as roupas que vestia
pela beleza das peças. E ironiza ao afirmar que
hoje, perante um bonito vestido ou um belo par de sapatos,
a exclamação “Mas que lindos!” foi
substituída pela pergunta “De que marca
são?”. Este culto, por vezes desmesurado,
das griffes internacionais não faz sentido no
Brasil. De facto, a mulher brasileira privilegia a moda
criada e fabricada no seu país e sente orgulho
em usá-la. O mesmo sucede com o homem. Por razões
ligadas à cultura, ao modus vivendi, ao preço
(o imposto de importação é muito
elevado), ao alheamento em relação às
grandes marcas estrangeiras, e, acima de tudo, a uma
indústria nacional de vestuário e de calçado
pujante, as brasileiras vestem brasileiro. Da mulher
do Presidente, à burguesa do Leblon, passando
pela operária no Mato Grosso, elas vestem a camisa
do Brasil. Apenas os happy few exibem as grandes marcas
estrangeiras.
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O
Fashion Rio em números
Público: 100 mil pessoas. Postos de trabalho: acima de 3 mil.
Modelos: 100 (em média, 25 por desfile). Maquilhadores e cabeleireiros:
10 equipas. Agências de modelos: 15. Estilistas: 14. Imprensa:
800 jornalistas. Orçamento: 6,5 milhões de reais. Seguranças:
350. Salões para desfiles: 4 (Ipanema com 450 lugares, Copacana,
com 600, Corcovado, com 1000, e Pão de Açúcar
com 1500). |
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Cheia de vitalidade, é a indústria de moda do Brasil que toma a
dianteira e veste um país com 180 milhões de habitantes. Os dados
disponíveis referem que, em 2004, o país produziu 5,6 biliões
de peças, num montante de 15,9 biliões de dólares, gerando
1,1 milhões de empregos, extravasando as suas fronteiras. Por exemplo,
a Colcci – que teve até ao final do ano a ubermodel Gisele Bündchen
como rosto da marca – exporta para 39 países, entre os quais Portugal.
Para os portugueses mais atentos, o único vislumbre dessa moda tem sido
dado pelas novelas televisivas cujos protagonistas exibem o que de melhor se
fabrica no país. Quantos de nós co-nhecemos a moda made in Brazil
ou compramos uma peça ou acessório seus? Mas a situação
está a mudar e, entre outros exemplos, os fatos de banho ou biquinis das
griffes Rosa Chá, Companhia Marítima, Salinas ou Lenny (e aqui
fazemos uma vénia) conquistam as mulheres portuguesas.
É neste contexto de grande enriquecimento da moda brasileira que o Fashion
Rio (www.fashionrio.org.br) assume um lugar de importância ao apresentar
numa semana e em primeira mão (segue-se-lhe o São Paulo Fashion
Week) as criações da estação em cerca de 40 desfiles.
Com impacto mediático no estrangeiro, o FR é a iniciativa de uma
mulher combativa, a jornalista Eloysa Simão, que colocou o evento no mapa
das manifestações de moda mundial, mantendo-se firme na liderança
do projecto.
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Bem talhada, criativa (não é essa a mais-valia dos brasileiros?)
e despretensiosa, a moda que tem desfilado no FR também tem de ser vista à luz
de como se vive abaixo do Equador e numa cidade voltada para o mar, como é o
Rio de Janeiro. Do vestuário formal ao casual, passando inevitavelmente
pela moda de praia, ela é centrada na mulher, ainda que os homens ganhem
cada vez mais espaço nesse segmento. Na sua esmagadora maioria, os homens
e mulheres que criam moda no Brasil reflectem nas suas criações
a atmosfera burguesa em que cresceram ou vivem, e tem ressaltado em cada edição
uma crescente profissionalização, quer na moda em si (o calçado
e os acessórios têm melhorado) quer na apresentação
das colecções nas passerelles. Neste particular, e ainda que não
atinjam a excentricidade ou o refinamento dos desfiles das grandes Casas de Moda
europeias, o Fashion Rio leva-lhes a palma em criatividade. Na colecção
de Verão, a que se referem as imagens nestas páginas, assistiu-se
a um crescendo quase competitivo. O pontapé de saída foi dado,
no Verão anterior, pela Salinas que ocupou toda uma das duas enormes bancadas
destinadas ao público com 45 toneladas de bananas contidas em caixas de
madeira, dando o mote ao desfile. Agora, essa marca especializada em moda de
praia colocou 700 figurantes em cena, com os corpos pintados com motivos étnicos
e com toucados de penas, numa alegoria ao tempo em que os índios povoavam
o Rio de Janeiro. Cem percussionistas interpretaram músicas indígenas
com misturas de samba enquanto as modelos desfilavam. A Blueman elegeu o cenário
exterior do velho aqueduto da Lapa para dar lugar ao seu desfile com 800 figurantes
negros vestidos de preto que executaram coreografias com espelhos, flores e velas,
enquanto os modelos femininos e masculinos mostravam a nova colecção
de fatos de banho e biquinis. Tirando todo o espectáculo, a moda dentro
e fora da praia é pautada pelas grandes tendências internacionais
(vestidos românticos, padrões étnicos, motivos florais, grafismos,
branco total, cores vivas, anos 80, sport chic...), com um toque da multiculturalidade
brasileira e africana. E com o bom sabor a pecado que só um país
como o Brasil, cujo clima quente obriga à nudez e à exaltação
do corpo e da sensualidade, nos sabe dar a provar.
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