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FAMÍLIA







Pais exaustos, crianças despertas. Famílias em alta tensão pela falta de uma noite de sono tranquila. O pediatra e neurofisiólogo catalão Eduard Estivill promete uma solução infalível.

Por MARIZA FIGUEIREDO

Ser capaz de dormir tranquilamente noites inteiras é a chave para uma vida saudável, com bom rendimento físico, intelectual e psicológico, para adultos e crianças. Não há dúvida de que a maternidade e a paternidade nos mudam os ritmos do sono. Estamos mais sensíveis e alertas. Cientes de que por algum tempo não dormiremos toda uma noite de seguida, sobretudo nos primeiros meses de vida do bebé, quando o seu ritmo biológico é ainda muito fraccionado, composto por ciclos de três ou quatro horas em que o recém-nascido come, dorme e volta a despertar.

Mas ao quarto mês, já a grande maioria dos bebés é capaz de dormir oito horas seguidas sem precisar de alimentos. E aos seis, já estão prontos para se adaptar ao ciclo dos adultos, sendo capazes de dormir entre 11 e 12 horas seguidas, à noite, fora as possíveis sestas. Quando isso não acontece, as noites mal dormidas ultrapassam o normal e afectam pais e filhos, aumentando a irritabilidade e a insegurança de ambos, e interferindo de forma negativa na sua vida em geral.

Até há muito pouco tempo acreditava-se que dormir era uma coisa natural, que não precisava de ser aprendida. A verdade é que os bons hábitos de sono não caem do céu. Aprendem--se, tal como se aprende a comer ou a usar a casa de banho. E quanto mais cedo se dá ao bebé ferramentas para ador-mecer por conta pró-pria, menos hipótese haverá de surgirem problemas a este ní-vel durante a infância ou ao longo do resto da vida.

Cerca de 35 por cento das crianças entre os seis meses e os cinco anos sofre de insónia infantil. É o que indica o pediatra e neurofisiólogo Eduard Estivill, há 11 anos dedicado a investigar o sono em geral e a insónia infantil em particular. Estivill acaba de lançar entre nós o livro Método Estivill – Um Guia Rápido para os Pais Ensinarem os Filhos a Dormir (Dom Quixote) e explica que as crianças que padecem de insónia encontram dificuldade para iniciar o sono sozinhas, têm múltiplos despertares nocturnos, dormem um sono superficial e fazem-no durante menos horas do que as habituais para a sua idade. “Uma criança que desperte a meio da noite uma vez por semana não é nada, mas três, quatro ou cinco vezes por noite, sim”, comenta o pediatra em entrevista.

As consequências que isso lhes pode trazer são muitas. “É durante o sono que se fabrica a hormona do crescimento”, explica o especialista. “Mas, mais do que isso, a memorização do que se aprende durante o dia dá-se quando dormimos. As crianças que dormem mal são mais irritáveis, mais dependentes daqueles que as cuidam, mais inseguras como pessoas e apresentam pior rendimento escolar. As que dormem bem tendem a ter melhores resultados na escola e a serem crianças com menos problemas de conduta.”

A transição do bebé do ciclo de vida de recém-nascido (de três a quatro horas) para o ciclo dos adultos, que segue o ritmo solar de 24 horas e implica horas seguidas de sono durante a noite (cerca de 11 para os bebés e de oito para os adultos), depende de um grupo de células do cérebro – o núcleo supraquiasmático do hipotálamo – que agem como um relógio. “Cerca de 70 por cento dos recém-nascidos conseguem pô-lo em marcha com um mínimo de rotinas, uns quantos simples estímulos (pegar no bebé, pô-lo no berço, dar-lhe as boas-noites, embalá--lo um bocadinho ou cantar-lhe uma canção)”, escreveu Estivill no seu livro. Para os restantes 30 por cento, é preciso apenas um bocadinho mais de ajuda para pôr este relógio a funcionar. Para isso, o especialista sugere que se recorra a estímulos externos: reforçar o contraste entre a luz e os ruídos do dia e a escuridão e o silêncio da noite, evitando criar ambientes artificiais quando a criança dorme durante o dia, não escurecendo o quarto nem andando em bicos de pés; recorrer à ajuda das refeições que a- nunciam a actividade seguinte, que é dormir, e ensinar-lhe a conciliar o sono sozinho, sem que ninguém o ajude.
 
  O seu filho dorme bem?

De acordo com o pediatra Eduard Estivill, responder “sim” a estas perguntas indica o hábito de sono correcto na criança:

Deita-se sem chorar e com alegria?
Concilia o sono sozinha?
Dorme no seu berço (ou cama) e com a luz apagada?
Dorme entre 11 e 12 horas seguidas (ainda que algumas crianças precisem de menos tempo)?
   

Rotina é a palavra-chave para começo de conversa. A rotina dá segurança ao bebé e ajuda-o a prever e a preparar-se para o que vem a seguir. Um hábito, seja ele dormir, comer ou outro qualquer, configura-se associando-lhe elementos externos. Se para ensinar a comer associamos sempre os mesmos elementos – cadeirinha, babete, prato e colher –, para dormir, a rotina também é importante, assim como os elementos externos. Para este especialista, os pais, depois de amamentar ou dar o biberão ao bebé, devem fazê-lo arrotar, trocar-lhe a fralda, pô-lo na cama, falar-lhe com carinho, mas deixá-lo adormecer só, sem realizar qualquer acção para o fazer dormir. “Um bebé não precisa de nada disso para conseguir adormecer”, explica Estivill. “Tocar na criança, embalá-la, cantar-lhe, acariciá-la são gestos que devemos fazer antes de a pôr na cama. Estes são elementos de afecto, não serve para nada fazer isso quando a criança está a dormir.”

Os pais não devem ser os elementos externos para o hábito de adormecer do bebé. “Caso contrário, sempre que a criança acordar durante a noite, esperará encontrá-los ao pé de si”, explica o especialista. E fará tudo para o conseguir – das gracinhas às mais dramáticas birras, do pedido de água ou leitinho às queixas de dor de barriga ou de cabeça.

Falta de sono e obesidade na infância

Especialistas da Universidade de Bristol, no Reino Unido, estabeleceram uma ligação entre a falta de sono e a obesidade

Dormir menos do que o necessário pode afectar o metabolismo e contribuir para a obesidade, a resistência à insulina, diabetes e doenças cardiovasculares

Os estudos revelam que a duração do sono está associada aos níveis de leptina – uma hormona produzida pelo tecido adiposo quando os depósitos de energia estão baixos –, assim como de grelina, uma hormona produzida pelo estômago para indicar fome

Na infância, esta ligação parece ser ainda maior l O estudo associa, por exemplo, o dormir menos horas, aos 30 meses de idade, com a obesidade aos sete anos
As escapadelas para a cama dos pais também não são recomendadas. “Apenas com um carácter pontual, como uma recompensa por alguma coisa, mas nunca por norma”, sublinha Eduard Estivill. Para o pediatra, neste caso, estão novamente os pais como elemento externo do hábito de sono da criança. “E se não estão os pais, esta não dorme bem. O problema é que, quando crescem um pouco mais, não querem ir dormir a casa dos amigos nem fazer outra actividade que implique dormir fora de casa. Estas crianças tendem a ser mais inseguras.”

No Método Estivill, os pais começam por preparar os elementos externos que vão apoiar o bebé (ou a criança pequena). Serão estes os elementos com os quais os mais pequenos contarão cada vez que despertarem durante a noite, devendo associá-los aos pais. O especialista sugere um boneco, escolhido pelos pais, a quem estes devem dar um nome simples e fácil, e que deve ser sempre posto ao pé da criança. Se esta usa chupeta, os pais devem pôr uma ou mais ao seu alcance, de forma a que seja facilmente encontrada no meio da noite. Devem ainda criar mais dois elementos externos, como um desenho e um móbil, por exemplo, “que acompanhará a criança todas as noites a uma distância prudente, para que não possa tocá-lo nem arrancá-lo”.

Preparado o ambiente, passa-se à prática. “Depois do banho e do jantar, os pais deverão dedicar cinco a 10 minutos para partilhar com a criança uma actividade relaxante e agradável.” Podem escolher entre um jogo suave, contar uma história ou cantar uma canção, por exemplo. A televisão, o computador e as brincadeiras cheias de energia são desaconselhados. Este é o momento ideal para os gestos de carinho, os mimos e os risos. Estivill denomina este momento como hábito de afectividade e sugere que tenha lugar, de preferência, noutra divisão que não o quarto da criança.

O passo seguinte é levar a criança para o quarto, onde estarão à sua espera os elementos externos preparados pelos pais. Ali, vestem-lhe o pijama e deitam-na no berço ou na caminha. Se a criança se levanta, chora ou protesta, os pais não devem ficar enervados. Fazem-lhe um carinho e dizem “em voz alta, com um tom sereno e doce, mas seguro”, que estão a ensinar-lhe a dormir na sua cama (ou berço) e que a criança conta com a companhia do desenho, do móbil e do boneco. Os pais poderão repetir a explicação, mas sem entrar em diálogo com a criança e sem que isso se prolongue por mais de 30 segundos. Depois saem do quarto sem fechar a porta.

Quantas horas de sono?
Idade Sono nocturno (horas) Sono diurno (horas) Total
03 meses
06 meses
12 meses
02 anos
03 anos
04 anos
05 anos
06 anos
10 anos
14 anos
16 anos
6-10
10-12
11
11
10.5
11.5
11
10.5-11
9.5-10
9
8.5
5-9
3-4.5
2.5 (2 sestas)
2 (1 sesta)
1.5 (1 sesta)
0
0
0
0
0
0
15
14.5
13.5
13
12
11.5
11
10.5-11
9.5-10
9
8.5
fonte: Universidade de Michigan

“Se for necessário – se a criança chorar desconsolada – os pais realizam pequenas visitas para tranquilizá-la, não para adormecê-la, respeitando intervalos fixos entre cada uma das visitas. Os pais não abandonam a criança ao choro, porque entram continuamente para vê-la, mas não se rendem a nenhum dos seus pedidos. Podem tocar-lhe e, melhor ainda, podem ir ao seu lado dizer que gostam muito dela, acalmá-la mas não estar com ela até que adormeça.”

A chave deste método está na serenidade dos pais. A sua atitude deve demonstrar que o que estão a fazer não é um castigo e que estão apenas a ensinar à criança uma coisa boa. “Em momento nenhum perderão o controlo. (...) Não se zangarão nem prestarão atenção às suas acções. Repetirão a frase tranquilizadora, independente da hora, à meia-noite ou às cinco da madrugada.”

Não se trata de terem uma atitude rígida. “Rigidez significa agressividade e nunca se deve aplicar este método com agressividade”, comenta o especialista. A atitude deve ser de repetição e rotina, ou seja, os pais devem fazer tudo sempre igual. “A criança acaba por perceber que não tem mais remédio do que fazer aquilo, porque é a forma de o fazer. Quando a ensinamos a comer com a colher não o fazemos com rigidez, dá-se a sopa com a colher num dia, e depois outra vez, e outra vez. No final, já não faz falta, a criança já segura a colher para comer.”

Eduard Estivill assegura que, seguindo o método conforme indicado, este resultará em 95 por cento dos casos.













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