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A Taça Volpi, O Globo de Ouro, o prémio da Screen Actors Guild e o Bafta Award já eram seus antes de ganhar o Óscar. Em A Rainha, Helen Mirren vê reconhecido o seu superior talento.
Por HAROLD VON KURSK |
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Diz-se que é um dos seus melhores desempenhos de sempre, mas Helen Mirren confessa que, apesar de todo o estudo e reflexão que dedicou a este papel, continua a não ter a certeza de que conseguiu compreender a verdadeira natureza da rainha Isabel II. A actriz britânica, mais popular pelo papel de Jane Tennison na série policial da BBC, O Principal Suspeito, goza agora o reconhecimento resultante do seu trabalho no filme A Rainha. O seu retrato de Isabel II granjeou-lhe críticas entusiásticas após uma longa e notável carreira, mas só agora alcançou o reconhecimento internacional que muitos consideram pecar apenas por tardio. [Não obstante, foi a Melhor Actriz no Festival de Cannes em 1984 (Tempo de Guerra) e em 1994 (A Loucura do Rei George), e recebeu incontáveis nomedações para prémios, vencendo alguns deles].
Além do brilho do Óscar, Helen Mirren já ganhou a Taça Volpi de Melhor Actriz no Festival de Veneza (com uma ovação de cinco minutos no final da exibição da película), o Globo de Ouro, o prémio da Screen Actors Guild e o Bafta Award pelo seu desempenho – para além de outro Globo de Ouro pela interpretação de outra Isabel, a Primeira, na muito aplaudida minissérie televisiva da HBO, Elizabeth I.
É gratificante atingir este nível de reconhecimento nesta fase da sua carreira?
É maravilhoso e muito surpreendente. Tinha dúvidas em relação à forma como este filme iria ser recebido, porque se trata da vida de uma figura pública muito conhecida, e assusta um bocadinho representar alguém que, para além de estar bem vivo, é muito admirado.
Qual foi a maior dificuldade que o papel da rainha Isabel II lhe levantou?
O papel era difícil, porque antes de começar não sabia se iria conseguir ou não. Foi um desafio extraordinário e bastante assustador. Nunca me senti tão nervosa em relação a um papel. Ao mesmo tempo sabia que não podia falhar, pois o argumento era fantástico.
Já teve algum eco da própria rainha?
Não, e já li que ela não tenciona ver o filme, o que compreendo perfeitamente, pois aborda um período muito difícil da sua vida.
There is nothing like a Dame
Mirren descende de uma família de aristocratas russos pelo lado paterno. O seu verdadeiro nome é Ilyena Vasilievna Mironov, e nasceu em Ilford (Essex), na Inglaterra, a 26 de Julho de 1945. O avô paterno, um militar e diplomata da Rússia Branca, foi surpreendido pela Revolução Bolchevique quando estava em negociações para comprar armas na Grã-Bretanha, e conseguiu reunir a família no novo país de adopção. O pai da actriz mudou o apelido da família para Mirren, em 1950. Helen estudou num convento e depois num colégio em Londres. Trabalhou numa feira popular como chamariz de uma das diversões. Aos 18 anos foi admitida no National Youth Theatre, onde representou o seu primeiro papel como Cleópatra e aos 20 já era uma estrela no Old Vic. A actriz, que não tem filhos, partilha a vida há 20 anos com o realizador norte--americano Taylor Hackford (Oficial e Cavalheiro), com quem casou em 1997, e com quem vive desde 1986. Anteriormente, co-nheceram-se-lhe relações com Liam Neeson e Nicol Williamson. Em 2003, a rainha Isabel II agraciou-a com o título de Dama do Império Britânico. Sete anos antes havia declinado tal distinção. |
Admira-a?
Muitíssimo. É uma mulher extraordinariamente forte e, se atentarmos na forma como se comportou ao longo do tempo, tem desempenhado um cargo muito difícil com uma inteligência e uma sensatez notáveis. Sempre foi um foco de serenidade no meio de todas as tempestades que estalaram à sua volta, devido aos actos da irmã ou dos filhos. Mas a rainha sempre soube dar a volta por cima, e acho que é por isso que é tão respeitada e admirada.
A Helen também é uma figura respeitada e admirada pela sua carreira...
Está a tentar seduzir-me?...
Limito-me a apresentar factos… De qualquer modo, ia perguntar-lhe se a inspectora Jane Tennison é um dos grandes papéis da sua carreira.
Penso que sim. Jane Tennison é uma mulher rija e tenaz que conseguiu vencer num mundo de homens – e no mundo particularmente machista que é o dos polícias e detectives. Fuma, bebe e consegue resistir em circunstâncias tão difíceis que teriam derrubado muitos homens, quanto mais uma mulher que ocupa uma posição de autoridade num mundo muito patriarcal.
Alguns colegas seus afirmaram em entrevistas que há muito de Helen Mirren em Jane Tennison.
(Ri) E têm razão! Tive de lutar para ser respeitada como actriz num universo que era – e continua a ser – fortemente dominado por homens. Na altura, não percebi que tinha de ser uma pessoa ostensiva, incómoda, ruidosa e agressiva para conseguir ir a algum lado. Uma das grandes lições que os meus pais me ensinaram foi seguir o meu próprio caminho e não depender totalmente de um homem. Continuo a acreditar que o maior bem que uma mulher pode ter é a sua independência económica.
O seu casamento com Taylor Hackford tem sido uma fonte de bem-estar para si?
Sempre tive relações muito intensas com o sexo oposto e sempre detestei namorar, porque às vezes é uma autêntica tortura. Portanto, sempre fui uma espécie de “monógama em série” e tive algumas relações verdadeiramente fantásticas. Quando conheci o Taylor, soube quase desde o início que podíamos dar-nos bem e viver em harmonia. Ele tem uma personalidade muito vincada, o que é uma condição essencial, porque também tenho uma vontade bastante forte.
Ouvi dizer que uma das suas alcunhas é Hell [Inferno]…
(Ri) É verdade, mas normalmente chamam-me isso no set, onde tolero muito mal a estupidez ou a incompetência. A vida é demasiado curta para perdermos tempo com ninharias.
Acha que as mulheres continuam a precisar de modelos fortes – como a própria Helen – para se afirmarem socialmente?
As mulheres devem ter consciência de que ainda há muitas forças em jogo na sociedade que favorecem os homens. Continua a existir uma rede de solidariedade masculina, só que hoje é muito mais subtil e os homens dissimulam os processos de manutenção do poder de uma forma mais inteligente. Claro que muitos homens aceitam as mulheres como suas iguais e não fazem aqueles jogos terrivelmente destrutivos e cruelmente manipulativos com as mulheres, mas estas continuam a ter de lutar para reclamar o seu território e devem estar muito atentas às pessoas que procuram enfraquecê-las. Veja-se o caso de Jane Tennison. Ocupa um cargo elevado, mas enfrenta a todo o passo pessoas que lhe mordem as canelas e tentam der-rubá-la. Uma mulher com poder é alvo de muito mais ataques que um homem na mesma posição.
Aceita o rótulo de “sex symbol do homem pensante” que lhe apuseram há muitos anos?
Não sei bem se compreendo o conceito de sex symbol. Admiro muito a beleza e a sensualidade, e não me parece que seja esse tipo de mulher. De resto, quando os homens falam de sensualidade, é quase sempre sobre seios e pernas. Claro que me sinto lisonjeada se acham que eu tenho algum sex appeal mas, no meu caso, acho que é a minha personalidade forte que se torna sexy para algumas pessoas.
Alguns dos seus amigos dizem que a Helen é muito ousada e directa em tudo o que faz.
Tenho um certo grau de destemor e impertinência, mas que me levou algum tempo a adquirir. Comecei por ser uma pessoa tímida e indefesa, até que aprendi a superar as ansiedades e os ataques de pânico.
As pessoas sentem-se intimidadas por si?
Por vezes, ser intimidador é uma vantagem, apesar de me arranjar problemas de vez em quando. Mas se não nos preocuparmos demasiado com a imagem que os outros têm de nós, podemos viver com muito mais liberdade e à-vontade. Sentimo-nos menos inibidos e constrangidos pelas percepções que achamos que os outros têm de nós. Sempre acreditei que, se quisermos deixar alguma marca no mundo, temos de fazer por isso. Não sejam tímidos: ousem! |
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