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A forma como se nasce e se inicia a primeira
respiração pode influenciar a
qualidade dos vínculos estabelecidos
com o mundo. Através do Rebirthing é possível
reviver o passado e libertar-se de crenças
limitadoras.
Por Clara Soares
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A vida é bela. Umas
vezes sente-se isso, outras vezes faz-se de conta. Aprende-se
a parecer o que não se sente como estratégia
de sobrevivência e até se consegue a proeza
de dizer que está tudo bem, mesmo que o humor
sofra oscilações múltiplas. Nos
gabinetes de consultas médicas, é comum
os pacientes queixarem-se de dores, sensações
de aperto na garganta ou no peito, crises ansiosas e
até sensações de desespero sem causa
orgânica ou motivo. Não raras vezes, as
queixas resumem-se a uma profunda insatisfação
com a vida. A sensação de estranheza aumenta
quando se tem uma casa, um bom rendimento mensal, uma
rede de amigos e uma família. Algo parece errado,
mas não se sabe bem porquê.
Os medicamentos para as perturbações do humor – da “felicidade”,
assim os baptizaram, há uns anos – minimizam danos, atenuam o sofrimento
invisível, mas não devolvem o sentido da vida. A medicina convencional
trata feridas do corpo, as outras são um desafio constante para médicos
e investigadores e atormentam quem convive com elas na primeira pessoa.
Sofia Franco, de 33 anos, sentia-se frequentemente culpada. No trabalho e fora
dele, tinha dificuldade em acabar o que começava e sempre que o fazia
era com uma enorme sensação de esforço e dor. Com o tempo,
estas “crises” deixavam-na progressivamente insatisfeita, com a impressão
de estar presa e sem saber exa-ctamente a quê.
Foi então que Sofia, responsável de estratégia de uma agência
de comunicação, em Lisboa, quis perceber o que se passava com ela
e uma pessoa amiga falou-lhe do Rebirthing (renascimento). A técnica consiste
na exploração de três aspectos que fazem parte da fisiologia:
a respiração, o relaxamento e a mente focada. A partir daqui é possível
aceder à mente inconsciente e trazer à luz – ou consciência – mágoas
e pensamentos remotos e transformá-los.
“Para mim funcionou como o comando restart de um computador”, revela.
A brincar, vai dizendo que as sessões de duas horas, ao longo de 10 meses,
foram uma autêntica “receita médica”, que lhe permitiu
ultrapassar as tais pequenas crises de culpa inexplicáveis.
“Fui convidada a deitar-me e a respirar, simplesmente. Aos poucos, por
sugestão da terapeuta, fui entrando em contacto com a entrada e saída
do ar, o seu ritmo, a profundidade… e com estados mais subtis”,
narra Sofia. Sem-pre acordada, vieram-lhe à mente momentos do seu passado: “Nas
primeiras sessões percebi que tinha formado uma crença em miúda,
quando a minha mãe me dizia que tinha deixado inacabado o trabalho de
forrar uma cadeira – que ainda hoje está por concluir – porque
eu nasci naquela altura; uma crença associada ao meu nascimento, que era
da minha mãe, mas que eu mantive como minha, sentindo-me sempre mal na
hora de acabar qualquer coisa.”
Estava desmistificada a crença. Como libertar-se dela? “Em vez de
tomar um comprimido, o que eu tinha de fazer em casa era repetir 20 afirmações
por dia durante duas semanas”, esclarece. Desde então começou
a ter uma atitude mais despreocupada e a adoptar o lema “eu consigo acabar
tudo o que começo”. Quando tal não acontece, responsabiliza-se
pelo facto, mas já sem culpas.
Melhorias na saúde, clareza mental e bem-estar emocional são alguns
dos benefícios propostos por esta técnica terapêutica, desenvolvida
nos Estados Unidos pelos terapeutas de medicinas complementares Leonard Orr e
Sondra Rey, na década de 70. Este modelo surge na mesma altura em que
vieram a público investigações e práticas de assistência
neonatal pioneiras, associadas ao que veio a ser apelidado de “parto humanizado”.
De acordo com os fundadores do Rebirthing, a respiração contínua
(inspiração e expiração sem pausas) permite relembrar
(pela alteração dos níveis de oxigenação do
sangue) e libertar (expirar) traumas vividos no acto do nascimento. O trabalho
começa com uma conversa exploratória sobre como foi vivida a gravidez
pelos pais, como correu o parto e aspectos significativos da primeira infância.
Só depois se iniciam os exercícios respiratórios, acompanhados
pelo terapeuta.
“Trata-se de reencontrar uma parte de si que ficou perdida no acto do nascimento,
a nossa primeira estreia no mundo”, afirma Marinélia Leal, terapeuta
holística da clínica Ser, em Carcavelos, e que usa a técnica
de Rebirthing há 11 anos. Ela explica porque é que este momento
pode ser tão marcante e até traumático: “Nascer é hoje
um acto medicalizado, associado a um contexto de emergência, onde todos
têm de ser rápidos e eficientes; o novo ser é exposto à luz,
ao ruído, a sua coluna vertebral é esticada (quando esteve sempre
curvada na posição fetal) e é manipulado por várias
mãos. O cordão umbilical por vezes é cortado quando ainda
pulsa.” Esta atmosfera é captada pelo bebé e gera uma crença
de base do tipo “viver é lutar”, ou “viver é um
sufoco”, consoante o modo como se faz a transição do meio
uterino (aquático) para o exterior (aéreo).
“As pessoas trazem um problema à consulta e eu faço o roteiro
natal”, prossegue Marinélia. Aqui cabem perguntas sobre o meio familiar
durante o período da concepção, da gestação
e do nascimento. “A forma como a pessoa respira diz muito sobre a forma
como ela vive.”
Assim, alguém que retém o ar tem provavelmente questões
de apego e controlo para resolver. É como se, ao exalar, receie que não
haja mais nenhuma lufada de ar puro para receber (“pessoas com problemas
de di-nheiro tendem a inalar muito e a exalar pouco”). Uma pessoa obesa,
que tem geralmente dificuldade em inalar, pode mostrar resistência psicológica
quanto a abrir--se ao que é novo, afastando os outros de si sem ter consciência
disso. Situações de baixa auto-estima estão muitas vezes
associadas a crianças que não foram desejadas ou que nasceram com
o sexo “errado”. Adultos com bloqueios emocionais podem ter vivido
um parto de risco.
Ir à raiz do problema e recriar o roteiro natal, deixando vir todas as
sensações e memórias tidas então, traduz-se, no final
do processo (10 sessões, uma marcando a concepção e as outras
nove correspondentes ao ciclo de gestação e nascimento), numa “segunda
estreia” no mundo, com outro fôlego, por assim dizer.
Com diagnóstico de depressão, Roberta Rocha, de 32 anos, encontrou
no método uma saída para a depressão. Hoje diz-se
mais confiante e fez o desmame dos medicamentos, o que a deixa visivelmente satisfeita.
Nas consultas, a questão da prematuridade foi abordada e logo associada à crença
inconsciente de sentir-se inadequada (e até culpada) por vir antes do
tempo.
A engenheira informática admite que entre a tomada de consciência
e a modificação de crenças limitadoras – “fabricadas
pela criança que há em nós” – há uma
distância razoável: “Converso comigo mesma e, sempre que me
dou conta de estar a respirar rápido demais, paro e procuro relaxar; não é um
processo automático, leva tempo, mas vale imenso a pena.”
As técnicas respiratórias conscientes – que são, de
resto, parte dos ensinamentos e práticas do yoga – podem proporcionar
estados mais harmoniosos e fluidos. Reaprender a respirar é, em certo
sentido, retomar o leme da vida que se tem e criar pensamentos transformadores
(e pela positiva), ao ponto de sentir-se em paz consigo e com os outros. Ao ponto
de acreditar que, afinal, a vida é mesmo bela.
Rebirthing
em análise
Em que casos se recomenda?
Problemas neonatais, partos prematuros e induzidos (por químicos, fórceps
ou cesariana), problemas ou acidentes sofridos pela mãe durante a gravidez,
complicações pré-natais (cordão enrolado, posicionamento
inadequado). Casos de ansiedade e stress.
Que benefícios pode trazer
(reprogramação de memórias/crenças)?
Clareza mental, relacionamentos sãos, substituição de crenças
e pensamentos negativos por outros mais construtivos; maior disponibilidade para
gerir desafios; estados de humor equilibrados.
O que diz a ciência?
Não está provado se as memórias do nascimento podem ser
recuperadas; se o nascimento é um acontecimento traumático. Existem
provas de que o feto capta e processa estímulos no meio intra-uterino.
Para mais informações: www.ser.com.pt |
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