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CORPO & ALMA

A abertura à novidade e ao culto da imagem inspira a mulher renascentista dos nossos dias. Descubra quem é, o que deseja e como vive essa nova mulher.

Por Cristina Flora

Quem é a nova mulher renascentista? Como é que, no século XXI, nos podemos deixar seduzir pelo que se passou há cinco ou seis séculos? Sabemos que as mulheres dessa época eram belas e bem aprumadas, de sorrisos misteriosos e retratadas com códigos e símbolos precisos. Que segredos ou regras seguiam para manter vivo o nosso fascínio por elas?

Melissa Hamilton, autora do site www.romanceeverafter.com, explica quem são e o que querem as representantes desta nova tendência. “A mulher renascentista moderna é alguém que possui um vasto leque de conhecimentos, exulta auto-confiança e celebra a beleza que é a sua feminilidade. Empenha-se em fazer de si a melhor pessoa possível e está aberta a novos conhecimentos, a desbravar lugares e a adquirir cultura. O desafio é que, na sociedade actual, a sua habilidade para crescer e descobrir-se pode perder-se no ritmo frenético da sua vida diária.”
Além disso, ela encontra prazer nas pequenas coisas, aprecia a cor de uma flor, escolhe para a sua casa acessórios que imediatamente lhe transmitam bem-estar. Segundo estas mulheres, afirma Melissa Hamilton, a vida é para abraçar, mesmo quando parece escapar ao nosso controlo.
O nosso dia-a-dia não nos permite igualar o apogeu da elegância sofisticada da rainha Elizabeth I, por exemplo. Extremamente culta, a rainha privilegiou as viagens e as descobertas. É esta abertura à novidade e ao culto da imagem que inspira a mulher renascentista moderna.


Tal como as suas antepassadas, esta nova renascentista é sedenta de conhecimentos em várias áreas: história, literatura, escrita, fotografia, música, cinema, estética, orgulhando-se da sua bagagem cultural. Para além de absorver informação, tem prazer em partilhá-la com os demais. Para ela, o conhecimento não acaba depois de terminada a sua formação académica. Aprender é trabalho de uma vida e isso significa ser flexível às novas ideias. Devotar tempo a si própria, tratar simultaneamente do físico e do espírito, é uma ideia que a todas cativa.

Elegância Tudor
  • Para os adeptos das belíssimas roupas renascentistas inglesas, o site www.tudorshopp.com apresenta uma gama de acessórios deslumbrantes, bastante acessíveis. O link é Clothing for Woman
  • O objectivo dos criadores deste site concebido há três anos é o de pferecer as melhores reproduções possíveis. Não admira que as séries televisivas de época e os festivais renascentistas sejam clientes habituais.
A chamada primeira-dama da Renascença, Isabel d’Este (1474-1539), marquesa de Mântua, governou sozinha após a morte do marido. O seu pai, o duque de Ferrara, defendia que homens e mulheres deviam ter a mesma educação. Aos 16 anos, Isabel d’Este falava grego e latim, tocava harpa, cantava, dançava e mantinha debates com pessoas muito mais velhas. A educação esmerada contribuiu para que fosse uma excelente chefe de Estado. Fundou uma escola para raparigas, defendeu as artes, acolhendo escritores, poetas e artistas na sua casa – os famosos cenáculos do Renascimento –, lançando modas com a sua imagem de glamour e sofisticação. Chegou a escrever mais de duas mil cartas, comentando a política e a guerra.

Se tudo isto foi possível no passado, o que impede uma mulher inserida numa sociedade civilizada dos nossos dias de ser ao mesmo tempo uma intelectual brilhante e uma sensual ditadora de moda? Talvez o marido, o emprego e as crianças. Segundo a defensora do conceito da mulher renascentista moderna, “as mulheres são as pessoas mais ocupadas, em particular as mães que se situam entre os 30 e os 40 anos. É muito duro manter um equilíbrio quando parece que cada segundo é disputado”. A nova mulher sabe que é fundamental encontrar um equilíbrio saudável entre o prazer, o tempo para a família, os amigos e o trabalho.

Investir em nós próprias e na nossa imagem requer tempo. Quantas horas no cabeleireiro por causa das madeixas, na depilação, nas massagens e no próprio ginásio? Tudo por causa da beleza, um ideal exigido e venerado, algo mutável ao longo dos tempos.

Nos séculos XV e XVI, não se viveu o apogeu das gordas, mas sim das mulheres bem constituídas. A mulher devia ser roliça, de ancas largas e seios generosos. Talvez a silhueta arredondada fosse fruto do abuso da manteiga, das natas e doces, mas, para além da formosura, a gordura era apanágio dos ricos e diferenciava-os dos pobres, magros e pouco saudáveis.

O magnífico trio italiano, expoente máximo da pintura do Renascimento – Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Rafael –, exibe nos seus trabalhos a perfeição deste ideal de beleza. Podemos ver grandes superfícies de carne leitosa nos frescos da Capela Sistina. E tanto a Mona Lisa, de Leonardo, como a Senhora com Unicórnio, de Rafael, representam mulheres bem nutridas, de pele clara, ausência de pálpebras e testas altas e arredondadas. O unicórnio simboliza a castidade, reforçando a imagem de pureza da dama.

Ser bela significava ainda ser loura, mas ter sobrancelhas pretas, possuir lábios vermelhos, o pescoço e as mãos compridos e esguios, os pés pequenos, a cintura flexível, os seios firmes, redondos e brancos, os mamilos róseos e os olhos pretos ou castanhos. E o que fazer, meu Deus, para cumprir todos estes requisitos?

As italianas passavam longas horas ao Sol, com a face protegida, a fim de aclarar o cabelo. Lavavam-no também com sumo de limão e aplicavam diversos preparados. A meta era aquele cabelo louro, grosso, ondulado e comprido de O Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli. “Todas queriam ser louras e a arte biondeggiante estava tão difundida que os homens exclamavam: ‘Não é possível encontrar, em toda a península, uma única morena.’”

Dos Países Baixos à Itália, a moda é para se respeitar. E apesar de o rímel só aparecer no século XVIII, os cosméticos abundavam. Mesmo contra a vontade dos homens, as renascentistas usavam e abusavam de pós, cremes e pinturas. “Na Itália do século XVI, dizia-se que todas as mulheres das cidades usavam maquilhagem, inclusive as lavadoras de pratos.”

As mulheres não eram tão altas como hoje. A média europeia rondava o metro e meio. Sendo assim, as saias compridas ajudavam a criar a ilusão de uma altura maior. No vestuário, as mulheres desde sempre souberam utilizar vários truques para favorecer a sua figura. Assim, a fim de destacar os seios, as renascentistas forçavam-nos para cima, através dos cordões apertadíssimos dos espartilhos.

Hoje, alguns criadores trouxeram para as suas colecções elementos da estética renascentista. É que, como se diz, a moda é cíclica e os designers podem sempre inspirar-se em épocas distantes ou prever tempos futuros.

A ideia de uma mulher se assumir como uma renascentista moderna é tão-só a aliança entre os cuidados dedicados ao corpo e ao espírito. Provavelmente, já vivemos esta filosofia. Mas ainda não tínhamos aprendido a reconhecê-la…

  Por uma Beleza Real

Um estudo encomendado pela marca de cosméticos Dove, que com a campanha publicitária Beleza Real tem como grande objectivo contrariar a influência que os media têm vindo a exercer ao definir parâmetros irreais de beleza, concluiu que:

  • Só 2 por cento das 3200 mulheres inquiridas em 11 países se consideram bonitas
  • Das inquiridas, 40 por cento afirma que não se sente bonita
  • Apenas 5 por cento fica confortável em descrever-se como “gira” e 9 por cento se considera atraente
  • 13 por cento sente-se muito satisfeita com a sua beleza; 17 por cento muito satisfeita com o seu rosto e apenas 13 por cento diz que está satisfeita com o seu corpo
  • 68 por cento das inquiridas concorda que os media e a publicidade definem parâmetros irreais de beleza, que a maioria das mulheres nunca conseguirá alcançar
  • 57 por cento concorda que a beleza feminina é definida de forma demasiado redutora
Esta campanha aposta na imagem de mulheres de todas as idades e de diferentes silhuetas, que fogem aos conceitos estereotipados de beleza.
A Dove convida o público a julgar a beleza da modelo, escolhendo uma de duas respostas: “Enrugada ou encantadora?”, “Volumosa ou charmosa?” A beleza (real) pode ter muitas idades, formas e tamanhos.

 














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