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HERÓI DO MÊS

Sentia-se em Polanski uma grande emoção ao fazer O Pianista, uma vez que se diz que ele levou 50 anos a preparar-se para fazer um filme deste género, tão próximo da sua própria experiência como sobrevivente de um gueto?

Ele é emotivo, mas não o demonstra. É muito rígido e intolerante para consigo mesmo e para com todos com quem traba-lha. Estabelece padrões muito elevados para o seu trabalho, espera que não nos afastemos desses padrões e não tem qualquer receio em nos criticar, se sentir que estamos a dar menos do que somos capazes. Todos nós conhecíamos a sua proximidade com esta história e, portanto, nunca iria começar a discutir se ele quisesse levar-me mais longe do que aquilo que eu normalmente faço. Este não era um filme comum para uma personagem comum. E tinha de mostrar respeito quer pelo realizador quer pela memória da personagem que estava a desempenhar. Por isso, aprendi a ir ao fundo de mim próprio e a esforçar-me mais do que alguma vez fiz como actor. Mas depois de passar por este tipo de processo, a sensação é a de uma incrível libertação e energia. Sai-se 100 vezes mais forte e mais confiante das nossas próprias capacidades. Aprendemos que ainda nem sequer começámos a perceber como é ir ao limite na vida.


Porque é que decidiu isolar-se dos seus amigos e do resto dos actores e da equipa?
Precisava de me afastar de todo o conforto físico e emocional que acumulamos ao longo da vida. Queria experimentar alguma da alienação e da solidão que a minha personagem teve de enfrentar - e todas essas são experiências que ele descreve com muita clareza e de uma forma quase cirúrgica no livro em que o filme se baseia. Para lá chegar, tive de me impor uma disciplina bem severa. E resultou, porque na altura em que tudo estava pronto para se começar as filmagens, eu sentia que estava à beira de um colapso nervoso. Nunca me senti tão mal e tão angustiado na vida.


Achava que, se depois de um dia de filmagens, se descontraísse um pouco com o resto da equipa, isso o faria sair da personagem?
Não foi só isso. Foi também o facto de eu estar ainda naquele processo de passar fome. Não podia ir fazer refeições normais com o resto das pessoas, porque só podia comer mal e morria se visse os outros todos a comer normalmente. E também não podia ir beber um copo e divertir-me, porque não podia beber nem divertir-me nesse sentido. Não teria sido capaz de me aguentar. Teria caído para o lado. Assim sendo, só me restava manter a minha disciplina neurótica. [Ri]


Foi nomeado para um Óscar e O Pianista trouxe-lhe o tipo de sucesso que basicamente lhe assegura uma carreira muito interessante. Isso faz com que tudo tenha valido a pena?
É muito gratificante receber o reconhecimento pelo qual tão duramente se trabalhou. Uma nomeação para um Óscar é sinal de que se atingiu um nível de aceitação por parte dos nossos pares e de que o nosso trabalho está a ser apreciado. Fiz um outro filme, A Barreira Invisível, e também trabalhei muitíssimo para aquele papel. Mas quando o filme chegou às salas de cinema, o meu papel tinha sido reduzido a uma participação sem fala. Fiquei arrasado. Tinha levado os meus pais a ver o filme e quase não restava nada para eles verem. Desta vez, pude levá-los a Cannes e mostrar-lhes finalmente aquilo por que tinha trabalhado toda a minha vida. Foi uma experiência maravilhosa.


O que é que significou, para si, ver O Pianista conquistar a Palma de Ouro em Cannes, no Verão passado?

A rápida ascensão de Adrien Brody em Hollywood assenta no que classificou como "a mais dura batalha" que teve de travar como actor, para conseguir compreender e transmitir aquilo por que um pianista polaco passou no gueto de Varsóvia, à mercê dos nazis.
Foi um daqueles momentos que sabemos que só acontecem uma vez na vida. Fiquei completamente confundido com a ovação que o filme recebeu quando foi visto pela primeira vez, com todas as pessoas a aplaudir de pé e as lágrimas a cair pelo rosto. Levantei-me, chorei e acenei para toda a gente, para mostrar que estava reconhecido por todos se terem juntado a mim, a Roman [Polanski] e a todos os que trabalharam no filme que recria a jornada de Szpilman. Os meus pais estavam ali comigo e foi um momento simplesmente maravi-lhoso, de grande felicidade. Sentia também orgulho em ter podido levar os meus pais à Riviera Francesa e tratá-los como reis. Foi a minha forma de dizer obrigado por todo o apoio que sempre me deram toda a vida. [A mãe de Brody é uma fotógrafa altamente respeitada do jornal Village Voice de Nova Iorque e o pai é professor de História].


Depois de ter comido o pão que o diabo amassou para desempenhar este papel, o que é que acha que ganhou a nível espiritual?
Fez-me apreciar a vida de uma forma muito mais completa, abriu-me os olhos para as coisas que são verdadeiramente importantes e ensinou-me a não me preocupar com o superficial, com o ego e com todas essas preocupaçõezinhas com que perdemos tanto tempo. Arredando-me de todas as coisas seguras e securizadoras de que sempre me rodeara, afastando- -me do tipo de prazeres e confortos habituais que assumimos como garantidos, aprendi a ver as coisas com muito mais clareza. Sinto que me tornei muito mais atento ao que de facto quero da vida e aprendi a não me deixar confundir por todos os disparates que podem arrastar-nos para falsas direcções na vida. Quando agora penso na minha vida e naquilo que pretendo com o meu trabalho, vejo tudo com muita nitidez e sinto uma espécie de maravilhosa simplicidade.


Até que ponto é que foi difícil afastar-se dos seus amigos durante os seis meses em que esteve a trabalhar em O Pianista?

Foi bastante perturbador e inquietante. Deixei de ter vida pessoal... durante meio ano. Perdi contacto com uma série de gente. Era demasiado difícil conseguir resolver problemas nas mi-nhas relações. Tudo aquilo era um sacrifício intencional, que foi temporário e lamentável, mas que foi algo muito forte. Fiz todas aquelas coisas para estimular os sentimentos de solidão e de perda. Isso ensinou-me a apreciar melhor tudo e todos os que são importantes na minha vida. Foi por isso que vendi o carro. Pensei assim: eu não quero ter um sítio seguro em que possa pensar, nem bens materiais em que me possa refugiar. Queria ser despojado de tudo isso.

Como foi o seu regresso à vida desde que terminou o trabalho em O Pianista?
Passei um tempo fantástico a viajar, a promover o filme, e basicamente a trabalhar na minha música, que foi sempre o meu outro interesse. Fui sempre um enorme admirador da música hip hop. Construí um estúdio na minha casa nova em Los Angeles, onde estou a trabalhar em música para outros artistas e talvez a tentar preparar o meu próprio álbum. Tive também oportunidade de me descontrair, voltar aos meus amigos e gozar a vida em todo o seu sentido.


Que género de filmes gostaria de fazer agora?
Neste momento, gostava realmente de fazer algo disparatado e arrojado. Sonho em ir para o Tahiti ou qualquer ilha das Caraíbas, contracenar com uma bela actriz e ficar deitado na praia o dia todo, à espera de filmar a minha cena. Adorava representar uma personagem leve, divertida e muito inconsequente, receber uns honorários bem chorudos e só depois pensar em sofrer de novo pela minha arte. [Ri] Acredite ou não, sou realmente um tipo que adora a vida. Respeito muito o sofrimento, mas prefiro fazer coisas que me deixem feliz. Sinto que conheço o outro lado, e muito embora todos devamos respeitar isso, devíamos saber que podemos escolher viver bem e sermos felizes, se pudermos.

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