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HERÓI DO MÊS

Por Harold von Kursk
Fotografias de Lamoine/City Files
Para o filme O Pianista, o actor fez uma viagem inquietante ao fundo de si próprio. Afastou-se de todo o conforto físico e emocional. Renasceu confiante. E com outra visão da vida.


O Pianista, de Roman Polanski, é talvez o melhor filme da car-reira do realizador polaco e certamente um dos melhores filmes do ano passado. Contando a história do pianista polaco Wladyslaw Szpilman e de como ele sobreviveu milagrosamente ao Holocausto e ao gueto de Varsóvia, O Pianista catapultou um actor americano praticamente desconhecido - Adrien Brody - para o mais completo estrelato de Hollywood. Antes de O Pianista, Brody era apenas um entre as centenas de actores talentosos à espera da oportunidade para desempenhar aquele grande papel que o faria subir ao topo. O Pianista não só fez imediatamente dele uma estrela, como também lhe angariou uma bem merecida nomeação para um Óscar pela sua envolvente interpretação. Na realidade, Brody comeu o pão que o diabo amassou para penetrar na mente tortuosa e no espírito perturbado de Szpilman, que observava impotente como os amigos e familiares eram enviados para campos de concentração, para nunca mais serem vistos.




O Pianista valeu a Adrien Brody, actor praticamente desconhecido, uma merecida nomeação para um Óscar, ao lado de intérpretes consagrados. Entretanto, este filme de Roman Polanski conquistou dois prémios da Academia Britânica (Bafta Awards, Melhor Filme e Melhor Realizador) e sete prémios da Academia Francesa (Césars, Melhor Actor, Melhor Filme e Melhor Realizador, entre outros), além de outras distinções.
"Isto foi a mais dura batalha que alguma vez tive de travar como actor, porque optei propositadamente por me colocar num terrível estado de espírito para conseguir compreender e transmitir aquilo por que Szpilman passou", explica Brody.

O actor, um indivíduo já naturalmente magro, perdeu cerca de 15 quilos para atingir aquele aspecto macilento que o realizador Polanski, ele próprio sobrevivente do gueto de Cracóvia, considerava essencial para qualquer retrato de Szpilman. Durante seis semanas, Brody submeteu-se a uma dieta ao nível da subsistência que consistia em dois ovos escalfados, uma pequena porção de peixe ou de frango e alguns legumes cozidos a vapor.

Tornou-se irascível e distante, vendeu o carro e algumas outras coisas para se despojar de bens materiais - tal como Szpilman e a família foram despojados dos seus bens pelos nazis -, rompeu com a namorada, deixou de telefonar aos amigos e isolou-se no seu mundo próprio, em que estudava quatro horas de piano por dia e não saía do quarto de hotel. Enquanto o filme esteve a ser rodado, Brody teve muito pouco contacto quer com os outros membros do elenco quer com a equipa das filmagens. Só Polanski estava presente, com os pés bem assentes na terra, orientando-o ao longo do seu desempenho.

Brody dedica-se à arte de representar desde os 12 anos, altura em que foi para a Academia Americana de Artes Dramáticas, em Nova Iorque, de onde é natural. A partir daí, distinguiu- -se em alguns papéis de considerável dificuldade, como o de um doente mental, o de um adolescente suicida e o de um órfão. A mãe de Adrien, Sylvia Plachy, ela própria famosa como fotógrafa de grande mérito do jornal cultural Village Voice, levava-o com frequência quando ia trabalhar, incluindo quando fotografava celebridades várias, actores cinematográficos de renome, políticos e outros notáveis. Isto foi gradualmente estimulando o interesse de Brody pela arte de representar.

Desde muito pequeno, ele sabia que tinha talento para representar e também para a música, que é outro dos seus interesses profissionais, tendo já gravado sequências para artistas de hip hop, como os Run DMC e Puff Daddy.


Optou por se impor a si próprio um nível de sofrimento pessoal só para criar a sua personagem. Sabia, à partida, quão difícil ia ser esse processo?
Não fazia a mínima ideia daquilo em que me estava a meter. Os actores adoram fazer jogos mentais consigo próprios, para entrarem no tipo de cenário mental que acham necessário para as suas personagens. Mas, neste caso, acho que exagerei. Só me apercebi que tinha ido longe demais quando estavam a começar as filmagens e me dei conta de que estava muito deprimido e infeliz. Sentia-me péssimo, mas obviamente que aquilo não era nada comparado com os verdadeiros horrores por que Szpilman passou. Por isso, não podia realmente dar--me ao luxo de sentir pena de mim próprio, quanto mais não fosse por respeito por aquilo que ele passou.


Polanski foi um supervisor duro durante este processo?
Tendo em conta aquilo por que ele próprio passou como sobrevivente do Holocausto, Polanski não iria começar a ter pena de mim, um actor que se sentia exausto e infeliz no início das filmagens. Um dia, estava eu a queixar-me, logo no início do filme - quando fugi do gueto e entrei na cidade principal, para acabar por vê-la totalmente destruída -, e disse a Polanski que não sabia como é que iria conseguir fazer aquela cena porque me sentia péssimo. Ele respondeu-me apenas para prosseguir o meu trabalho. Não obtive qualquer compaixão da parte dele e acho que ele tinha razão. Eu estava ali para fazer um trabalho, o trabalho muito especial de honrar a memória deste homem tão incrivelmente inspirador e corajoso.


 



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