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Os seus filhos fazem planos, estabelecem projectos de carreiras profissionais. Quando o sonho comanda a vida, há que saber escutar, apoiar. E dar tempo e espaço à imaginação.

por Pilar Diogo - ilustração José Moreira


Os pais são o primeiro modelo dos filhos, influenciam o seu futuro, dizem-lhes o que está certo e o que é errado, apontam-lhes os caminhos a seguir. Mas em cada criança existe, algures lá no fundo, um jardim secreto onde ela guarda os seus sonhos e ambições, os seus desejos acerca daquilo que mais gostaria de fazer e ser "quando for crescida".

As crianças vivem em dois mundos. No da sua experiência interior, dos sentimentos e sonhos que ajudam a construir a sua personalidade, e no mundo exterior, da comunidade, da qual fazem parte pessoas que as influenciam: pais - sobretudo estes -, amigos, professores...

"A interacção social é muito importante para o desenvolvimento da criança: aprender a comunicar com os outros, conhecer pontos de vista diferentes, partilhar experiências e afectos, estabelecer relações de amizade, entre outras coisas", diz Isabel Sá, psicóloga e investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. "Mas se é importante haver tempo para os aspectos ligados à comunidade, deve simultaneamente haver tempo para actividades a sós, para explorar os seus gostos e prazeres pessoais, as suas fantasias, e aprender a estar consigo mesma." Quanto mais tempo as crianças passarem ligadas à comunidade, menos tempo terão para explorar a riqueza das suas vidas interiores.
É importante que as crianças sejam encorajadas a pensar no que gostariam de ser e de fazer quando crescerem, "porque são estes objectivos de vida que irão orientar e dirigir o nosso comportamento no presente, como os estudos, ter amigos, ler, ver filmes... O problema é a definição de 'sucesso' na comunidade em que a criança vive. Mesmo que os sonhos sejam irrealistas, o que é normal em fases precoces do desenvolvimento - ser bombeiro, astronauta, cabeleireira, piloto de automóveis -, é importante que existam esses objectivos e que a criança aprenda e descubra coisas novas em função deles, ou seja, que comece a construir um projecto de futuro que não tem de ser definitivo, mas que irá mudando à medida que conhecer mais aspectos do mundo em que vive".

Apoiar um projecto
Aqui ficam alguns conselhos da psicóloga Isabel Sá para os pais encorajarem e reconhecerem os sonhos das crianças.
1
Os pais devem conversar com as crianças sobre os seus projectos a curto e a longo prazo, permitindo-lhes explorar esses projectos (informação sobre o que envolve determinadas profissões, o que é preciso fazer para atingir determinados objectivos), com realismo, mas sem um pessimismo exagerado (não diga: "Isso é um disparate", "Desse modo, nunca serás alguém importante")
2
Não comparem o desempenho dos filhos com os das outras crianças. Não interessa se a nota de 15 é melhor do que o 14 do amigo. O que importa é que a criança conseguiu por si esse resultado (o mesmo se passa se for um 12 ou um 18)
3
Estimulem os esforços das crianças para saber mais acerca de um projecto de vida - comprar livros ou ir a uma biblioteca, ver teatro, filmes, exposições...
4
À partida, não neguem uma possibilidade, mesmo que lhes pareça irrealista. Naturalmente, em contacto com o mundo que a rodeia, a criança irá criando objectivos mais realistas

Ao desenvolver o seu mundo imaginário, as suas vidas ficam mais ricas e mais equilibradas. Mas é preciso perder tempo para perceber quais são estes sonhos e haver espaço para que tal aconteça. E é também necessário que os pais não se queiram realizar através dos filhos. Porque isso nunca acarreta bons resultados. Ser médico porque o pai também o foi, quando toda a vida se quis ser músico, é triste e resulta sempre em existências rancorosas e talentos desperdiçados.

"Muitas vezes, os pais impõem aos seus filhos os seus próprios sonhos que, por uma razão ou outra, não chegaram a concretizar. Ao imporem esses objectivos, sem atenderem a se estes correspondem ou não aos interesses e competências da própria criança, podem criar expectativas demasiado altas que levem os filhos a desistir de ser o que os pais querem, ou a adoptar uma atitude passiva, desmotivada e não responsável pelo curso das suas vidas", diz Isabel Sá.

A importância e o ênfase que é dado à realização significa que os pais raramente dão aos filhos espaço e tempo para estes explorarem o seu mundo interior. As crianças que não o fazem sentem-se zangadas e magoadas, sem direcção e objec-tivos. Irão elas procurar a aventura e a atenção em comportamentos negativos? Segundo Isabel Sá, se isso se traduz ou não noutros comportamentos negativos, "depende do contexto e das oportunidades de realizarem ou não os seus próprios sonhos de outras formas".

É natural que os pais tenham aspirações em relação aos filhos. Os pais querem que as suas crianças sejam consideradas pelos outros como pessoas de sucesso - o que é válido. O que não pode acontecer é que isto seja feito à custa dos sonhos individuais. É por isso importante lembrar-lhes que as crianças têm as suas próprias aspirações e que estas podem não ser concordantes com as deles.

"As crianças que sentiram que os seus sonhos não foram valorizados pelos outros podem vir a desistir ou a conformar-se com os objectivos socialmente valorizados, ou ainda a sentir-se culpadas por não atingirem o que se espera delas, com sentimentos de baixa auto-estima, insatisfação pessoal e falta de confiança nas suas competências para ser bem sucedido", diz Isabel Sá.

O valor de um sonho
Não permita que os estereótipos - como o que você acha que é "apropriado" para um rapaz ou uma rapariga -, o estatuto ou a classe social interfiram com os interesses dos seus filhos
Perca tempo a discutir carreiras, sonhos, ambições, com as suas crianças e familiarize-se com essas ideias. Isto mostra-lhes o seu interesse e apoio
Deixe que o objectivo da criança seja a prossecução da excelência e da satisfação, mais do que "fazer dinheiro". E ensine-lhe que os sonhos têm mais valor do que o sucesso ou o estatuto social

O que é que os outros pensam? Há quem passe grande parte do seu tempo a imaginá-lo. Se o filho integra as fileiras da organização Médicos Sem Fronteiras, sentem-se orgulhosos porque isso é algo que é valorizado socialmente. Existem muitas outras situações que definimos como "sucesso" e que geralmente têm a ver com dinheiro, fama e poder. E os sonhos dos pais passam por isto. Algures na busca do sucesso e de boas notas, medalhas no desporto ou outro reconhecimento público, as crianças esquecem a sua visão pessoal.

Mas a vida não tem de ser aborrecida e um pouco de magia nunca fez mal a
ninguém: actores, músicos, enfermeiros, médicos ou até feiticeiros! Elas precisam de ter boas imagens de si próprias, imagens que as façam sentir excepcionais. E, no final, os pais sentem-se bastante recompensados e felizes quando ajudam os filhos a realizar os seus sonhos.

As crianças querem que os pais as amem sem restrições e que validem os seus desejos. É algo que elas ambicionam toda a vida. E que isso lhes seja dito durante toda a vida: que se pode seguir os seus desejos e que, ao fazê-lo, irão descobrir a sua verdadeira identidade.

"É fundamental que as crianças acreditem em si próprias e que são capazes de obter sucesso em muitas áreas, mas que, independentemente desses sucessos 'visíveis', sintam que os pais e os outros gostam delas incondicionalmente enquanto pessoas", diz Isabel Sá. "Trata-se mais de acentuar o potencial da criança, encorajar as suas iniciativas e fazê-las sentir-se especiais. Ou seja, para além das boas notas, das medalhas ganhas, os pais gostam delas pelas suas características pessoais - carinho, simpatia, imaginação, humor... A principal aspiração dos pais deveria ser que os seus filhos fossem felizes, qualquer que fosse a profissão ou opção de vida, não lhes impondo aspirações concretas em termos de profissão - ser médico, engenheiro - ou de nível de vida - uma casa com piscina, três filhos ou um bom carro. Isto é especialmente importante no caso das crianças com dificuldades em obter sucesso escolar, que acabam por se sentir frustradas e com baixa autoconfiança se sentirem que o seu valor enquanto pessoas passa por fazerem um curso superior, por exemplo. Provavelmente, estas crianças irão sentir--se mais felizes e realizadas se lhes permi-tirem desenvolver áreas em que são boas - no desporto, na culinária, a tratar de bebés, e por aí fora", diz aquela psicóloga.

Muitos pais limitam o seu reconhecimento e os elogios aos temas escolares. Isso dará a ideia de que só estão orgulhosos dos filhos nessas áreas. É essencial que sejam reconhecidas outras áreas de competência que não as escolares.

"Ser bom amigo, gostar de animais, ajudar em casa, por exemplo, são áreas que os pais podem valorizar, sobretudo quando a criança tem dificuldades na sua aprendizagem, de forma a não prejudicar toda a sua auto-estima: pode-se ser bom numas coisas e pior noutras. Salientar as diferenças e explicar que estas são naturais."

Cada criança tem a sua própria noção do que a faz feliz e contente. Quando a pressão sobre a criança para ser bem sucedida for só baseada em definições de sucesso limitadas, poderá tornar-se cansativo e também prejudicial.

"Claro que existem sempre limites às ambições que os pais têm para os seus fi-lhos", comenta Isabel Sá. "As capacidades reais destes, as limitações económicas e culturais e o contexto histórico. Os próprios desejos expressos pelas crianças sofrem destas mesmas limitações. O poder dos pais só será nocivo se for exagerado e desrespeitar completamente as competências e os interesses das crianças.

O processo de desenvolvimento consiste exactamente na progressiva conquista de autonomia, especialmente durante a adolescência. Pretende-se que os jovens sejam capazes de orientar o seu próprio comportamento pelos seus próprios valores e criar um projecto de vida pessoal, de acordo com as suas necessidades e interesses, que resultam do contacto que tiverem com as experiências de vida dos seus pais e de outros adultos importantes."

Quando o seu filho ou filha lhe anunciar, convictamente, que quer ser bailarino/a, jogador de futebol, actor, pintor, não lhe responda "Deves estar a brincar!...", mas talvez: "Se é isso que queres ser, o pai e a mãe vão fazer tudo para te ajudar." E se eles tiverem nascido para ser precisamente aquilo?
Encorajar e ter orgulho é a palavra de ordem, para mais tarde poder ouvir: "Obrigado, pai e mãe, isto é o meu so-nho tornado realidade."

Como nos explica Isabel Sá, a nossa auto-estima resulta em parte de as pessoas significativas na nossa vida nos verem de forma positiva e terem orgulho em nós.

"O fundamental é que os pais salientem que estão orgulhosos dos filhos e que estes também devem estar satisfeitos com eles mesmos: 'Resolveste bem esse problema, deves estar orgulhoso, satisfeito, contente contigo.' Desta maneira o elogio está lá, mas também ensina a criança a não depender tanto dos outros. É um modo de lhe ensinar a recompensar-se a si mesmo." E nunca se deve ser falso com uma criança. Elas são demasiado espertas: em poucos segundos, percebem que os elogios são excessivos e despropositados.

Encorajar a criatividade e apoiar os fi-lhos, guiando-os para que dêem o seu melhor aceitando as suas diferenças, poderá ser o melhor presente que os pais dão aos filhos. Até porque nunca se sabe até onde eles podem chegar.



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