Home
  Moda
  Especial
  Tendências
  Shopping
  Shows
  Moda em notícia
  Crónica
  Directório de Lojas
  Beleza
  Tendências
  Shopping
  Noticias
  Mulher & Carreira
  Sociedade
  Intimidade
  Celebridades
  Saúde
  Corpo e Alma
  Saúde em notícia
  Canal Nutrição
  Família
  Estrela do Mês
  Dossiers
  Fala-se de...
 As nossas escolhas
  Lazer
  Livros
  Cinema
  Música
  Palcos & Artes
  Vídeo/DVD
  Espaços Abertos
  Decoração
  Directório de Lojas
  Casas e Interiores
  Especiais
  Horóscopo
  Correio
  Fórum
  Actualidade
  Beleza
  Moda
  Contactos
  Notícias por RSS
  Jogue on-line
  Acção
  Desporto
  Plataformas
  Puzzle
  Shoot´Em Up
  Máxima PDA



Pesquisar

 
Subscrever Máxima

EM DESTAQUE

Nas páginas do seu livro A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, filósofo e cineasta (1931-1994), denunciou, em 1967, as consequências devastadoras da omnipresença dos media (jornais, televisão e rádio) nas sociedades actuais, explicando que os indivíduos, tornando-se espectadores e consumidores passivos de imagens, acabam inevitavelmente por confundir e falsear o real.

Esta preocupação veiculada por Debord tem em Portugal vários exemplos tipicamente aterradores. O primeiro deles é o sucesso imparável dos reality shows, consubstanciado no pacote agora apresentado pelas televisões, dos quais destacamos Eu Confesso, Bombástico, Vidas Reais, Academia das Estrelas e Operação Triunfo. O outro exemplo materializa-se no êxito sempre renovado do Big Brother, nos seus múltiplos formatos, dos quais o mais recente, o BB Famosos, é a referência máxima do estado vulgar a que chegou a fama em Portugal.

Também Andy Warhol, artista plástico, sentenciou que, no futuro, todas as pessoas teriam os seus 15 minutos de fama como resultado da vivência num mundo onde a tendência é criar não apenas a necessidade de sermos famosos, mas sobretudo a necessidade de tornar a fama um espaço de experiência, e não o reconhecimento social de uma obra.

Hoje, a fama é a própria obra e não a consequência de qualquer feito artístico, político, intelectual ou científico.

Todos nos lembramos dos tempos em que a RTP transmitia a série Fame. Estávamos então na década de 80 e o que víamos nestes magníficos episódios era a apologia do trabalho, do esforço, do sacrifício. Aliás, o genérico de Fame começava com estas palavras simples: "Se queres ser famoso, tens muito que suar." Que estranho... pensarão os nossos jovens. Para ter fama, é preciso suar?

Nas sociedades modernas, a fama sem obra chama-se reality show, segundo Márcio Sousa Gonçalves e Ronaldo Hetal, professores na Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado de São Paulo, num texto publicado na revista Ciência Hoje, uma edição da responsabilidade da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

"O que é que acontece quando a fama não está vinculada a obra nenhuma?", perguntam estes especialistas. "Acontece o reality show, onde fama e obra não se encontram, pois uma antecipa a outra, sendo que a segunda (a obra) é uma simples virtualidade: o que importa é a fama." Portanto, no reality show, a única realidade que importa é o espectáculo desprovido de qualquer mensagem. Assim, escrevem ainda aqueles investigadores, "existem dois discursos que se entrelaçam no reality show. A promessa de transformar anónimos em famosos num passe de mágica e a possibilidade viciante de olhar à vontade para a intimidade alheia".

O que aconteceu, de facto, é que as televisões democratizaram a fama. E a imprensa em geral imitou este paradigma.

Nos dias que correm, fama não significa notoriedade. Para Teresa Costa Neves, especialista em comunicação e marketing, doutorada pela Universidade de Yale em Teoria da Comunicação, "Lili Caneças é assim o exemplo típico desta nova desregulamentação ética". O país real - as classes economicamente mais baixas, os cidadãos analfabetos, os iletrados, os que vivem do consumo das revistas cor-de-rosa - pensa que Lili é actriz ou pivot televisivo. "Sabe o que isto significa? Justamente a necessidade que as pessoas têm de encontrar reconhecimento para a sua fama, que é tanto mais difícil no seu caso quanto sabemos que esta senhora nada faz senão ir a festas."

Estes fenómenos são paradoxais do ponto de vista da análise sociológica, segundo Teresa Costa Neves. "Em geral, o país real não se importa de colar a ideia que tem de si próprio à representação social de Lili Caneças, por exemplo. A classe média, isto é, o grupo das pessoas que dispõe de habilitações académicas de nível superior ou ocupa os lugares cimeiros das estruturas sociais e económicas, recusa liminarmente esta colagem, transferindo a recusa para o facto de a Lili Caneças representar a construção imaginária da fama sem obra."

A busca do individualismo
1
Há quem veja no protagonismo de pessoas comuns, que no pequeno ecrã identificamos pelo nome próprio - vide o Zé Maria do Big Brother -, como uma reacção à massificação da sociedade em que vivemos.
2
As pessoas estão fartas de ser um número, de trabalhar em grandes empresas onde o próprio patrão não sabe quem elas são, de ouvir falar de cultura de massas e de globalização - mesmo que isso, por vezes, lhes tenha proporcionado uma vida melhor - e refugiam-se no individualismo.
3
Estas novas personalidades não são distantes nem milionárias - podia ser qualquer um de nós, com uma vida comum que, ao ser divulgada, acaba por adquirir consistência, importância. É um hino ao indivíduo.

Carlos Castro, jornalista, especialista no universo social da fama, tem uma outra leitura destes fenómenos. Primeiro, afirma, a "Lili é das figuras mais fulgurantes porque tem um estilo próprio. Possui raça, uma imagem bonita, sabe falar, tem conhecimento de tudo e é uma simpatia para toda a gente. Não há festa que se faça sem que o seu nome não apareça no topo da lista. Tornou-se um verdadeiro ícone do social. A Lili é um caso único, uma vez que na altura - há 30 anos - ela estava em todo o lado, era casada com um homem rico e dava-se ao luxo de viajar por todo o mundo".

A que conteúdos sociais está ligada a palavra fama? Em primeiro lugar, à popularidade. Que, por sua vez, diz-nos Teresa Costa Neves, está associada a um conceito de quantidade e não de qualidade.

A qualidade supõe valorizações humanas, culturais e civilizacionais contrárias à ausência de obra. Neste sentido, aliás, a palavra empregue para tornar a obra visível chama-se notoriedade, a qual, por sua vez, está intrinsecamente associada a um sentido de transcendência.

A fama, nos dias que correm, está colada à ideia de produtos mediatizados pela televisão, único meio de comunicação absolutamente massificado e por isso popularizado. E, como nos conta aquela especialista, a fama foi assim absorvida pela ideia de vazio dos seus protagonistas, quase sempre vítimas da sociedade de consumo, expressão económica da sociedade do espectáculo.

À medida que vamos analisando o fenómeno da fama sem talento, avançamos na compreensão de duas questões essenciais. A primeira prende-se com as características dos meios que veiculam esta realidade social. E a segunda analisa o tipo de pessoas que estão dispostas a pertencer ao clube dos famosos. Sem esquecer a perversão do próprio conteúdo da palavra fama.

Comecemos pelos meios, dos quais destacamos a televisão, espaço por excelência de divulgação dos famosos. E a este propósito, importa atentar nas palavras dos dois professores universitários, Márcio Gonçalves e Ronaldo Hetal, quando se referem a este poderoso meio de divulgação: "Toda uma nova safra de programas de televisão (os chamados reality shows) vendem o sonho dos quinze minutos de fama, não da fama pensada por Andy Warhol (baseada numa obra), mas sim uma fama construída a partir de um pequeno feito, que por sua vez proporciona uma fama circunstancial e momentânea. Nestas circunstân-cias, a televisão é o espaço que cria uma realidade onde ninguém é autor mas todos os intervenientes são personagens, geralmente anónimos, que se representam a si próprios e que não precisam de outra coisa senão de estar ali."

Fama, para que te quero?
Em geral, quem tem obra feita trabalha muito - a "inspiração", dizem, é fruto de muitas horas de esforço, da experimentação, do fazer e refazer -, pauta-se pela humildade, preocupa-se pouco com a fama e só o reconhecimento dos seus pares o/a satisfaz.
Numa época em que "construir uma imagem" se transformou numa ocupação a tempo inteiro, a competência e a qualidade que resultam em carreiras profissionais brilhantes mas resguardadas das bocas do mundo voltam agora a ser apreciadas. A maturidade está a ficar na moda. Não se nasce ensinado.
O contraste entre a riqueza de quem sabe e o vazio de quem pouco faz mas muito aparece nunca foi tão evidente como hoje. É uma das escassas vantagens desta nova celebridade, dita democrática, que invadiu o nosso quotidiano. Qualquer criança distingue a fama assente em obra feita da fama sem conteúdo.

Nestes programas, do que se fala é do sonho de um grupo de pessoas reunidas para obter um prémio, o que pressupõe uma sucessiva eliminação dos concorrentes. Visa promover um espectáculo em que se proíbe a empatia, a cooperação e a solidariedade. Enfim, a televisão vincula o individualismo como prémio (ver caixa) que não pode ser partilhado pelo grupo, como aliás acontece no desporto em geral e nas actividades nobres em particular. Assim, ainda segundo aqueles dois investigadores, os reality shows "apresentam-se como uma metáfora contemporânea dos espectáculos do Coliseu romano".

Nos reality shows não há história nem encenação, como no teatro e no cinema. Também não há habilidades particulares ou colectivas, como na competição desportiva. Só há o vazio de um quotidiano artificial, transformado em espectáculo para o gozo da nossa curiosidade perversa, que se satisfaz com o infortúnio alheio.

Neste tipo de programa, as pessoas tornam-se famosas porque são alvos provisórios de identificação dos espectadores. Acabada a identificação, essas mesmas pessoas deixam de ser reconhecidas porque não têm obra que sustente a sua visibilidade - ela chega ao fim quando a imagem dos personagens caduca.

Em Portugal, o exemplo que melhor ilustra o efémero da fama são os sucessivos participantes no Big Brother. Ninguém conhece estes concorrentes ou os de qualquer outro programa deste género pelo que são ou pelo que fizeram, mas apenas enquanto personagens, figurantes da televisão. O poder que os legitimou foi a ilusão de que basta apenas uma imagem no pequeno ecrã para que o conhecimento se transforme em reconhecimento. Do que se esqueceram, no entanto, foi que a única coisa que gera reconhecimento é a obra, porque só esta nos transporta para a transcendência e espelha a imortalidade.

"Quem é que quer ser famoso, hoje em dia? Ou melhor, quem é que quer aparecer nas revistas ditas cor-de-rosa ou participar nos reality shows?", pergunta Teresa Costa Neves. Entramos assim na segunda questão acima enunciada.

Há mais de cinco anos que esta investigadora estuda, metódica e sistematicamente, o enquadramento social e económico da fama no mundo moderno. Por isso, assegura--nos que "hoje em dia, só dois grupos de pessoas querem aderir a esta lógica mediática". Um dos grupos é composto por pessoas que a todo o custo querem fama, independentemente da sua legitimidade social. Estas pessoas tratam-se a si próprias como produtos e não se importam de fazer parte dos circuitos de venda típicos das sociedades de consumo. O outro grupo de pessoas, a massa anónima daqueles que, por exemplo, participam no Big Brother, acha que a fama pode ajudá-los a encontrar um lugar ao sol. Geralmente, estes não gostam de ser tratados como mercadoria, revoltam-se e tornam-se responsáveis por críticas ferozes à sociedade do espectáculo. "Exemplos desta lógica foram quase todos os participantes do Big Brother, à excepção do BB Famosos, pessoas que obviamente já transportavam esta ideia mercantilista."

O que se passa hoje em dia, afirma ainda esta investigadora, é que as pessoas que fazem obra e querem visibilidade recusam-se cada vez mais a aparecer ao lado daqueles que não legitimam, económica e socialmente, a sua fama.

Fama e proveito
"Era bom... É só fama! Infelizmente, não tenho o proveito..." Esta é uma frase muito ouvida entre nós. Porque quando alguém tem sucesso, logo se exagera e se lhe atribui proveitos escondidos, que frequentemente não existem - uma sucessão de conquistas amorosas ou uma acumulação de riquezas, por exemplo.
Por outro lado, os que têm fama escondem por vezes os seus proveitos, com medo da inveja do vizinho do lado. "Quem ultrapassa a mediania, tem logo os medíocres a dar-lhe na cabeça...", comenta alguém que já passou por isso. Há ainda outros que não querem dar nas vistas para não "alertar o fisco"...
E agora, há uma terceira via: a dos que gostam de ter a fama sem o respectivo proveito e que até fingem tê-lo, a fim de ser aceites em determinados meios. Esquecem-se, porém, de que a verdade é como o azeite - vem sempre ao de cima, sobretudo num país tão pequeno como Portugal, onde todos são primos e primas.

"Os que detêm poder social, ora consubstanciado no poder económico ora legitimado no património histórico e cultural, detestam ser fotografados e jamais abdicam da sua privacidade. Não querem holofotes e têm horror à miscigenação social." Apesar de, em muitos casos, a visibilidade contribuir para o desenvolvimento dos seus projectos, recusam liminarmente a fama. Segundo Teresa Costa Neves, estas pessoas não reconhecem aos media (à imprensa dita social) a capacidade de os dignificar, a si ou ao seu trabalho. Por outro lado, não se querem submeter às regras da esfera pública. Trata--se de uma questão ética, esclarece a investigadora, já que os reality shows inventaram uma nova privacidade que se situa a meio caminho entre o público e o privado, entre o íntimo e o aberto a todos, produzido e criado exactamente para ser exibido.

Sobre este assunto, concentremos a nossa atenção nas palavras de Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão. "Bombástico, Eu Confesso, Escândalos e Boatos, Vidas Reais, Big Brother, Academia de Estrelas, Operação Triunfo: estes e muitos outros programas enquadram-se num enorme género televisivo em permanente mutação, chamado nos estudos universitários e no jornalismo anglo-saxónicos 'reality TV' ou 'reality television'." A realidade nestes programas é fugidia e as "análises académicas a este respeito balançam entre a aproximação pós-modernista, que destaca a construção de uma realidade no ecrã, e a convicção modernista de que ainda há uma realidade 'lá fora'", isto é, "uma realidade que está fora da representação, ou pelo menos não lhe está totalmente submetida".

Mas como é que estes programas são possíveis? O crítico responde: "Estes programas só são possíveis porque as pessoas - nós - mudámos social e psicologicamente. Hoje, a maioria das pessoas dispõe-se a expor a vida privada, mesmo íntima, no espaço público, seguindo os exemplos dos seus políticos, artistas, escritores e das suas elites em geral, pois foram elas e não as massas que iniciaram este processo de publicitação da vida privada." Quem poderia imaginar, há 50, 30 ou mesmo 10 anos, que os parentes de assassinados se juntassem num palco de entretenimento com os assassinos, tal como acontece no programa da TVI, Eu Confesso?

Os meios de comunicação desempenham um papel decisivo na propagação de um modo de viver e de pensar, na formação da nossa visão do mundo e da nossa sensibilidade. Podemos então levantar a hipótese de, nos reality shows, estar em acção algo como um controlo sobre o próprio público. Mas de que forma de controlo se trata? Segundo nos explicam os professores Márcio Gonçalves e Ronaldo Hegal, no campo das teorias da comunicação há uma interpretação especialmente interessante para esta discussão: a teoria do estabelecimento da agenda, que destaca o poder da imprensa em estabelecer os tópicos que serão considerados relevantes para as audiências.

Mais do que estabelecer "o que" pensar, a teoria indica que o poder está em estabelecer "sobre o que" pensar, tal como aliás já tinham escrito dois outros teóricos da comunicação, os norte-americanos Sandra Ball-Rokeach (Universidade do Sul da Califórnia) e Melvin De Fleur (Universidade de Boston): "Essencialmente, o que constatamos é que existe um alto grau de correspondência entre a dose de atenção dada a determinada questão pela imprensa e o nível de importância a ela atribuído por pessoas da comunidade que estiveram expostas aos media. Isto não quer dizer que a imprensa foi bem sucedida na tentativa de levar as audiências a adoptar um determinado ponto de vista, mas sim em fazer as pessoas encarar alguns problemas como mais relevantes que outros. É assim que a agenda da imprensa se torna a agenda do público."

Do ponto de vista do exercício do poder, a capacidade de estabelecer agenda é muito interessante porque a valorização de determinados tópicos implica o silenciamento de outros, o que por sua vez determina ausência de pensamento.

Quem constrói o seu edifício mental e cultural apenas através dos meios de Comunicação Social estará habilitado a ter da vida e do mundo uma leitura relacional? A resposta é não, dizem--nos os especialistas, nomeadamente Teresa Costa Neves. "Os media têm uma linguagem própria e, por definição, analisam sectariamente os problemas. Por isso, para que possamos ler o mundo de uma maneira mais abrangente, é preciso tempo para conhecer e relacionar."

Ora a fama e o papel de afirmação social que esta desempe-nha no mundo moderno são o paradigma da cultura superficial em que vivem os homens, nossos contemporâneos. Urge, pois, repensar a fama. Não apenas por questões éticas, mas como contributo para todos aqueles que põem os seus talentos ao serviço da humanidade, ajudando a fazer História e a construir património cultural e civilizacional.

Fama e obra

Por Ana Paula Lemos
Ilustrações de José Moreira



Assine já a Máxima e ganhe uma fabulosa oferta
Outras edições





ADSL.XL | Anunciar nos sites Investec | Assinar Publicações | Classificados CM | Contactos | Empresas.XL | XL

Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução
na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media.
Consulte as condições legais de utilização.