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CORPO & ALMA

Dermatite atópica
por
Maria do Rosário Lopes
ilustração de Elsa Escaja

Uma em cada 10 crianças sofre desta doença hereditária. Pode manifestar-se logo após o nascimento. Os primeiros sinais de alarme são manchas vermelhas na pele e comichão intensa.


Ana tem três anos de idade e desde os 15 dias de vida sofre de dermatite atópica. Manchas vermelhas na face e no pescoço, que se estenderam ao couro cabeludo, formando crostas e escamação, deram o sinal de alarme. Nas fases mais agudas, chega a criar bolhas de pus.

Mas esta doença não é infecciosa. Pode definir-se como um processo inflamatório cutâneo, muito pruriginoso, que geralmente afecta indivíduos com história pessoal ou familiar de asma, rinite alérgica ou dermatite atópica.

As repetidas erupções e lesões na pele provocam uma forte comichão que tem consequências negativas na qualidade de vida dos doentes: insónias, esgotamento e dificuldades de concentração. Doença muito comum, universal, é mais frequente em áreas urbanas. Estudos recentes mostram que a incidência da dermatite atópica tem aumentado nas últimas décadas, afectando actualmente 10 a 15 por cento da população em geral, em alguma época da vida.

A pele é o espelho da alma

A dermatite atópica é uma doença com uma forte vertente psicossomática.

Existem vários estudos psicanalíticos sobre a relação mãe/filho que salientam a importância do afecto e do carinho maternal na diminuição dos sintomas do eczema atópico. "Deparamos frequentemente com situações em que as mães se mostraram pouco disponíveis para aqueles filhos", diz Vera Monteiro Torres, dermatologista. "Podem ser mães operacionais, que dão o xarope a horas e fazem a cama de lavado à sexta-feira, mas não tocam e não acariciam os filhos. Ou seja, não fazem um maternage afectuoso e reconfortante, afirmador da identidade. É a teoria do 'Buraco do Ego', segundo a qual a criança cresceu com um lapso afectivo." A comichão surge assim, explica esta especialista, como um mecanismo compensador e relaxante, associado a uma sensação de prazer, que permite o escape de tensões acumuladas. "Quando a criança se toca e se coça, reencontra o seu corpo e a sua pele, confirmando dessa forma a sua identidade própria, que a mãe não conseguiu transmitir."

Estas crianças têm, segundo esta dermatologista, grandes alterações do comportamento, são muito impacientes e superactivas. "Em muitos casos, sentem-se pouco estimadas ou amadas.

Cresceram com uma baixa auto-estima. São crianças cujas mães investiram pouco em si próprias e na relação maternal." Citando Paul Valerie, Vera Monteiro Torres afirma que "não há nada de mais profundo do que a pele".

Nas fases mais agudas da doença, estas crianças coçam-se dia e noite, não dormem, o que interfere com o desenvolvimento harmonioso da personalidade. A génese desta doença encontra-se, em bastantes casos, numa fase pré-verbal, em que não existe ainda a palavra que permite a queixa através do discurso.

"Em alguns doentes, é necessário fazer uma intervenção familiar, com psicoterapia. Por vezes, temos de obrigar as mães a dar mais atenção ao banho diário da criança, acalmando-a com palavras e carícias e massajando suavemente o corpo com hidratantes. Há uma descarga de emoções, sentimentos e angústias através da pele e não através da palavra."
Com um início precoce, a dermatite atópica aparece geralmente no primeiro ano de vida. Na maioria dos casos o pro-gnóstico é favorável, sendo que aproximadamente 90 por cento das crianças apresentam diminuição ou desaparecimento completo das lesões antes da puberdade. A susceptibilidade à recorrência está, no entanto, sempre presente.

Esta doença apresenta - para além da comichão - diversas manifestações clínicas que variam segundo as diversas fa-ses. Durante os primeiros anos de vida de uma criança podem distinguir-se três fases clínicas. A primeira, a fase do la-ctante, tem início no primeiro mês de vida e estende-se até aos dois anos de idade. As lesões predominantes são do tipo eczematoso, com localização na face, no queixo e no couro cabeludo. O termo "crosta do lactante" é utilizado para lesões com escamas do couro cabeludo. Paralelamente, as lesões têm uma forte componente de transpiração. A segunda fase, a infantil, inicia-se por volta dos dois anos e prolonga-se até aos oito. Nesta fase, as lesões são mais frequentes nas dobras dos membros, na nuca, nas costas das mãos e nos pés. Curam-se mais facilmente ou tendem a tornar-se menos intensas. A terceira fase, a do adolescente e do adulto, tem o seu início a partir dos 10/12 anos, embora em muitas ocasiões seja uma continuação do eczema de criança. Manifesta-se em placas liquenificadas e engrossadas, que se localizam em zonas como a cara, o pescoço, as dobras dos membros, os pulsos e as costas das mãos.


A origem da doença tem uma base imunológica, um desequilíbrio nas células que mantêm as defesas do organismo, o que leva a que a pessoa reaja exageradamente a estímulos ambientais (substâncias que produzam alergia ou que irritem - gérmens, ácaros, pó) e emocionais.

O tipo de glóbulo branco que se encontra sobreactivado são os linfócitos T tipo 2, que constituem o centro de toda uma complexa rede de interacções com outras células inflamatórias. Como consequência da estimulação destes linfócitos, é produzida uma grande quantidade de mediadores que provocam a inflamação da pele, levando igualmente a uma ace-leração no crescimento e divisão das células da superfície da pele. A dermatite atópica não tem cura definitiva, mas a intensidade da comi-chão e da inflamação e o aspecto das lesões podem ser diminuídos. Para isso, terão de se alterar os costumes, o ambiente em que se vive e utilizar-se os tratamentos adequados para comba-ter este tipo de lesão.

Os doentes com dermatite atópica necessitam de cuidados especiais, a começar pela higiene diária. A pele seca é um dos factores que mais contribuem para o agravamento da doença.

O banho deve ser rápido e com água morna, evitando o uso excessivo de sabonetes. Logo após o banho e antes que se eva-pore a água que está na pele, deve aplicar--se um creme neutro.

Há que ter também atenção ao conta-cto com substâncias irritantes e alérgicas. As alergias aos ácaros, fungos, pêlos de animais e aos alimentos são difíceis de comprovar, mesmo com o uso de testes alérgicos. Mas podem ser tomadas algumas medidas que ajudem a evitá-las. Não é aconselhado o uso de roupas de lã ou de fibras sintéticas. Devem usar-se, basicamente, roupas de algodão, leves e confortáveis. Atenção também às poeiras, ácaros e ao fumo do cigarro. O quarto e outros ambientes onde se passa a maior parte do tempo devem ser bem arejados, desprovidos de móveis, cortinas, carpetes e bonecos de peluche.

As alterações climáticas, como o frio extremo, as temperaturas altas ou as mudanças bruscas de temperatura pioram a dermatite atópica. Quando estiver com lesões activas, deve praticar exercícios leves, pois o aumento da transpiração, causada pelo calor ou por exercícios físicos, pode intensificar a comichão.

As infecções da pele ou outro tipo de infecções podem desencadear uma crise mais aguda. O aumento brusco da vermelhidão e o aparecimento de pequenas bolhas de pus ou vesículas são sinais de alarme. Repouso e tratamento adequado podem evitar o agravamento da doença.

Por último, deve ser dada cada vez mais atenção às questões psicológicas e de stress. Problemas emocionais ou profissionais tendem a agravar os sintomas da doença. Alguns métodos que ajudam a reduzir o stress podem ser adoptados pelo próprio paciente, sem necessitar de orientação profissional: atribuir prioridades e organizar o tempo, praticar exercícios físicos relaxantes, ouvir música, ler e até meditar, por exemplo.

Outros métodos podem requerer assistência profissional, como a psico-terapia ou a participação em grupos de apoio.

Novo medicamento sem asteróides

Existem vários medicamentos que ajudam a controlar esta doença. Os mais usados são as pomadas ou cremes de cortisona (corticóides tópicos) e os anti-histamínicos (antialérgicos orais, que controlam a comichão e diminuem as erupções na pele). As pomadas ou cremes de cortisona são extremamente eficazes, mas causam alguns efeitos indesejáveis, nomeadamente adelgaçamento da pele.

Nas dermatites atópicas graves e de difícil tratamento com drogas convencionais, o uso de ciclosporina (imunossupressor) tem-se mostrado benéfico, muito embora existam efeitos colaterais - náuseas, aumento dos pêlos no corpo, hipertensão e toxicidade hepática (fígado) e renal (rins).

Recentemente, foi lançada no mercado uma nova geração de medicamentos, os imunomoduladores tópicos, moléculas que vão actuar de maneira específica sobre o desequilíbrio imunológico existente na pele do atópico. O primeiro medicamento desta geração é o tacrolimus tópico, que tem a grande vantagem de não conter esteróides.

"O tacrolimus tópico é altamente eficaz e rápido, notando-se o seu efeito logo nos primeiros dias depois de iniciado o tratamento", salienta A. Pinto Soares, director do Serviço de Dermatologia do Hospital do Desterro. "Enquanto o uso prolongado de corticóides provoca a denominada atrofia cutânea, isto é, a diminuição da produção de colagénio na pele, a qual se torna mais fina, e uma habituação da pele à corticóide, tornando-se ineficaz pela utilização contínua, o tacrolimus tópico não tem esses efeitos, pelo que se torna mais seguro a longo prazo", acrescenta aquele especialista.

De acordo com estudos realizados em mais de 13 mil doentes (adultos e crianças) na Europa, nos Estados Unidos da América e no Japão, o tacrolimus tópico actua selectivamente sobre o desequilíbrio imunológico que ataca a pele e que é responsável pelas manifestações da dermatite atópica. Este medicamento exerce um efeito imunomodulador e também um efeito anti-inflamatório (reduzindo a inflamação e o prurido da pele). Quando um factor irritante entra em contacto com a pele, as células imunológicas reagem em excesso, enviando mensagens químicas que, por sua vez, causam o surgimento do eczema. O tacrolimus (pomada) penetra nas células do sistema imunitário, bloqueando-as, para que não gerem mensagens químicas.

Um estudo realizado durante um ano, no Departamento de Dermatologia do Royal Free Hospital de Londres, mostrou que o tratamento com tacrolimus tópico preveniu as lesões em perto de 90 por cento dos doentes durante o período de aplicação.




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