|

 |
 |
 |
A shopping-dependente está em vias de desaparecer para dar lugar à consumidora que raciocina, troca impressões, que se informa e se envolve. Ser, mais do que ter... Bem-vinda a um mundo melhor.
Por Valérie De Saint-pierre
|
|

Regresso ao “home-made”
O comedimento obriga, o “feito à mão” é de novo apreciado, nomeadamente em cozinha. As vendas de comida feita diminuem e as de tábuas e facas de picar, robots domésticos ou de panelões de todas as espécies aumentam espectacularmente. A oferta de cursos de cozinha e de workshops de chefs não cessa de se desenvolver, bem como a de livros que convidam a receber. Quanto à roupa, a customization, preferida dos anos 1990, está também de volta: é de bom- -tom remodelar um fato usado, coser emblemas, pôr tachas no blusão ou fazer jóias cheias de amuletos; o lazer criativo floresce. Aliás, tal como o tricot: os kits da moda Wool and the Gang, secretos há dois anos, são hoje vendidos online. Na falta disso, encomendar um gorro ou uma écharpe às avós, profissionais da agulha de goldenhook.com, o site de que se fala, está também muito em voga. A ‘cosmética feita em casa’ é talvez a próxima etapa desta atitude...
Os alimentos seguros
Depois do entusiasmo pelos produtos biológicos, a fasquia sobe um pouco: as alergias são o novo terreno de jogo dos industriais da agro-alimentar que perceberam muito bem que a “intolerância” a qualquer coisa (glúten ou lactose, para citar as obsessões preferidas do momento) parece estar latente em cada francês. Iogurtes de leite de ovelha ou de cabra, bolinhos e esparguetes de espelta, misturas de cereais estrambólicos mas acima de tudo poucochinho... Toda a espécie de produtos outrora reservados à macrobiótica ou aos verdadeiros doentes recheia com sucesso os corredores dos supermercados. A alimentação cresce a par de um sector de boa forma-beleza que valoriza nos rótulos a ausência de aditivos nocivos e privilegia ingredientes “naturais”, garantia de uma pele saudável.
O tique ético
O nosso coraçãozinho mole faz bum e o nosso cartão de crédito segue, atraídos pelo green-washing, esse ramo verde do marketing que tão bem sabe acarinhar a nossa fibra ecológica. Mas também se pressente cada vez com mais frequência a manipulação. Colheita de café feita por pequenos e honestos produtores ou sacos ecológicos que cheiram tão bem a bambu? Está bem! Quando é por uma boa causa, não se olha a despesas! Quarenta por cento dos franceses estão dispostos a pagar até 10 por cento mais caro um produto ético, segundo um inquérito da agência de marketing Added Value, do final de 2007. Em contrapartida, todos os anúncios que tentam fazer-nos acreditar que os veículos todo- -o-terreno são o melhor meio para descobrir a natureza selvagem são cada vez menos convincentes...
DOMINIQUE LÉVY, Directora de planeamento estratégico na TNS Sofres.
A crise modificou profundamente os comportamentos?
Instalou-se uma verdadeira desconfiança em relação ao consumo. A felicidade já não passa necessariamente por fazer compras. Mas esta distanciação não começou com a crise, que aqui desempenhou sobretudo um papel catalisador. Muitos sentimentos negativos difusos estavam já no ar. Excedentes, alienação... Receando a crise por uma questão de sobrevivência económica, as pessoas encontraram nela uma razão para formularem o que sentiam de uma forma confusa.
Em que é que isso se traduz?
O mercado do supérfluo sofre bastante. No domínio do vestuário parece também estar a verificar-se uma certa desintoxicação do “descartável”.
E as marcas? É também uma questão de desconfiança?
Há em relação às marcas e à publicidade uma distância que continua a aumentar. É acentuada pelo facto de a última ter conservado durante esta crise um discurso essencialmente centrado nos preços. Os consumidores esperavam mais sentido, um novo contrato que tivesse consideração pela sua vontade de generosidade e solidariedade! As marcas que compreenderam isso e se distinguem na criação de um elo entre os indivíduos, como por exemplo a Apple, saem-se bastante bem.
|
|
|
Cultura feita por medida
Pôr-se em frente do televisor para ver a sua série preferida? Ir comprar religiosamente o último CD do seu grupo de culto? Tantos hábitos que muito em breve serão do domínio da proto-história. Os jovens deixarão de ver televisão para fazerem os seus próprios programas na Net. Postos de lado os passeios rituais entre amigos até à Fnac. Cada um fabrica a sua play-list musical carregando mais ou menos legalmente, e descobrem na Web talentos de que os media não fizeram ainda promoção oficial. Mesmo os mais irredutíveis – os velhos, pois! – acham simpático criar o seu jornal ou a sua revista ideal surfando pelos sites de informação gratuita. Esperar pacientemente e pagar? Palavras que tendem a desaparecer do léxico em 2010.
Os NTIC [Novas Tecnologias de Informação e Comunicação], objectos de primeira necessidade
iPhone, minicâmaras digitais ou Kindle (o livro electrónico) apinharam-se sob as árvores de Natal e a crise não teve aí qualquer efeito. Milhares de lares estão ligados à Internet de banda larga. Porquê tanto frenesim nestes tempos de culpabilidade car bono? Por detrás deste fetichismo, simbolicamente existe bem mais do que a simples compra de um brinquedo tecno-multimédia, algo mais do que uma marca de estatuto social, já ultrapassado. Todos os objectos ligados às novas tecnologias são os que é preciso ter hoje em dia, com toda a legi timidade. Com a convicção de que passou a ser vital estar ligado à rede, aceder dia e noite à informação, partilhar em tempo real as imagens com os amigos. Como o automóvel noutros tempos – e o seu mito de liberdade –, os objectos ligados às novas tecnologias são o atributo indispensável do homo modernicus. E como cada ano traz a sua dose de inovações, o movimento está longe de se deter...
O gosto em partilhar
Possuir temporariamente, ou a repartir por várias pessoas, um bem de consumo já não é problema, nomeadamente entre os 25 e os 35 anos. Quer se trate de uma mala luxuosa, de um automóvel (repartimos as despesas e o uso), de um apartamento de férias (trocam- -se entre habitantes de cidades “em rede” – cidades que têm à sua disposição um modelo integrado de tecnologias de informação), ou mesmo do último romance na moda (fazem- -se rodar as novidades entre amigos)... Mesmo que seja ditada por preocupações económicas, a partilha de habitação, que se impõe nos jovens assalariados, ou se desenvolva para as famílias monoparentais, tem origem na mesma veia comunitária e convivial. Vindo da Alemanha e da Suíça, o conceito de “autopromoção”, que consiste em formar uma “coopé” [um agregado] de amigos para escapar ao circuito dos promotores imobiliários, está também a implantar-se.
Os consumidores responsáveis
A idade de ouro do hiperconsumismo crédulo está sem dúvida a chegar ao fim, e a maior parte dos profissionais da publicidade ou da distribuição repara nisso. Procurar um produto branco (marca de distribuidor, geralmente 25 por cento mais barato, de qualidade equivalente) ou ir comprar tudo às lojas de baixo preço do bairro em vez de ao resplandecente hipermercado cheio de tentações passou a ser um costume, mesmo para quem não tem problemas financeiros. Na mesma lógica, tornou-se sistemático fazer pesquisa na Internet antes de comprar uma iogurteira, ou um fim-de- -semana em Veneza. Sites comparativos, blogues, fóruns, rubricas de informação ao consumidor, onde se pode discutir interminavelmente entre utilizadores avisados e pressupostos objectivos… Já não há razão para se falhar sem solicitar conselho da comunidade. Muito bem! Só que as marcas que detectaram bem o fenómeno são por vezes quem paga aos bloggers.
A reciclagem em todas as fases
Nunca tanto se trocou e comprou fatos de ocasião no eBay, nos vide-dressings das bloggers de moda ou nas vendas de garagem de bairro. As roupas em segunda mão regressam em força sobretudo junto dos mais jovens, que não andam lá à procura necessariamente do vintage chique mas de roupa para todos os dias. O slow design que recupera de bom grado os materiais destinados à estação de tratamento de resíduos (cesto feito com fios eléctricos entrançados ou papel de jornal, móveis de madeira recolhidos em baldios industriais, candeeiros em garrafas de plástico...) sai pouco a pouco do estado experimental para seduzir os interiores urbanos. Publicidade integrada inova reinterpretando o design a partir de pranchas de skate arruinadas. E as pequenas oficinas de habilidosos geniais, capazes de reparar uma torradeira ou mesmo de ressuscitar uma impressora, começam a reaparecer... |

|

|
|
 |