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SOCIEDADE

A oradora e perita americana em Ciência Política Susie Johnson dedica-se a dar voz às mulheres
que ainda não a têm. E dá pistas para que
elas exerçam os seus direitos, com a participação
da sociedade civil.

Por Clara Soares



Nasceu e cresceu no Estado americano da Califórnia, formou-se em Ciência Política e especializou-se na criação de políticas a favor dos direitos de uma imensa minoria: as mulheres vítimas de violência doméstica. Na secção para as mulheres do Washington Office of Public Policy, Susie coordena a estratégia de comunicação e os programas de políticas públicas a favor da autonomia profissional e pessoal das mulheres, a nível mundial. Antes disso, dirigiu a mais antiga organização americana de promoção de direitos humanos em África, foi responsável por programas de segurança económica das mulheres e colocou as preocupações femininas na agenda de governantes, à escala global.

Empreendedora nata, afirma que a mudança começa na sociedade civil e cedo deu o exemplo. Começou num condado de Nova Iorque, com projectos comunitários e institucionais: firmaram-se acordos, mobilizaram- se recursos. E não mais parou.

Na sua passagem por Portugal, onde realizou palestras sobre violência doméstica, não se cansou de destacar a importância de restituir às mulheres o poder que lhes é, ainda, negado, não apenas no seio familiar mas em todas as áreas da vida.

marca, bem patente ao longo da entrevista à Máxima: recusou-se a responder a algumas perguntas, por entender “que não contribuem em nada para a causa”. Como que a mostrar que os direitos se exercem em todas as circunstâncias do quotidiano. Sem tréguas.

A sua faceta activista, militante, desenvolveu- se a partir de algum evento marcante na sua vida?
Começou quando eu ainda era criança porque os meus pais sempre valorizaram a questão da justiça e dos direitos civis. Eu e a minha irmã gémea crescemos conscientes de que havia mulheres sem a sua força e papel social reconhecidos.

Em que medida o facto de serem duas filhas - e não filhos - pesou na forma de sentir essas questões de justiça (ou de injustiça)?
O meu pai chamava-nos “os seus rapazes” porque é a eles que a sociedade atribui poder. Aprendi com ele que eu tinha poder e direitos. Que podia falar por mim independentemente do género. Porque só se pode ser livre quando se reconhece o poder em si.

Como foi para si desenvolver o espírito empreendedor das mulheres numa zona tão difícil como a do Bronx [Estado de Nova Iorque]?
Foi gratificante, mas desafiador. Boa parte das participantes no programa de microempresas eram mães sozinhas, que só tinham o cheque da segurança social, não tinham qualquer auto-suficiência económica. Aprender a criar – e manter – um pequeno negócio fez toda a diferença.

Que resultados conseguiram?
Muitas destas mulheres são hoje pequenas empresárias, em Harlem. O que aconteceu? Elas deixaram de estar isoladas e saíram do ciclo da dependência económica. Um passo leva ao outro: ganharam confiança e conseguiram exercer um papel nas suas comunidades, de forma autónoma. E isso trouxe- -lhes reconhecimento social.

Em Portugal, quase 10 por cento das mulheres vítimas de abuso pertencem a classes sociais favorecidas. Quer comentar?
Esse dado sugere que os restantes 90 por cento provêm de outros níveis sociais. E é nesses que se devem concentrar esforços, em primeiro lugar.

O IMPORTANTE A FRISAR É QUE
o abuso não é algo exercido
exclusivamente por psicopatas,
mas por homens comuns.
 
Como define a violência doméstica?
O termo não é preciso porque remete a questão para a esfera do lar. É como se houvesse um efeito de cápsula, que confina o problema a uma só arena. Recordo, a este respeito, as palavras de Eleonor Roosevelt [primeira-dama dos Estados Unidos entre 1933 e 1945], no décimo aniversário da Declaração dos Direitos Humanos: as mulheres têm de exercer os seus direitos em casa, e fora dela, no local de trabalho, na vizinhança.

Que termo seria mais adequado então, para mencionar esta realidade?
Já se começa a fazer referência ao conceito de violência entre parceiros, que dá um enquadramento mais alargado ao assunto, incluindo cônjuges, familiares, colegas de trabalho, pessoas da comunidade.

O que está na base deste fenómeno?
As estimativas referem que uma em cada três mulheres em todo o mundo experimentou violência em algum momento da sua vida. Na maioria das sociedades ocidentais crescemos com a ideia de que os privilégios masculinos – o poder, o controlo e a dominação – são a forma suprema de ordem. É preciso quebrar esse mito.

Quais são os factores de risco que alimentam as condutas violentas?
Onde exista desigualdade de género, aí se encontram as condições para que se expandam os comportamentos abusivos sobre o que está em posição mais fraca.

Há mulheres com maior propensão para serem vítimas ou homens que sejam abusadores?
Pode haver situações em que existe uma identificação com o abusador, no rapto, na violação ou no tráfico humano. Mas o importante a frisar é que o abuso não é algo exercido exclusivamente por psicopatas, mas por homens comuns.

No meio clínico, existe a ideia de que as mulheres que não se queixam acreditam secretamente que podem mudar o companheiro. É, de facto, assim?
Não vou responder a essa questão [mostrando irritação]. Só essa pergunta pressupõe que, nesses casos, a mulher tem um poder que, na realidade, não lhe está acessível.

O que pode fazer uma mulher que esteja numa situação de risco?
Se a sociedade fizer a sua parte, uma mulher em situação de vulnerabilidade saberá que merece sair dela, sem ter vergonha de ter passado por isso. Saberá também que pode fazer uma denúncia e como pôr a comunidade a trabalhar a seu favor. A atitude é condenável, e numa situação de abuso há o direito de dizer não. E formas de obter apoio médico, legal, policial e económico.

O que pode ser feito concretamente, ao nível da sociedade civil?
Ensinar as vítimas a reconhecerem o seu sentimento de si. Isto transforma-as em sobreviventes. Uma vez que elas atingem este ponto, ganham responsabilidade e consciência de que é importante passar o testemunho, intervirem na sociedade, ajudando a dar visibilidade ao flagelo.

Quando a vítima de violência é o homem, o que lhe recomenda que faça, para ser levado a sério?
Não vou responder a essa pergunta.

A sociedade e as instituições não levam a sério as queixas masculinas?
As percentagens são tão pequenas que não é relevante falar delas. É como numa tragédia natural: salvam-se primeiro as mulheres e as crianças.

O que pode fazer-se, a título individual, para prevenir estas situações?
Começar precocemente a ensinar os filhos que não é correcto exercer abuso de poder sobre terceiros. Ensinar os rapazes a terem orgulho de si, daquilo que os torna pessoas. E há que passar a mensagem de que a violência não é um problema apenas das mulheres, é um problema de educação e de valores.

O que existe nos EUA a este respeito, pedagogicamente falando?
Existem programas especificamente destinados a eles, que ensinam o que é ser homem. Se agridem verbalmente, ou de outra forma, as colegas, as vizinhas ou as namoradas, não estão a ser homens.

Qual é a mensagem de força com que finaliza as suas palestras?
Que sejam capazes de viver na interdependência, sem controlo e submissão. Digo às mulheres que aprendam a valorizar-se, e às suas filhas, que as eduquem como se fossem rapazes, no reivindicar os seus direitos. Os governos precisam de assumir responsabilidades no combate a este crime. Quem começa como vítima e acaba como sobrevivente pode ter um papel heróico e inspirar outros a fazerem o mesmo.

Pode dar um exemplo, na actualidade?
A protagonista do filme Precious [em exibição nas salas de cinema portuguesas]. O filme, que cumpre uma missão pedagógica, tem acumulado prémios e nomeações e conta a história de uma criança que foi abusada de todas as formas numa família disfuncional, em Harlem. A jovem Claireece Precious Jones personifica a sobrevivente, que dá uma nova direcção à sua vida a partir do momento em que reconhece o seu valor como pessoa. Esse valor não tem preço.













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