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INTIMIDADE

Inconscientemente, por vezes, sabe-se que algo mudou. A relação já não é o que era. mas é sobretudo na presença de um estímulo novo que acontece o verdadeiro despertar. elas passaram por isso.

Por Júlia Serrão
Fotografia: Greg Alexander/ Madame Figaro



Há quatro anos, Madalena F, de 30 anos, casada há 10, voltou a ter notícias de um antigo namorado. Chegavam por correio electrónico e assim se mantiveram constantes ao longo de um ano antes de os dois se voltarem a encontrar, pois ele vivia noutro país. A conversa foi fluindo, reviveram o passado, trocaram confidências. “A determinado momento senti que o meu coração voltava a bater, sentia novamente a chama da paixão”, comenta. E explica: “O meu casamento tinha-se tornado monótono, já não havia diálogo. Entre outras coisas, o meu marido desleixara-se com a aparência física.”

Se é como a Bíblia diz – comete-se pecado em pensamentos –, Madalena pecou ao sonhar com Joaquim M, pois era casada e ele tinha mulher. Depois, sentiu-se dividida “entre a relação que tinha – embora imperfeita era segura – e outra com ele, cheia de incertezas. Sobretudo a determinada altura em que ele me confidenciou que já tinha tido uma relação fora do casamento”, conta. A questão (trocar o seguro pelo incerto) na prática nunca se colocou, pois Madalena assegura que ao ver Joaquim o encanto se quebrou. O tempo passara, e ele não correspondia à imagem que guardava ou imaginara que ele tinha. Desse affaire, ficou-lhe uma maior auto-estima resultante do facto de se saber alvo “do interesse de um homem”. E uma vontade enorme de apostar no seu casamento – talvez consequência de um certo sentimento de “remorso” – que agora também já passou. Não está bem na relação, tem a certeza, mas está “num impasse de vida”. Resume: Tenho uma filha pequena para criar... e estou sem trabalho.”

Terrível dilema Amor e traição.
Ingredientes do mais recente livro da galardoada autora norte-americana Lionel Shriver, A Noite do Teu Aniversário*.
Por Mariza Figueiredo

Lionel Shriver, a autora do livro.
Leia um trecho deste livro


O que a levou a escolher este tema, tão distinto do anterior (Temos de Falar sobre Kevin), que lhe valeu um Orange Prize?
Eu precisava de uma pausa. O livro anterior foi muito duro, sobre a ausência de amor – e este, agora, é sobre a sua abundância. Irina ama dois homens, mas a ironia é que esta opulência é angustiante. O leitor vê como a sua vida se desenvolve com cada um destes homens. Mas em cada universo paralelo, ela tem de escolher um, em detrimento do outro. Ao optar por Ramsey, ela magoa profundamente um homem que ainda admira e que sempre foi bom para ela. Se escolhe Lawrence, nega-se a si própria – e nunca descobre o que esta quase irresistível atracção teria proporcionado –, e em vez de trair é traída.

Há uma inspiração biográfica? Porquê esta opção?
Devo esclarecer que a trama, as cenas e as personagens são todas inventadas. Mas realmente vi-me confrontada com uma escolha de vida similar à de Irina: tendo de optar entre dois homens encantadores mas profundamente diferentes. Foi a decisão mais difícil que alguma vez tomei. Além disso, em conversa com amigas, descobri que esta era uma encruzilhada frequente. Então, imaginei que um livro que tratasse a sério esta situação difícil – e não a aligeirasse numa ‘comédia romântica’ – teria audiência. E realmente resultou.

Acha que a traição é inevitável numa relação?
Traição puramente sexual, não necessariamente. Mas há muitas maneiras subtis com as quais os amantes se traem mutuamente todos os dias. Pensamos coisas más, mesmo que as guardemos para nós próprios. Revelamos segredos dos nossos parceiros às amigas. Agimos como se prestássemos atenção ao que os nossos amados estão a dizer, mas na verdade estamos a pensar no que vamos fazer para o jantar. Neste sentido, a traição é inevitável. Ninguém é perfeito.

Tendo em vista as atitudes de Irina e Lawrence, acha que perante a ideia de traição homens e mulheres se comportam de maneira diferente?
Eu não faria uma generalização. Mas é correcto afirmar que quando Irina começa a encontrar-se com Ramsey, este período de engano é-lhe intolerável e ela tem urgência em deixar Lawrence. Este, por sua vez, é mais hábil a ‘compartimentar’ as coisas e pensa que pode manter mais do que uma mulher na sua vida sem ter de arcar com as consequências. Isso parece uma forma mais masculina de lidar com as coisas.

Sexo é fundamental numa relação?
Sou pró-sexo. Mas não ponho tanta ênfase no acto em si. Sou entusiasta da expressividade e do contacto físico de uma forma mais alargada, que não precisa necessariamente de terminar no acto sexual em si. Destaco, em particular, o beijo. No livro, o beijo é muito mais importante do que o próprio acto sexual. É mais emocional. É possível fazer sexo sem amor. Mas é muito difícil haver amor sem beijo.

Qual, na sua opinião, seria o caminho mais feliz para Irina?
Cabe ao leitor decidir. Este é um livro em que a audiência participa. Quero que as pessoas pensem por elas próprias.

*Bertrand Editora
De novo a paixão
O casamento durou nove anos, mas há muito que se havia esgotado. “Já quase não havia relação”, observa Carla M (nome fictício), de 35 anos. No campo da sexualidade, havia desencontros. Diz que esta “nunca fora muito satisfatória” e com o tempo piorou. No geral, ao crescer e evoluir, Carla mudou. Mudou muito, criando outras necessidades.

É na passagem do amor romântico ao amor companheiro que se corre o maior risco de ser infiel. Por vezes não acontece logo, mas só quando surge um estímulo novo. A relação de Carla atravessava “a apatia e a indiferença” quando conheceu o homem por quem se apaixonou e continua hoje apaixonada. “As mulheres não traem, connosco não há isso do ‘aconteceu’. Nós envolvemo-nos quando as coisas não estão bem”, defende de forma peremptória. É claro que gostou de voltar a sentir todas as sensações próprias do estado de paixão, mas admite ter-se sentido também confusa. Independentemente das circunstâncias que levam a romper com o presente, não deixa de ser um salto no desconhecido. “Tive receio, pensei nos meus filhos...

Mas chega-se a um ponto em que mais vale ficar sozinha”, comenta, sublinhando que quando saiu de casa, há sensivelmente seis meses, não foi para viver com o novo amor. Os dois namoram apenas, por enquanto, mas pensam consolidar a relação. Tal como ela, ele também tinha uma ligação de vários anos com outra pessoa. Do que falamos quando dizemos que na vida de um casal entrou uma terceira pessoa? De infidelidade ou de traição? Das duas porque “raramente as pessoas sofrem uma infidelidade sem se sentirem traídas: é a violação do compromisso de fidelidade que gera o sentimento de traição”, observa a psicóloga clínica e psicoterapeuta Ana Almeida. Tudo leva a crer que, genericamente, homens e mulheres encaram a infidelidade de forma diferente. Eles “sentem a infidelidade como uma grande traição”, algo difícil de aceitar. Para elas, “é mais fácil, desde que não tenha existido uma verdadeira quebra da relação de afecto”, quando o envolvimento é exclusivamente sexual.

A diferença entre géneros relativamente a esta questão seguramente terá a ver com os papéis do homem e da mulher na sociedade ao longo dos séculos. “Socialmente, tem repercussões diferentes. Para o homem, há uma espécie de brio associada à fidelidade da mulher. A traição de uma mulher faz com que um homem seja visto como alguém fraco.” Era assim tradicionalmente e de certa forma ainda hoje. Por isso, mesmo que os outros não saibam, um homem vive a traição desta forma – a rotulagem está interiorizada. “Sente-se atacado na sua masculinidade.” Com as mulheres, o que está sobretudo em causa “é a relação de amor, de afecto”. Seja como for, cada vez parece mais seguro dizer que não há relações para sempre. As pessoas exigem ser felizes, ter relações completas, satisfatórias. E quando isso não acontece, partem para viver sozinhas ou iniciar uma nova relação. Outros, por opção ou ‘acidente’, têm um caso amoroso. Este, por vezes, até “pode rejuvenescer uma relação”, diz Ana Almeida, “mas isso só acontece quando o companheiro não teve conhecimento da infidelidade”.


Disponíveis para amar
Uma vida sexual incompleta ou insatisfatória para um dos membros do casal pode ser uma das razões para a infidelidade, e no limite para fim da relação. “Com o passar do tempo, a parte sexual vai perdendo o carácter de novidade, instala-se a rotina”, esclarece. Mas também podem ser incompatibilidades de personalidade a funcionar como gatilho.

A psicoterapeuta lembra a situação de alguns casais, “onde já nem sequer há um amor de companheirismo, o casal perdeu os vínculos que os uniam, o que existe é uma coabitação serena”. E observa: “Isto cria um vazio que potencia a procura de um novo companheiro – a infidelidade acontece como marcador de uma nova relação.” Tudo isto nos torna disponíveis para amar outra vez.














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