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ESTRELA DO MÊS


Está a completar 15 anos de carreira. saiba como marco d’almeida passou de jovem estudante de teatro a galã romântico .


Por Anabela Mota Ribeiro
Ftografia de Pedro Bettencourt
Styling de Paulo Gomes


Tem 35 anos e está nas salas de todo o país ao lado de Soraia Chaves, em A Bela e o Paparazzo, de António-Pedro Vasconcelos. Também na rodagem de Os Mistérios de Lisboa, de Raoul Ruiz. Na gravação da novela da noite da TVI. Num projecto alternativo em que encarna o herói de BD Filipe Seems. Profissionalmente, está numa fase intensa. Marco D’Almeida é apontado como um dos actores mais talentosos da sua geração. Pessoalmente, é simpático, profissional, reservado. Falámos uma hora e meia. Pelo meio, apareceu uma fã chinesa que lhe pediu um autógrafo e perguntou se era o namorado de Maria João Bastos. Ele sorriu, encontrou uma forma hábil de não responder e deixou nela a impressão de ter valido a pena abordá-lo…


Tem a noção de ser um sex symbol? Na Internet, há clubes de fãs com o seu nome alimentados por jovens dedicadas...

[riso] Uma novela, ao longo de meses, cola-nos à pele uma personagem e uma imagem. Aconteceu sobretudo com o Gonçalo de Tempo de Viver. Na mesma altura, ligaram-me de uma revista, dizendo que tinha ganho o prémio de o [actor] mais sexy! “Estão a gozar comigo?!” Não tenho essa imagem de mim.

Nos últimos trabalhos, tem sido o galã romântico.
Quando comecei, na escola de teatro, davam-me o [papel do] príncipe. Tem a ver com certas características. O louro, os olhos claros, a fisionomia. Davam-me esses papéis e os dramalhões, pesados, intensos. Não me davam os papéis cómicos. Partiu de mim tentar quebrar essa imagem. Seria bastante redutor. Já fiz um atrasado mental, e o encenador não tinha pensado em mim, inicialmente, para esse papel [Pillowman, Tiago Guedes]. “Deixa-me provar que não sou só o galã.”

O que é que decidiu que a sua vida, enquanto actor, iria ser?
Do início, início? Tudo começou com o videoclube do meu pai. Não sei se não fui influenciado por ver tantos filmes... Era um puto dos anos 80, apanhei os filmes de aventuras. Indiana Jones, Star Wars, James Bond, O Justiceiro. Eu não queria chegar aos 40 anos, trabalhar numa repartição e pensar que tinha falhado o sonho de ser actor. Não sabia se ia resultar, mas tinha de experimentar.

Quando acabou o curso na Escola Profissional de Teatro de Cascais ganhou uma bolsa e foi estudar para fora.
Faltava-me mais. Fui para Londres uns meses. Depois concorri a uma bolsa da Gulbenkian, em 97, e estive um ano em Nova Iorque. Tudo isso era sonho. “Espera lá, tu começaste há cinco, seis anos, e olha para ti em Nova Iorque com uma bolsa e tudo…” Eu vim de Moçambique.

Nasceu em Moçambique em 74. Quando é que se mudou para Portugal?
Viemos em 1980. Vivemos cá os anos 80. Voltamos nos anos 90. Eu regressei sozinho a Lisboa, para estudar teatro, em 1992. A nossa história em Moçambique começou com a minha bisavó em 1912. Divorciada, com três filhos, no início do século. Foi uma escandaleira em Lisboa. Pegou nas crianças, meteu-se num navio e foi para Moçambique. Branca, sozinha. Construiu lá uma escola, era professora primária. Eu tenho recordações da infância em Moçambique, até aos seis anos. Voltei na adolescência, para Maputo, ainda sob um regime de guerra [civil]. Vivia na cidade, a [força política] Renamo estava nas imediações. Como se vivesse em Lisboa e a Renamo estivesse em Sintra. O que gera um clima tenso.

Sentiu-se ameaçado?
Não senti a ameaça; mas era como estar enclausurado. Não se podia circular livremente. Nesses dois anos que passei lá, na adolescência, não pude visitar sítios da minha infância. Conheci o norte de Moçambique, apenas, porque tirei um curso de pára-quedismo e fui de avião para lá. Vim embora em Setembro de 92 e um mês depois assinaram o acordo de paz.

Dê-me uma recordação da sua infância.
Praia azul, areia branca, coqueiros. Idílico. Lembro-me da casa de férias que tínhamos fora de Maputo, dos meus irmãos bebés, de brincar. São como tatuagens marcadas. São memórias de coisas que descobri pela primeira vez e que estão mais vincadas do que coisas que fiz – sei lá! – na passagem do ano de há dois anos.

Um actor precisa das suas emoções, desse sedimento, de quem ele é. Para saber do actor que é hoje, é importante saber mais desse que foi.
Fui para um colégio na África do Sul. Um dos intuitos da nossa ida para Moçambique era a minha ida para o colégio interno, aprender inglês. Tínhamos família na África do Sul, os meus primos ficariam como meus encarregados de educação. Mas não me dei bem. Vivíamos o último ano do apartheid. Nelson Mandela tinha sido libertado, no ano seguinte haveria pela primeira vez eleições. Mandela defrontava De Klerk. A escola era mista, rapazes e raparigas, mas só brancos. Na minha infância em Moçambique, brincava com os filhos das empregadas (negras). Sempre tive contacto com negros. No colégio, tinha colegas que diziam que não se sentariam à mesa com um preto. “Espera lá, o mundo também é assim…” Fugi do colégio ao cabo de cinco dias.

O papel do rebelde é outro que lhe assenta bem.
Sempre fui assim. Parte dessa inquietude, dessa agitação. Na porta do meu quarto havia uma lista de 20 coisas que não se podiam fazer, à boa tradição boer. Em Portugal, eu não usava farda, vestia-me como queria, ouvia o que queria, tinha o cabelo como queria. Lá, tinha alguém a puxar-me o cabelo porque ele chegava à sobrancelha. Fiz as malas, saltei o muro e fui para o meio da estrada pedir boleia. O colégio era a 100 quilómetros da casa dos meus primos, cheguei às três da manhã. Voltei mais tarde, queria aprender inglês. “Já sei que me vão mandar fazer isto e aquilo, mas aturo.”

Quando regressou a Portugal, em 92, ficou entregue a si. Como é que foi?
Tive de me fazer à vida. Fui viver para casa dos meus avós. Entrei para a escola, fiz uns biscates. Fiz de modelo no Ar.Co, trabalhei numa pizzaria, as coisas normais que se fazem quando se tem 18 anos. No segundo ano da escola tive o primeiro convite para trabalhar como actor e nunca mais parei.

Que trabalho o lançou?
Uma estreia melhor do que a que tive era impossível. Foi no Teatro Nacional, Ricardo II, de Shakespeare, encenado por Carlos Avillez (que era meu professor em Cascais). Com um elenco muito bom. E eu tinha falas!, ainda por cima. Logo a seguir fiz um papel de destaque numa peça em Cascais. Guardo esse espectáculo como o primeiro grande desafio.

É muito reservado em relação à sua vida pessoal. Porquê?
Quando se deu o boom da televisão, precisei de me resguardar. “Toma lá este presente: és actor. E agora tem este apêndice que se chama fama.” O que é implica ser figura pública? Abrir a porta de minha casa? Dizer: aqui eu bebo o sumo de laranja, aqui está a colcha da minha cama? Por não ser tão inexperiente, por ter observado o que aconteceu a outras pessoas, decidi fechar a porta. Tento não abrir precedentes.

Como é a sua vida, se não é uma vida de estrela?
Normalíssima. No outro dia, no sítio onde tomo o café, comentava-se os números do desemprego, e o empregado disse-me: “Você deve estar muito bem, deve andar de limusina.” [riso] Tenho uma vida confortável, mas não tenho essa vida glamourosa. Já foi aos estúdios [onde se fazem as novelas]? Aquilo é ter vida de estrela… [diz isto com tom irónico]

INTERPRETAÇÕES QUE MARCAM
Ao longo dos anos Marco D’Almeida construiu uma carreira no teatro e no cinema, sólida e sem falhas. Aqui ficam os grandes momentos de interpretação desde 2002.
Jóia de África
2002
Caminho Solitário
2003
20.13
2006
Equador
2009
A Bela e o Paparazzo
2010

Marcod’Almeida veste fato e camisa Dolce & Gabbana. Polo Gucci e cardigan Prada
Maquilhagem: Sónia Pessoa
Entrevista vídeo: Ângela Mata
Agradecimentos: Fashion Clinic e spa Lúcia Piloto













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