
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
 |
Glamourosa
Num vestido Basso&Brooke.
Sandálias Paul Smith. |
 |
O êxito fica-lhe bem. Aclamada no último Festival de Cannes, magnética no seu novo álbum produzido por Beck, símbolo citado como exemplo pelo seu instinto em questões de moda: Charlotte Gainsbourg, a consagração do fascínio.
Por Richard Gianorio
Fotografia de Kate Barry
Exclusivo Madame Figaro
Tradução: Maria Eugénia Colaço
Recebe-nos num quarto de hotel na Rive Gauche, sentada no chão, com uma chávena de chá na mão, calças de ganga pretas e botas usadas. Não há palavras para descrever a simplicidade, a cortesia e a afabilidade de Charlotte Gainsbourg. Toda a gente gosta desta rapariga alta e pálida, e tem razão para isso. Estamos no ano da sua consagração e, para nós, é a consagração do ano. Para Anticristo, o polémico filme de Lars von Trier, pulverizou a sua imagem de menina certinha e arrebatou o prémio de interpretação feminina em Cannes. Podemos vê-la no último filme de Patrice Chéreau (Persécution), antes de começar a rodar Les Sabines, baseado no conto de Marcel Aymé e realizado pelo seu companheiro, Yvan Attal. Por fim, o remate com chave de ouro do ano Gainsbourg: o álbum subtil e opressivo co-escrito e produzido pelo americano Beck, IRM, no qual o magnetismo da voz muito particular da intérprete nos arrasta para o transe de uma obra quase experimental. Charlotte Gainsbourg, talentosa e depositária, a contragosto, do ar dos tempos (enquanto tal, será o rosto do perfume Balenciaga a partir de Fevereiro), já não tem medo de nada.
O seu novo álbum IRM, que surge três anos depois do lançamento de 5:55, faz referência ao seu AVC. Manifestamente, já não receia utilizar elementos da sua vida no seu trabalho...
Falou-se tanto disso que não se tratava de um segredo ou de uma falta de discrição. Quando comecei a ser submetida a ressonâncias magnéticas, fiquei impressionada com os ruídos estranhos que a máquina fazia; à medida que os exames se sucediam, convenci-me de que aquela espécie de marteladas, aquele ritmo robótico, frio e caótico podia constituir uma banda sonora interessante e que devia fazer alguma coisa com aquilo. E o pensar nisso durante as sessões no hospital – que não deixavam de ser momentos de grande inquietação – libertavame um pouco das minhas angústias… Mais tarde, falei nisso ao Beck, e foi assim que nasceu o título.
Não é lá muito alegre…
Não concordo. Diria antes que o álbum é uma manta de retalhos de emoções e de estados de espírito, onde nada é ocultado.
|
É um período muito particular da sua vida: o AVC, Anticristo, o filme de Lars von Trier, a gravação do disco…
Sim, tudo se encadeou ou entrelaçou, como se o meu problema de saúde tivesse espoletado uma sequência de acontecimentos ou de reviravoltas. Em Julho de 2007, dei uma queda ao fazer esqui náutico. Como não perdi os sentidos, os médicos não viram necessidade de fazer exames aprofundados. Mas um vaso rompera-se dentro da minha cabeça, tinha uma hemorragia cerebral. As dores de cabeça eram cada vez mais fortes. Em Setembro seguinte, no Festival de Veneza, onde estava a apresentar I’m Not There – Não Estou Aí, o filme de Todd Haynes, as dores eram tão violentas que eu já não conseguia suportá-las. Chorava, estava convencida de que tinha um cancro... Foi a minha irmã que me salvou ao mandar-me ir ao médico. Levaram-me ao hospital e os médicos disseram-me que, no estado em que me encontrava, já cá não devia estar… Depois da operação, tive muita dificuldade em recuperar. Ainda me lembro da minha casa repleta de flores brancas, quando regressei... tive a sensação de estar morta. Vivi um trauma pós-operatório muito difuso: por um lado, tinha sobrevivido; por outro, sentia-me muito instável, pois estava convencida de que ficara com sequelas. Sempre que tinha uma dor de cabeça corria para o hospital, para fazer uma RM. Ao todo fiz 10, até que os médicos me disseram para não voltar lá.
Ave-do-Paraíso
Vestido em crepe de seda com plumas,
Felipe Oliveira Baptista. |
|
Foi esse trauma que lhe deu coragem para enfrentar as filmagens de Anticristo, um filme onde supera algumas barreiras?
Sim, sentia-me a flutuar, algo vazia, algo perdida… Falava muito de Anticristo ao Beck, estava entre o sonho e o pesadelo. Foi muito curioso experimentar tantos estados de alma contraditórios, embora estar com ele na sua casa em Los Angeles, com a sua mulher, os filhos dele e os meus, me fizesse bem. Gosto muito de me sentir em família, ajuda muito. No que diz respeito ao álbum, avançámos um pouco às cegas. Eu andava sempre entre Paris e os Estados Unidos, sentia-me feliz e insatisfeita ao mesmo tempo…
Sempre aquelas dúvidas que durante tanto tempo a cercearam?
Elas ainda cá estão, mas já não me paralisam. Quero progredir. Por exemplo, estou a pensar em fazer teatro. Embora por vezes me sinta acanhada, acho que consigo ultrapassar isso.
É uma late bloomer, como se diz em Inglaterra, o país natal da sua mãe, ou seja, alguém que desabrochou tarde?
É um processo em curso e irregular, mas sinto-me finalmente mais confiante.
O prémio de interpretação de Cannes contribuiu para isso?
Naquele momento senti um prazer e um orgulho enormes, mas devo dizer que me passou rapidamente.
Esta recompensa teve um efeito de aceleração na sua carreira?
Não. Não recebo mais propostas que antes, mas a notícia correu os estúdios. Em Los Angeles, por exemplo, não sou reconhecida, mas as pessoas do meio sabem quem sou.
Simultaneamente, a carreira de Yvan Attal, o seu companheiro, também ganha embalagem…
Levaram muito tempo a ver o excelente actor que ele é! Em Rapt, no papel de barão Empain, é fabuloso. O que acaba por ser harmonioso é que, em certas alturas, sou eu que trabalho mais, e noutras é ele. Não é fácil e não sei se esta instabilidade me faz bem, mas tem uma certa vantagem, pois um de nós está sempre com as crianças.
A vossa relação é referida como exemplar…
Deixa-me cá bater na madeira! Não há receitas mágicas e sei que tudo se pode alterar de um dia para o outro.
Por outro lado, a Charlotte mantém a rota desde o início: continua a ser uma menina bem comportada num meio que não o é…
Foram sem dúvida os meus pais que me transmitiram isso. Eles tinham uma humildade genuína e a vontade de nunca dormir sobre os louros conquistados. A minha mãe, por exemplo, era assolada por dúvidas e não suportava ver-se na tela. Tudo isso me fez ter uma certa reserva. O meu pai era diferente: profundamente modesto também, mas sabia exactamente o que fazia e estava ciente da medida do seu talento. Eu já sou mais frágil…
Já que fala nos seus pais, viu Gainsbourg, Vie Héroïque, o filme de Joann Sfar dedicado ao seu pai?
Joann Sfar propôs-me fazer o papel do meu pai e eu deixei-me invadir por um “por que não?” antes de descer à terra e recusar. Queria distanciar-me de tudo isso. Havia o projecto do museu da Rua Verneuil, que não se vai fazer, a exposição sobre o meu pai em La Villette… era de mais. Custou-me a ler o argumento, mas achei que ia dar um bom filme. Irei vê-lo, mas não para já.
Sente-se um pouco como a guardiã do templo paterno?
Ah não, isso é mais a minha mãe. Não me sinto capaz disso. A minha mãe continua a cantar as canções dele, eu não me sinto realmente pronta para isso. Tal como não volto à Rua Verneuil. Estou bloqueada com aquela casa que não vou habitar, arrendar, mostrar, nada, mas não consigo fazer de outra forma… . |
|

|