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ESTRELA DO MÊS

Sonhar não basta. “É preciso trabalhar muito, não tenho medo de trabalhar ou de fazer sacrifícios  para conseguir as coisas que sonho.”

Uma portuguesa conquistou o público londrino. Sofia Escobar foi Christine em O Fantasma da Ópera e agora, como Maria em West Side Story, foi nomeada para os prémios da What's On Stage.

Por Mariza Figueiredo; Fotografia de Pedro Ferreira

Foi parar ao teatro aos 13 anos. Mas não foi pelo seu próprio pé. O pai preocupava-se com a timidez excessiva da filha e, para ver se a levava a tornar-se um pouco mais extrovertida, inscreveu-a no Círculo de Arte e Recreio, um grupo de teatro amador de Guimarães, onde viviam. Mal sabia que, com esse gesto, descortinava todo um mundo de magia que fascinou Sofia.

Mais de uma década se passou e, há pouco mais de um ano, a jovem actriz subia pela primeira vez a um palco em Londres. Foi nada mais nada menos do que no Her Majesty’s Theatre, no West End, zona cultural tradicional do centro de Londres (muito similar à Broadway, em Nova Iorque). Encarnava a personagem principal em O Fantasma da Ópera, mas ainda como artista suplente.

Desde Julho último, Sofia Escobar dá vida e voz a Maria, a figura feminina central de West Side Story, desta vez no elenco principal da versão comemorativa do 50.º aniversário da primeira montagem da peça em Londres. Um verdadeiro acontecimento e uma grande responsabilidade. Seria uma preocupação se não soubéssemos que, por detrás da doce e sonhadora porto-riquenha Maria que tem brilhado em cena e encantado os críticos dos principais jornais ingleses, se esconde uma portuguesa romântica, sim, mas também destemida e determinada.

Entre os primeiros passos para vencer a timidez e o reconhecimento internacional, Sofia Escobar cantou em casamentos e cerimónias religiosas, em igrejas nacionais, e serviu mesas no Reino Unido. Mas como nos bons musicais de sempre a menina de Guimarães transformou o so-nho em realidade.

O gosto pela representação surgiu quando interpretou o seu primeiro papel: Inês Pereira, na peça Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. “Desde o momento em que descobri o que era encarnar a vida de uma pessoa diferente, comecei a achar o teatro fascinante.” Mas pouco tempo depois, o grupo encerrou as suas actividades e Sofia voltou-se para os estudos. Com a aproximação do 12.º ano, sentiu a pressão de escolher uma carreira entre muitas que não lhe diziam nada. Por esta altura já andava numa academia de música, a Valentim Moreira de Sá, e integrava o grupo Teatro Oficina, ambos em Guimarães.

Mas a pressão no liceu continuava. “Uma carreira ligada às artes era sempre vista como um tabu. ‘Vais viver de quê?’, perguntavam. Eu também me preocupava, mas entre isso e ser infeliz a vida inteira a fazer uma coisa que me ia deixar completamente frustrada, decidi arriscar. Mesmo que não viesse a ter muito dinheiro, ao menos estaria a fazer algo que me realizasse.” Inscreveu-se no Conservatório de Música do Porto e adorou a experiência. “Até aí, não me identificava com o gosto nem com os objectivos de vida das pessoas que me rodeavam. Achava sempre que devia haver algo mais. Mas não sabia muito bem o que era.” Encontrou o seu verdadeiro grupo. “Estava no meio de pessoas que tinham a mesma paixão pela arte, pela música e pela cultura em geral, com grandes sonhos e ambições.”

“Gosto de trabalhar e não tenho qualquer problema em aceitar desafios como esses que dão vida a sonhos muito antigos”
 

Sofia usa Vestido em tafetá de seda e casaco em caxemira bordada a lantejoulas, Donna Karan. Sandálias em pele, YSL. Tudo na Stivali l Vestido em musselina de seda e seda, Roberto Cavalli, na Stivali
Realização: Helena Assédio Maltez, assistida por Joana Lestouquet
Assistente de Fotografia: Ricardo Lamego
Maquilhagem: Sónia Pessoa, com produtos Giorgio Armani
Cabelos: Yohann para Mod’s Hair

Adorava as aulas de representação e de canto. “E houve uma pessoa que me marcou em especial: o professor Emanuel Henriques. Ensinou-me muito e preparou-me para que, mais tarde, eu conseguisse entrar para a Guildhall, uma das mais conceituadas escolas de canto e representação de Londres. Foi uma das pessoas que me aconselharam a concorrer para lá.”

Guildhall parecia-lhe a opção ideal para a formação superior. “Aqui, sempre tive a ideia de que tinha de escolher entre canto e representação. E eu queria ambas. Queria investir nas duas áreas igualmente, sem ter de dar prioridade a uma ou a outra. E Londres oferecia-me, a nível profissional, bastantes mais oportunidades”, comenta Sofia, sem se esquecer de que, ali, a concorrência é também bem maior.

As provas de admissão correram sem problemas. “Fiquei admirada com a forma como se esforçam para que as pessoas não tenham nervos ao entrar para as provas. E são todas provas práticas, pois o que querem é que os candidatos mostrem que têm valor e material para trabalhar.”

Foi logo chamada para uma nova entrevista, desta vez com o director, que queria avaliar as suas capacidades psicológicas para aguentar um curso tão exigente e perceber quais eram os seus planos de carreira. Mal terminou a conversa, soube que tinha sido admitida. “Fiquei muito contente para começar, mas também fiquei muito preocupada porque não teria dinheiro para pagar as propinas. São cerca de quatro mil e tal libras por ano.” Sofia Escobar não teve dificuldade em conseguir uma bolsa de estudo. E assim começou esta aventura. Chegou a trabalhar como empregada de mesa em part-time, para ajudar a cobrir as despesas – sacrifícios que não lhe custaram muito.

Até que um dia viu um anúncio no jornal. A Cameron MacIntosh, uma das maiores, se não a maior, companhia de teatro musical em Londres, procurava uma actriz suplente para o papel de Christine, em O Fantasma da Ópera. Sofia Escobar respondeu de imediato, mas foi sem qualquer expectativa de conseguir o papel. “Fui pela experiência, para saber como era fazer uma audição para um musical do West End. Apercebi-me de que as coisas começaram a tornar-se mais sérias quando me chamaram e voltaram a chamar. Vi que tinha possibilidades.” Foram oito meses de audições e mais de duas mil candidatas. Mas foi Sofia quem conquistou o papel.

No início, ia para a escola de dia e para o teatro à noite. Guildhall aceitou bem a situação, pois também vive da fama dos seus alunos. Mas o trabalho de Sofia implicava oito espectáculos por semana. E trabalhando ou não, tinha de levar por diante o exigente programa da escola. “Tinha boas notas, mas estava exausta. Passados alguns meses, tive de decidir parar com a escola porque não estava a aguentar a carga. Continuei, no entanto, a ter aulas de canto particulares com a minha professora”.

A experiência com a companhia Cameron MacIntosh foi extraordinária, sobretudo porque investiram em Sofia. A jovem actriz teve apoio reforçado na parte de dança, pois nunca tinha tido uma aula de ballet na vida, e, para limar o seu inglês, contou com a ajuda de um professor contratado pela produção especificamente para isso. “As pessoas acreditaram que eu era capaz e que não teria qualquer tipo de problema e eu, portanto, acreditei também. Gosto de trabalhar e não tenho qualquer problema em aceitar desafios como esses, que dão vida a sonhos muito antigos, como o de fazer o papel de Christine. Adorei a experiência, pois trabalhei e evoluí.”

Sofia pontua as suas frases com o riso e muitas vezes parece não ter mais de 19 anos (tem 28, na realidade). Mas na hora de trabalhar, tudo muda. “Não sou competitiva, mas sou perfeccionista. Acho que, quando é altura de trabalhar, não é altura de brincar. Gosto de me concentrar naquilo que faço, de fazer o melhor possível, e de estar muito atenta a tudo aquilo que os directores me dizem.

Para ser a Maria de West Side Story, viu o filme com Natalie Wood, ouviu várias gravações e fez alguma pesquisa sobre o contexto da peça. “Mas tentei não me colar à interpretação de ninguém. Procurei construir uma Maria que fosse minha.” E o trabalho já lhe valeu a nomeação para o Theatregoers' Choice Awards, do portal de espectáculos britânico What’s On Stage, onde está lado a lado com nomes reconhecidos do cenário teatral do Reino Unido.

Com esta peça, Sofia Escobar integra outra das grandes companhias de musicais de Inglaterra, a The Ambassador Theatre Group. Sente-se privilegiada em poder trabalhar com essas pessoas no West End, mas tem a lucidez de dar um passo de cada vez. “Nessa área, nunca sabemos o que vem a seguir. Quando terminar esse contrato, podem surgir mil e uma coisas, apenas umas poucas ou mesmo nada. Tenho muitos sonhos e muitas coisas que gostava de fazer, muitos papéis em que gostaria de investir. Mais tarde também gostaria muito de, por exemplo, fazer televisão e cinema. Em Inglaterra ou em Portugal, tanto faz.” Refira-se que Sofia conta com um agente cá e outro lá.

O seu contrato acaba em Julho e já há a hipótese de integrar o elenco americano de West Side Story e com ele fazer uma tournée pela Ásia. Sofia Escobar ainda não sabe se irá aceitar, mas não fecha qualquer porta. O seu maior medo foi sempre arrepender-se. “Mas prefiro arrepender-me daquilo que fiz do que daquilo que não fiz”, comenta.














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