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DOSSIER

Linguagem sem palavras,
a roupa que vestimos está
cheia de significados. Por vezes,
diz mais de nós do que aquilo
que pensamos e cria imagens
sobre quem somos e de
onde viemos.

Por júlia serrão
 
Em época de saldos, entre as 13 e as 15 horas, as lojas enchem-se de mulheres que tiram meia hora ao período de almoço para se perderem entre cabides e expositores a abarrotar de peças de roupa de fim de estação, mas também de muitas outras que a Primavera faz apetecer. As conversas cruzam-se e fala-se de propostas irrecusáveis: de vestidos para ocasiões mais ou menos formais, de túnicas esvoaçantes que vão bem com as gangas, de cores que ‘casam’ melhor com o tom da pele de cada uma...  Fala-se também das peças que são tendência neste Verão. Discute-se o que vale e não vale a pena comprar.

Uma mulher na casa dos 40 anos acaba de abandonar uma túnica floral cores de terra, depois de a estudar de vários ângulos. Não é difícil imaginar o que lhe vai no pensamento: “Compro? Não compro?... Decididamente não é o meu género.” Mais uma volta pelos corredores apertados de uma conhecida marca de prêt-à-porter e deparamo-nos com muitas outras conversas sobre o assunto. As convicções relativamente ao código de cores parecem ser, de todas, as mais cimentadas. “Prefiro as cores mais escuras, o azul-escuro ou mesmo o preto, e depois disfarçam-me os quilinhos a mais”, diz alguém. “Gosto de cores alegres. Sempre que estou vestida com roupa nestes tons; sinto-me com uma energia muito positiva”, responde uma outra mulher.

Em matérias de vestuário, por mais que tentemos legitimar  as nossas escolhas em função das peças que nos ficam bem, que se ajustam à nossa personalidade ou ao humor do momento, especialistas em sociologia e psicologia social asseguram que é muito mais do que isso.

De acordo com José Palma-Oliveira, professor de Psicologia Social da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, “tendemos a explicar a compra e a não compra com justificações psicológicas individuais e não sociais”, mas esta é a verdadeira razão que nos leva a decidir por uma ou outra coisa, ainda que não o façamos de uma forma consciente. Mesmo quando aludimos aos nossos gostos pessoais para justificar as nossas preferências, estas já foram moldadas pelo grupo social a que pertencemos. 

Roupa para momentos especiais
• De acordo com  um estudo americano publicado em Outubro de 2006, na revista Hormones and Behavior, os sinais de ovulação podem ser mais claros do que podemos imaginar

• O trabalho confirma que as mulheres se vestem melhor no período fértil

• Conforme foi verificado através da observação de jovens universitárias, as jovens usam roupas mais bonitas e acessórios mais chamativos durante o período de ovulação: por exemplo, usam mais saia do que calças e vestem-se de acordo com a moda, refere o estudo

• Os resultados vêm contradizer a ideia de que a mulheres tenderiam a esconder, mesmo de si, a ovulação

• Ao contrário da ovulação humana que é difícil de detectar, alguns animais dão sinais claros quando estão no período fértil:uns mudam de cor, outros libertam odores

 
Através da roupa tentamos dizer algo de nós, contamos um pouco da nossa história. Passamos mensagens, umas vezes de confiança, outras de coragem, mas também pode ser de subversão ou inconformismo. Outras vezes, somos menos complexos, pretendemos simplesmente mostrar que estamos com a moda. Em função do que vestimos, os outros lêem-nos. É um processo automático, instantâneo. Logo aqui temos dois níveis distintos, garante o psicólogo social. “O primeiro que tem a ver com o que cada um de nós acha que a nossa roupa diz de nós. O segundo com o modo como os outros vêem a nossa roupa”, observa, explicando que são duas coisas completamente diferentes e muitas vezes não coincidem.

da mesma forma que não escolhemos a nossa roupa de forma gratuita, a leitura que os outros fazem dela também não está isenta de condicionalismos. “A roupa é uma linguagem e como tal tem de ser lida e pode ser compreendida de maneiras diferentes. E a mesma coisa que para uma pessoa é vista como positiva, para outra de outro grupo pode ser vista como negativa”, prossegue. A percepção difere “de acordo com os grupos e as identidades que vêem”, assegura, explicando que “uma identidade”, ou seja, uma pessoa “da mesma zona, do mesmo grupo socioeconómico, do mesmo grupo psicológico e de valores” de quem veste uma

determinada peça ou estilo de roupa, tenderá a fazer uma avaliação positiva da mesma. E a opinião não tem só a ver com estética. Embora ela esteja presente, tem muito menos peso na avaliação do que as pessoas pensam, assegura José Palma-Oliveira, esclarecendo que o que condiciona a positividade e negatividade em relação à roupa “tem a ver com o grupo de pertença, tem a ver com a identidade de valores. E tem a ver com o eu identificar no outro e nos sinais que ele transmite o mesmo tipo de valores que eu tenho”. A positividade ou a negatividade está directamente relacionada à proximidade social dos intervenientes, portanto. De quem veste e de quem analisa o que é vestido.

Sobre esta dimensão de como os outros nos vêem, “a avaliação é fortemente condicionada de forma positiva se os outros partilharem o nosso grupo psicológico, os nossos valores”, sublinha de novo o docente, para esclarecer que isto é extremamente importante “porque ao pertencermos a um grupo, este dá-nos indicações claras de como nos devemos vestir”. O  que vestimos vem muitas vezes de acordo com o grupo “onde nos queremos colocar”, se mudamos de grupo tendemos a mudar o estilo de roupa que vestimos, criamos uma nova imagem de nós e queremos que os outros reconheçam essa mudança.

Consistente, e à semelhança de outros valores, “ajuda os actores sociais a ter ideias simples uns sobre os outros”. Sempre que conhecemos alguém tendemos a saber quem é pela forma como está vestido e porque existem estereótipos para determinado tipo de roupa, há casos em que a leitura se afigura mais rápida. Os estudos demonstram que em 15 minutos criamos uma imagem do outro e passamos o resto do tempo que estamos com ele a tentar confirmar essa ideia, recorda o docente, esclarecendo que a roupa, uma vez que é a primeira representação e a mais imediata, é um instrumento privilegiado para o fazer.

“Seguir a moda tem a ver com o mecanismo fundamental da vida social que é a vontade de integração, de ser incluído no padrão de referência, o habitual”, explica Luís Baptista, professor de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. Este mecanismo, a que muito autores chamam “o efeito mimético, de imitar os outros porque são modelo de referência, que é essencial ao longo do processo de crescimento, de socialização do indivíduo”, também existe em versão de “promoção social”. Ou seja, se há pessoas que “compram em determinadas lojas e usam determinado tipo de marcas”, e são para outras “um modelo de actuação, de referência social”, muitas vezes estas últimas “encontram aí um mecanismo de afirmação pessoal”.

Segundo o sociólogo, o efeito mimético (tão importante e fundamental durante o período de adolescer, um tempo marcado pela forte necessidade de referência ao grupo, pois os adolescentes vestem-se da mesma maneira) pode ultrapassar a fase da juventude, prolongando-se na idade adulta. “As revistas de moda, por exemplo, têm um efeito que está para lá da juventude. Tem a ver com fases adultas claríssimas. O efeito mimético, neste caso, tem a ver com a identificação a uma certa imagem social, a um certo grupo social.”

Vestir o que é moda, secundarizando muitas vezes o facto de a roupa ficar bem ou não, tem a ver com este mesmo fenómeno: “O efeito mimético, que continua da adolescência para épocas posteriores, e que tem a ver com o mito da eterna juventude” e que supõe que a partir de “uma certa idade seja possível fazer plásticas e se continue a seguir a moda”, mesmo no caso em que esta dite alguns modelos mais arrojados, por exemplo. 

Neste casos, pode haver ainda outro efeito, diz Luís Baptista. “As pessoas também seguem em função dos seus cânones, que estão estabelecidos sobre aquilo que é espectável que elas façam. Isto é, se são pessoas livres têm de assumir essa forma de vestir porque é isso que é esperado delas, caso contrário entram em incoerência.”

Código de cores
Segundo David Cowell, especialista em psicologia da cor, as cores provocam reacções muito distintas na mente humana

• O azul, por exemplo, sugere harmonia e alívio. É a cor da natureza, em versão tranquilidade

• O laranja e o amarelo sugerem um futuro positivo

• As cores e os efeitos psicológicos, sob outros códigos, dizem que o branco está ligado à pureza e o preto com o negativismo, o cinzento com a tristeza e o vermelho com o calor e o dinamismo, o rosa é graça e ternura e o azul é a pureza e a fé

O efeito mimético é um dos efeitos fundamentais do funcionamento da própria lógica de identificação em sociedade, garante Luís Baptista, lembrando a existência de uma outra dinâmica precisamente inversa que é a lógica de diferenciação. Por outras palavras, podemos dizer que neste campo, como em todos os outros da nossa vida, vivemos divididos entre o desejo de pertencer, fazer parte de alguma coisa, e ao mesmo tempo de sermos diferentes, únicos. “A busca da nossa alteridade, da nossa diferença em relação aos outros, leva-nos a que a moda seja em muitos casos um referente socialmente identificado, mas que depois cada um de nós a vá trabalhando consoante o seu grau de vontade de afirmação pessoal. Podem jogar com a moda mas incorporam elementos que pensam sinalizadores, identificadores.”

“A nossa vivência social tem um problema, que é o facto de nos termos de assimilar ao grupo ou a um conjunto de grupos, criar laços com ele, e ao mesmo tempo querermo-nos diferenciar”, defende José Palma-Oliveira, salientando que a democratização da moda permite diferenciações cada vez maiores. “Neste momento, a diferenciação do prêt-à-porter é feita de forma a ter design, a ter separação”, pelo que “os pequenos grupos conseguem hoje encontrar instrumentos na roupa e na moda que os diferencie, em muitas linha de roupa”, comenta.

Seja como for, é sempre preciso atenção, pois por vezes basta um pequeno deslize de cor ou na altura de uma bonita saia para corrermos o risco de sermos excluídos do nosso círculo de referência. Ou, no mínimo, ser mal interpretados. Nesta incansável busca pelo que nos faz diferentes e genuínos, da diferenciação, se não pertencemos a grupos extremos, a receita é “encontrar as regras normais e depois trabalhar os pormenores” – a forma como se coloca um lenço à volta do pescoço pode marcar a diferença de forma muito positiva. Pelo menos para as pessoas do nosso círculo, como vimos.

De acordo com o psicólogo social, o prêt-à-porter está diferente e pode ser “apropriado pelos diferentes grupos como forma de identidade”. E, depois, a demarcação é tão grande que “é possível fazer combinações individuais e grupais, conseguindo dar-lhe a diferenciação desejada”.

Entre o passado mais remoto e os dias de hoje, “o que mudou não é a essência do comportamento e do funcionamento psicológico, é quanto muito a diversidade que a sociedade põe à disposição”, diz, sublinhando que agora temos muito mais diversidade, logo capacidade de fazer com que coisas que outrora não diferenciavam os grupos e as pessoas possam agora fazê-lo.

A necessidade de assimilação versus diferenciação acompanhou-nos sempre ao longo dos tempos. Só que neste momento, “com a importância do sexo e do corpo, e o facto de termos uma indústria de moda e de produção extremamente importantes, leva a que este fenómeno da diferenciação e da agrupação das identidades dos grupos seja feito de uma maneira muito sistemática pela roupa”. Por exemplo, o estado da moda neste momento leva a que a identidade com o grupo seja mais simples, sobretudo quando se é jovem, pois ao contrário do que se pensa esta é a época mais conformista, garante, lembrando que o tempo em que se é mais fortemente influenciado pelo grupo é durante a adolescência: vestimo-nos da mesma forma. “Hoje, a diferenciação da moda e do que está disponível leva a que se tenha capacidade de tentar diferenciar assimilando.”

A roupa é extremamente importante na medida em que é utilizada para fazer uma avaliação dos outros. “Porque é um dos índices mais rápidos, mais imediatos e evidentes, recorremos a ela de forma automática e inconscientemente”, ela é um instrumento que serve para perceber o outro e que o outro usa para me perceber a mim. No fundo, de alguma forma todos sabemos isso, pelo que as nossas escolhas em matéria de guarda-roupa continuam a não ser inocentes.

Podemos dizer que somos norteados pelas nossas preferências e o nosso carácter, o que não deixa de ser verdade, mas o fenómeno de assimilação e diferenciação nunca nos abandona um só momento. No que respeita ao jogo de cores, e ainda que gostemos de falar das energias positivas e negativas que se escondem nos tons do arco-íris e nos influenciam, há um outro código que nos pressiona muito mais no momento de decidir, que é o si-gnificado das cores segundo o código da nossa identidade grupal. As nossas preferências e características pessoais já foram moldadas, garante o especialista em psicologia social. Independentemente de tudo, “a cor que usamos na nossa roupa é condicionada socialmente, é fortemente condicionada pelo lugar onde estamos e pelo grupo a que pertencemos”, diz, lembrando que ao contrário de alguns grupos de jovens que por vezes usam cores mais excêntricas, e nos bairros pobres as cores vivas, para a maioria de nós, pertencente a “uma pequena burguesia activa e executiva”, seria muito complicado usar cores garridas. “As pessoas pobres utilizam mais livremente a diferenciação da cor. Nós inventamos a palavra kitsch, dizemos que as coisas são kitsch.”

José Palma-Oliveira é peremptório. “Não fazemos aquilo que às vezes nos apetecia fazer” mas o que a sociedade espera de nós. Esta é precisamente a razão “para que aconteça uma coisa muito engraçada que é o facto de, por vezes, termos vidas diferentes”, explica. No fim-de-semana podemos vestir o fato de treino e ir passear pelo paredão junto à praia e ir à discoteca longe da nossa zona de residência e de trabalho com um modelo de roupa completamente oposto ao que as pessoas que nos conhecem a nível profissional esperam de nós. “Pertence-mos a grupos diferentes e esses grupos não têm contacto entre si, portanto”, resume, lembrando que os grupos a que pertencemos dão--nos identidade – vemo-nos de uma determinada forma, com uma série de atributos. “O que é que isto significa? Que temos de jogar com a imagem.”













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