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FAMÍLIA







   

Com a educação e o bem-estar dos filhos sempre presentes, há pais que se sentem perdidos. Outros confundem prioridades. Fique a saber o que realmente importa na relação entre uns e outros.

Por júlia serrão

Tornaram-se o centro das atenções no mundo ocidental, na última década. Especialistas em infância medem a qualidade do desenvolvimento físico e psíquico das crianças. Mas também a capacidade destas se tornarem indivíduos sociais e, sobretudo, empreendedores. Os pais procuram dar-lhes educação mas também proporcionar-lhes bem-estar e conforto. Querem a felicidade dos fi-lhos e querem contribuir activamente para ela. Alguns aspiram ser pais perfeitos, independentemente do que isso signifique para cada um. Mas será que existe perfeição na parentalidade? E a existir, as crianças precisam mesmo de pais perfeitos?

Segundo o psicólogo clínico Manuel Coutinho, não há filhos perfeitos nem pais perfeitos. “E nem as crianças precisam de pais perfeitos”, explica, esclarecendo: “O que elas precisam é de pais naturais, pais atentos e pais contentores das suas angústias.”

Embora por vezes os filhos tenham os pais idealizados – construíram deles uma imagem e não é certo que esta construção corresponda à realidade, à verdadeira mãe e pai biológicos ou adoptivos –, também reconhecem que os progenitores são humanos e como tal têm falhas, dúvidas e receios. Pelo menos é o que garante o especialista, que aconselha os pais a transmitir essas dúvidas e receios às suas crianças, com naturalidade.

“Não há pais super-homens nem mães supermulheres”, o que existe são homens e mulheres a aprender a ser pais, todos os dias. Os que sabem definir limites, ajudar e orientar as crianças, inclusive a organizar a mente, os que lidam com os filhos mostrando-lhes que estão presentes, não sendo perfeitos caminham no sentido da perfeição. “O melhor pai – e a melhor mãe – é aquele que ama sem limites e limita por amor. Um bom pai dá oportunidade. E um pai excelente nunca desiste”, diz.

Mas os pais às vezes têm outra ideia do que deve ser um bom pai e uma boa mãe. Uma delas, no campo dos afectos, é a noção que devem proteger as suas ‘crias’ a todo o custo do mal, das dificuldades e até da tristeza, esquecendo o direito da criança a passar por tudo isso, também como forma de fortalecer-se. Os bons pais são aqueles que “não percorrem o caminho pelo filho, mas que indicam o caminho a percorrer”, pois ajudam “a separação, a autonomia”. Há um espaço para ajudar os filhos na resolução dos seus próprios problemas, o que passa muitas vezes por transmitir-lhes conhecimentos que eles ainda não adquiriram, nunca resolvendo por eles, defende. É importante “explicar-lhes que não se devem sentir muito angustiados com os assuntos, que devem antes planear a vida, organizarem-se”.

Páre, escute e participe
Ponha em prática os seguintes conselhos:

Passe algum tempo sozinho com a criança
Escute-a regularmente quando fala do seu universo
Mostre interesse pelas suas actividades e gostos
Partilhe actividades com ela
Inspire-lhe a sensação de que é única
Seja um modelo para o seu filho, aceitando as críticas e não se deixando derrotar com os fracassos
Ensine-a a rir de si própria

Fonte: A Auto-Estima, Christophe André e François Lelord (Presença)
De acordo com Serge Hefez, psiquiatra e terapeuta familiar e conjugal, autor do livro Quand La Famille s’Emmêle (edições Broché), os pais cor- rem o risco de não amar os filhos ao sobreprotegê-los. Nesta obra, o especialista francês faz uma forte crítica ao que chama a “tirania da felicidade obrigatória”, fruto de uma sociedade desencantada. Em entrevista à revista Psychologies, de Novembro de 2004, Serge Hefez defende que o papel dos pais é o de colocar a criança na vida e de a ensinar a separar-se. “Se não a deixarmos experimentar, fazer as suas próprias experiências, se não soubermos largar-lhe a mão, ela jamais saberá caminhar sozinha”, observa o especialista que diz existirem muitas crianças a sofrer de amor em demasia.

É preciso abandonar a ideia de que o papel dos pais é evitar que os filhos sintam angústia, tristeza e desânimo, observa o especialista, sublinhando que, na medida certa, todos estes estados de alma têm lugar no universo infantil. Uma vida sem angústia, tristeza ou desânimo não existe, lembrando que é importante secundarizar a questão de forma que a criança viva estes momentos da melhor forma que sabe.

Para crescermos saudáveis temos de aprender a ter resistência à frustração, e quanto maior esta for também maior é a força do ego, assegura Manuel Coutinho. Da mesma forma que os pais percebem que os filhos têm de cair várias vezes para aprender a andar e aperfeiçoar gradualmente a marcha. “Para aprenderem a crescer têm de fazer algumas asneiras, de ter algumas consequências dessas asneiras, de sofrer muitas vezes por isso.” Neste caso, é mais importante dizer-lhes “que também eles já passaram por isso e que é normal que aconteça”. Ou seja, “não devem dramatizar mas também não desdramatizar, ou ir a correr resolver o problema da criança”, sublinhando que cada fase da vida tem as suas próprias dificuldades, os seus constrangimentos e as suas coisas boas.

“Se nos formos habituando a lidar com as dúvidas e dificuldades e com as especificidades de cada um desses estágios da vida, conseguimos alcançar a maturidade.” Neste sentido, prossegue o especialista português, os pais devem ser simples orientadores. Por outro lado, “devem ser firmes”, educando as crianças “para os ‘nãos’ da vida”. Se as famílias aplicarem esta medida na educação dos filhos, desde muito cedo, estão a contribuir para que as crianças se tornem “adultos mais capazes, mais energizados e capazes de combater as coisas, pois ao mínimo contratempo não ficam frustrados no seu desempenho porque não conseguem resolver os problemas”. Posto isto, explica: “É preciso prepará-los para saber lidar com os conflitos. Os conflitos são saudáveis, fazem crescer, pois obrigam a encontrar estratégias para ultrapassar os problemas, arranjar as soluções.”

Outras vezes a ideia de perfeição passa por possibilitar à criança o mais possível em termos materiais.

“De facto muitas pessoas pensam que uma criança superinvestida do ponto de vista material e até curricular paralelo à escola mostra que são bons pais”, comenta o psicólogo que esclarece, de forma peremptória: “Não acho que seja dessa forma que os pais optimizam a sua relação parental. Esta é optimizada pelos afectos, pela atenção, pelo diálogo, pelos abraços que damos às crianças, mostrando que estamos lá para ajudar, não fazer por elas. A relação e a atenção são o melhor que se pode dar.” Manuel Coutinho lembra que o pior que pode acontecer a um ser humano é ser ignorado, “e é terrível saber que há crianças que têm tudo, mas que do ponto de vista afectivo são ignoradas”, comenta. Por isso, continua a defender que os bons pais e as boas mães são aqueles que não se cansam de dizer aos filhos: “Tu és capaz, é difícil, tem dificuldades mas tu vais vencer.” “As crianças tendem a crescer através do modelo. Não fazer aquilo que os pais lhes dizem para fazer, mas aquilo que vêem os pais fazerem.”













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