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FAMÍLIA







Consciência ambiental não rima com consumismo. As crianças hoje já estão sensibilizadas para a protecção do ambiente. Mas será que na era do descartável elas têm noção dos malefícios do consumo exacerbado?

Por MARIZA FIGUEIREDO

Nos anúncios de TV lá estão as crianças a ensinar-nos a usar os contentores e a proteger o ambiente. Em casa, elas chegam cheias de autoridade a falar da falta de cuidado que há com o mar e as florestas, aflitas com a quantidade de animais que estão a desaparecer do planeta e atentas sempre que vamos deitar qualquer coisa fora, para nos lembrar de que deveríamos separar o lixo. Mas, ao mesmo tempo, são elas as primeiras a querer todos os brinquedos que se cruzam no seu caminho, a querer comer tudo o que vêem anunciado na TV e a dizer “compra, compra, mãe!”.

O consumo excessivo não é amigo do ambiente, gera desperdício, faz multiplicar o lixo de cada dia, sem falar da quantidade de matéria-prima e energia esbanjadas e de poluentes despejados na natureza como resultado da produção de todo o tipo de objectos de consumo, a grande maioria dos quais não-biodegradáveis, o que significa anos a fio até que se decomponham.

Mas, muito pior do que isso, o consumismo não traz nada de bom para as crianças, além de brevíssimos e fugazes momentos de prazer. É em casa que se aprende a conviver com as pressões da sociedade de consumo. As regras e o exemplo dos pais (com a ajuda de professores e educadores) é que deverão orientá-las. Isso passa por ter atenção ao uso racional da água e da energia eléctrica em casa, mas, principalmente, por resistir aos apelos da compra pela compra, do “porque toda a gente tem”, “toda a gente come” ou simplesmente “porque eu quero um também!”.

“A criança quer tudo porque está numa fase de experimentar e de conhecer o mundo que a rodeia”, explica a psicóloga clínica Carla Cruz. Por natureza, gosta de brinquedos e brincar é fundamental para o seu desenvolvimento, seja a nível do pensamento, da linguagem ou da capacidade de se relacionar com os outros. “Mas o excesso tem um efeito paradoxal. A criança às vezes tem tantos ou recebe tantos em datas específicas como o dia de anos ou o Natal, que não brinca: salta de um para o outro sem nunca se concentrar em nenhum”, comenta. E, no fim, parece insatisfeita e, muitas vezes, chega à conclusão de que quer mais qualquer outra coisa nova.

Aprender o valor das coisas

“Um bom começo é mostrar o valor das coisas que não podem ser compradas: plantar uma árvore, contar uma história e inventar a própria brincadeira”, declarou à revista Veja a psicóloga Susan Linn, especialista em consumo infantil

Tudo é útil, desde que leve a criança ou o jovem a aprender a organizar-se para alcançar o que pretende

Dar mesada, estabelecer tarefas ou comportamentos para ‘pagar’ o que se quer comprar, ou estabelecer dias determinados para certas pequenas compras (chocolates, rebuçados, cromos, etc.) são boas formas de estabelecer esta organização

Num âmbito mais ambiental, a Deco tem disponível o site Deco Juvenil, com acesso pela página principal do site da organização (www.deco.pt), com informações sobre consumo sustentável, direitos dos consumidores, entre outros temas
“Isto leva também a que fique com uma ideia falsa do mundo, como se comprar estes brinquedos não correspondesse a um verdadeiro investimento e sacrifício por parte dos pais. Não reconhecendo a necessidade de se investir e do esforço que por vezes é necessário para se alcançar o que se deseja.” E para tudo o que queremos precisamos de empenhar-nos: para obter boas notas, comprar o que precisamos ou realizar o que sonhamos.

Na opinião da psicóloga, cabe aos pais introduzir o princípio da realidade aos filhos. “As crianças têm a ideia de que tudo se resolve por magia. Neste sentido, introduzir alguma frustração ajuda-a a desenvolver capacidades que lhe permitem progressivamente uma melhor integração social. É nos momentos de frustração que imagina o que não tem e, simultaneamente, desenvolve a sua capacidade simbólica, que lhe vai permitir ler, escrever, pensar e aprender. Se, ao contrário, receber sempre tudo o que pede não há espaço para a fantasia”, afirma. E quem diz brinquedos diz roupas de marca, telemóveis ou jogos de computador, por exemplo, na adolescência.

Não é vetar estes produtos do universo infanto-juvenil é, simplesmente, criar limites, ensinar a escolher e a estabelecer métodos ou organizar maneiras para obter algu- mas das coisas que pretendem (ver caixa). “Caso contrário, como é que este jovem percebe a importância de fazer o sacrifício de, em vez de ir para os copos, ir estudar?”, sublinha a psicóloga.

É neste mundo de pais excessivamente ocupados e cansados que a culpa emerge e é aproveitada pela sociedade de consumo, que incentiva a compra excessiva. “Como se brinquedos, objectos, guloseimas e afins compensassem a frustração e, por vezes, a culpabilidade dos pais por não poderem brincar ou conversar com os filhos. Esta é uma compensação que se esgota ali, no acto de oferecer o brinquedo ou o produto em causa”, destaca a psicóloga.

As crianças estão também cada vez mais próximas do mercado de consumo. Cada vez mais cedo dominam o conhecimento das marcas e até influenciam as compras dos pais. “O mercado destina-lhes produtos e usa-as para escolha de produtos da família. Elas actuam como consumidores, mas ainda não dispõem de informação suficiente para actuarem como consumidores esclarecidos e fazer escolhas acertadas”, comenta Fernanda Santos, coordenadora do departamento de formação da Deco. As mais pequenas não são capazes de fazer a distinção entre os programas de TV e os anúncios. E até aos seis, oito anos, não percebem que o propósito comercial é levá-las a comprar o produto que é anunciado. A publicidade especializa-se no seu universo e investe em força no mercado infantil. Para Fernanda Santos, o mais preocupante neste cenário é o que diz respeito à alimentação. “Cinquenta por cento dos anúncios dirigidos às crianças são do sector alimentar e publicitam produtos que devem ser de consumo controlado e muito moderado, nomeadamente alimentos açucarados, com excesso de gorduras ou de sal”, observa a especialista.

“A Organização Europeia de Consumidores (BEUC), de que a Deco faz parte, tem feito pressão para que os Estados-membros ado-ptem restrições à generalidade da publicidade dirigida às crianças com menos de 12 anos. Mas em Portugal não há restrições a este nível”, observa Fernanda Santos, que gostaria que o anteprojecto de código do consumidor que está a ser criado a nível governamental contemplasse a publicidade aos produtos alimentares dirigida a crianças.

Em defesa dos anunciantes, Manuela Botelho, adjunta do secretário-geral da Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN), destacou recentemente, no 2.º Seminário de Marketing Infantil, que “a publicidade não deve ser culpabilizada pela incapacidade dos pais em lidar com os pedidos das crianças”. Referiu também que “os pedidos das crianças continuarão, quer a criança tenha ou não visto um filme publicitário, e que são as famílias as responsáveis por assegurar que as crianças tenham uma alimentação saudável”. A APAN considera “ineficiente a tentativa de excluir a criança do mundo comercial no qual vive” e preconiza, entre outras coisas, o incentivo de programas de educação a elas dirigidos, que lhes permitam entender os propósitos da publicidade, apresentando-a de forma clara e transparente.

“A publicidade deve ter o seu espaço”, reconhece Fernanda Santos, da Deco, destacando a importância do papel dos pais e da escola para ajudar a que as crianças e jovens te-nham um olhar crítico em relação à publicidade. “Só com a idade as crianças vão percebendo o papel da publicidade”, remata.













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