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Vencedor de dois Óscares,
Denzel Washington considera-se
um dos homens com mais
sorte do planeta. O seu novo filme, Déjà Vu, vem confirmar de que fibra são feitos
os grandes actores.
Por Harold von Kursk l fotografia de Cliff watts/icon international
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Ele é um dos principais protagonistas de Hollywood. Este ano, apareceu já num thriller fascinante em torno de um assalto a um banco, Inside Man, e desfruta do seu êxito como autor do livro A Hand Guide to Me, que se mantém desde há dois meses nas listas de best-sellers norte-americanos, bem como do seu filme recente, Déjà Vu, um dos trabalhos mais interessantes da sua carreira.
Aos 51 anos continua a ser um dos homens mais carismáticos da indústria cinematográfica. Casado há 23 anos com Pauletta Pearson, Denzel optou sempre por dar valor à vida familiar. É muito ligado à mulher, uma antiga pianista clássica e cantora da Broadway, e aos quatro filhos de ambos – John David, de 23 anos, defesa da equipa de futebol St. Louis Rams; Katia, de 21 anos, que frequenta a prestigiada Universidade de Yale; e os gémeos Malcolm e Olivia, de 15 anos, que estão a tirar a carta de condução “e a pregar-me sustos de morte!”, diz Denzel rindo.
Tem sido, ao longo dos anos, um dos actores mais populares de Hollywood. Como é que explica o seu sucesso?
Tenho um sorriso que mata! (Ri) Não, além do meu sorriso, acho que me esforcei muito por descobrir filmes interessantes e por não entrar em projectos em que o público realmente não quereria que eu estivesse. Foi por isso que aguardei um pouco até fazer um filme como Dia de Treino (pelo qual ganhou o Óscar de Melhor Actor). Muito embora tenha feito o papel de um homem mau, era uma pessoa cujo carisma e força eram devastadores e foi um dos papéis mais fantásticos da minha vida. Algures na vida seguiu por um mau caminho. Mas, se assim não fosse, podia ter sido uma força muito positiva da sociedade.
É um homem religioso. Sente-se compelido a desempenhar personagens edificantes em geral?
As coisas não são assim. Não vou desempenhar personagens puramente maléficas nem fazer um filme que não tenha referências morais ou fundamentos. Mas se vir bem o meu trabalho, já fiz um número razoável de filmes violentos e de muitos géneros. A minha única orientação na escolha de filmes e papéis é que exista alguma moralidade subjacente e algo que nos guie para o bem e não para o mal. Mas mesmo aí, a linha de separação é muito ténue e na maior parte das histórias pode ver-se o lado bom e o lado mau das pessoas.
As suas personagens têm todas um conteúdo espiritual?
Sim. Todos nós temos uma natureza espiritual e penso que não devemos negá-la. Acredito que todos nascemos com um propósito de trazer algo de bom ao mundo e não para apenas pensarmos em termos dos nossos mesquinhos interesses pessoais.
A influência do seu pai como pregador continua a ter impacto sobre si?
Todos os dias, em todos os momentos da minha vida. O meu pai foi a maior inspiração pessoal da minha vida. Vou buscar força à sua memória e à sua inabalável crença no poder que todos temos de concretizar algo de positivo, benéfico e maravilhoso na vida. Cada vez que estou deprimido, ou com pena de mim próprio, vou buscar grande consolo à fé e à força espiritual do meu pai. Ele era um rochedo. Tal como a minha mulher, Pauletta. Nunca teria conseguido o que consegui como actor sem o seu amor e o seu apoio.
No seu filme mais recente, Déjà Vu, sobre aquela sensação de ter estado algures ou ter feito algo exactamente igual algum tempo antes, como é que se relacionou com esta experiência deste filme?
É uma área pouco clara, absolutamente fascinante. O que o Déjà Vu significa para si, pode não significar para mim. Fui completamente arrebatado pelo argumento quando o li e fiquei fascinado com a exploração provocatória, para trás e para a frente, de uma das experiências mais inexplicáveis da vida. Porque é que sentimos que já fizemos algo antes, ou já estivemos num determinado sítio? Eu acho que as pessoas se interessam por esse fenómeno, precisamente porque é inexplicável. Adoram o desconhecido. Pode não as assustar mas intriga-as. E devo dizer-lhe que essa sensação de déjà vu já me aconteceu. Estava nas filmagens de The Siege, em Brooklyn, um local onde a minha tia talvez me tenha levado quando eu tinha um ou dois anos de idade (é apenas ‘talvez’), e, de repente, eu estava nessa rua onde presumi que nunca tinha estado antes e – inexplicavelmente – eu sabia qual o aspecto de cada casa, onde ficava a loja do bairro, a cor das cortinas. Tudo. Diga-me lá o que é que aconteceu?
Poderoso com sucessos constantes, Denzel Washington, com uma aparência absolutamente intacta, promete manter-se no topo da indústria cinematográfica durante muitos anos.
É um dos pouquíssimos actores de Hollywood cujo casamento resistiu à passagem do tempo. É uma espécie de milagre?
(Ri) Não lhe chamaria um milagre – temos de ter mais fé do que isso nas nossas próprias vidas! Vá lá, homem! Milagre! (Ri – e eu rio com ele). Não, isso é ir longe demais! Eu acredito que o casamento é uma jornada, e que ambos têm de acreditar e estar dispostos a perdoar ao outro os seus enganos, mesquinhices, burrices e tudo isso. O que eu lhe posso dizer é que a Pauletta tem tido de me perdoar mais a mim do que alguma vez precisei de lhe perdoar a ela. Mas nós temos um casamento poderoso e cheio de amor.
Acredita que os homens precisam de uma mulher forte nas suas vidas?
Acho que sim. Se vai ter de concretizar muitas coisas, precisa desse apoio. As mulheres são mais fortes do que os homens, nisso eu acredito mesmo. Precisamos da intensidade e coragem delas quando somos fracos e sentimos pena de nós próprios. Pauletta é uma mulher extraordinária e trabalhou muito para cuidar dos nossos filhos ao longo de todos estes anos em que muitas vezes estive ausente três ou quatro meses de cada vez a construir a minha carreira de actor. Nunca se queixou disso e deu-me liberdade para trabalhar com a frequência com que o fiz – desde que regressasse a casa e cumprisse as minhas obrigações. A minha obrigação espiritual é levar o lixo e lavar a louça e passar algum tempo com os filhos, se não a Pauletta fica fula comigo. Se alguma vez, em algum momento, eu me armo em estrela de cinema, ela não precisa de Deus para me pôr no meu lugar. Pode dar-me um pontapé no rabo sem ajuda divina! (Ri)
Publicou este ano um livro de entrevistas com antigos membros do Boy’s and Girls Club of America (uma organização destinada a ajudar adolescentes a vingarem no desporto e na vida em geral). Porque é que o escreveu?
Tenho uma dívida para com o Club e, como porta-voz nacional da organização, quis fazer algo que promovesse o seu trabalho. Há muito tempo, quando eu era adolescente, não era propriamente um anjinho, lembro-me dos conselheiros do clube dizerem: “Com a tua esperteza podes fazer o que quiseres.” E eu saí de lá a pensar: “Eis uma coisa em que nunca tinha pensado – posso fazer seja o que for que eu quiser.” Portanto, nunca se sabe o que é que influencia as pessoas, e nunca se sabe como é que se pode ajudar a modificar alguém com uma palavra simpática ou um conselho.
Acha que podia ter sido um pregador como o seu pai?
Não sei se conseguiria ser tão empenhado e dedicado à Igreja como ele era. Mas acho que tenho laivos de inspiração como ele tinha. Sei que desejo e tenho tendência para querer encorajar as pessoas. Torná-las melhores. Ajudá-las a levantar-se quando estão em baixo e a enveredaram por um mau caminho. Acredito que todos nos podemos ajudar uns aos outros se quisermos. Não gostaria de passar pela vida a dizer que não ajudei! |
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