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DOSSIER







As consequências da actividade humana sobre o meio ambiente são devastadoras e algumas são até irreversíveis: poluição, desertificação e a certeza de que o aquecimento global está mesmo em curso. Ainda iremos a tempo de salvar o nosso planeta?

Por JÚLIA SERRÃO




 Terra está a aquecer e o Homem é o principal responsável por este fenómeno. Ainda que hoje se comecem a restringir as emissões de gases com efeito de estufa, “parte do aquecimento global é inevitável”, pelo menos no próximo século, pois a resposta da Natureza não é imediata. Estas são as principais conclusões do quarto relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em Inglês), que vêm concretizar o que há muito se temia. Assim sendo, e de acordo com o mesmo documento – cujo esboço foi avançado pelo jornal espanhol El Pais, no dia 26 de Dezembro de 2006, mas que só se conhecerá na íntegra em Fevereiro –, os efeitos do aquecimento global vão continuar a fazer-se sentir durante os próximos 100 anos. Entre outros fenómenos externos, haverá mais ondas de calor e degelos, e o nível médio das águas vai continuar a subir. As projecções do IPCC apontam para um acréscimo da temperatura “entre 2 e 4,5 graus, sendo 3 o valor mais provável” e uma subida do nível do mar “de 0,19 a 0,58 m”, durante esse período.

Alguns dos principais impactos das alterações climatéricas já se fazem sentir. O futuro da Terra é um assunto urgente pelo qual todos nos devemos comprometer.
Fomos saber mais sobre este e outros problemas ambientais. Como é que acontecem e o que se está a fazer, nomeadamente em Portugal, para travar ou, pelo menos, suavizar o impacto destes fenómenos.

O efeito de estufa, quando funciona normalmente, é um fenómeno natural provocado por alguns gases existentes na atmosfera que mantêm o nosso planeta com a temperatura ideal. Estes gases formam uma espécie de tecto que protege a Terra de forma que a luz do Sol e o seu calor se mantenham junto à superfície terrestre aquecendo a atmosfera. Sem eles, na medida certa, a vida, tal como a conhecemos, seria impossível.

No entanto, as actividades humanas estão a alterar o clima do nosso planeta. Em pouco mais de 100 anos, o drástico aumento da emissão de ga-ses com efeito de estufa na atmosfera – sobretudo de dióxido de carbono, que deriva da combustão de combustíveis fósseis como o carvão e o petróleo – está a abalar o equilíbrio térmico da Terra. De acordo com o III do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, de 2001, a contribuição deste gás para o aquecimento global era, então, na ordem dos 60 por cento, logo seguido pelo metano (20 por cento). Apesar de haver dados actualizados nesta matéria, o que só acontecerá por altura da divulgação oficial do IV relatório do IPCC, é provável que não existam grandes melhoras neste cenário. Com base em diferentes notícias, é possível, por exemplo, deduzir que os objectivos do
Protocolo de Quioto – um tratado ratificado por diferentes países, e em que cada um se comprometia a reduzir a emissão de gases na atmosfera, através de um sistema de quotas – estão longe de serem atingidos. Portugal está, aliás, entre os países em vias de violar as metas estipuladas. Em entrevista dada ao Diário Económico de 8 de Janeiro deste ano, o ministro do Ambiente, Nunes Correia, admite que o país ultrapassou “o tecto das emissões” que lhe “foi atribuído”, considerando agora a hipótese de “comprar direitos de emissão a países que produzem abaixo das metas estabelecidas”.

Propostas verdes

Conheça a sua “pegada ecológica”, através do site
www.earthday.net

Saiba como poupar energia em casa com o Projecto Ecocasa, da Quercus, em
www.ecocasa.org

Conheça as zonas de protecção especial do nosso país, com a Liga para a Protecção da Natureza.
Informe-se sobre projectos e datas de percursos pelo telefone 21 778 00 97 ou no portal
www.Ipn.pt
De acordo com Hélder Spínola, presidente da Direcção Nacional da organização ambiental Quercus, Portugal aumentou em 40 por cento as suas emissões de gases com efeito de estufa (GEE) entre 1990 e 2005, quando, no âmbito do Protocolo de Quioto, estava autorizado a aumentar apenas 27 até ao período de 2008/2012. “O sector que mais contribui para este excesso é o da energia, que representava 72,2 por cento das emissões em 2004”, diz, sublinhando que “os transportes, a produção de electricidade a partir de combustíveis fósseis e a indústria são os principais responsáveis”.




este momento, as mudanças climáticas já se fazem sentir por todo o lado. Em Portugal, as consequências do efeito de estufa “são muitas, com tendência para se agravarem”, assegura Hélder Spínola. “Por exemplo, o Inverno de 2004/2005 foi o mais seco dos últimos 75 anos, o que, juntamente com a baixa precipitação nas restantes estações, conduziu em 2005 à situação de seca mais grave dos últimos 60 anos.” O Verão de 2005 foi também o mais quente neste período, acrescenta, lembrando que desde 1989 que esta estação do ano vem registando temperaturas superiores à média. “A redução dos níveis de precipitação, o aumento da temperatura e da frequência e intensidade de fenómenos meteorológicos extremos como a seca e as ondas de calor traduzem já as manifestações das alterações globais do clima no território português.” As mudanças no regime de cheias e secas, assim como a qualidade e disponibilidade da água, o aumento do risco de incêndios e as perturbações ecológicas – as quais podem conduzir a mudanças na dinâmica de transmissão de doenças infecciosas – e, finalmente, a intensificação do processo erosivo, nomeadamente na orla costeira, são, segundo o ambientalista, “alguns dos principais impactes das alterações climáticas no nosso país”. E assegura: “Muitas delas já se fazem sentir.”

O lixo que fazemos

Cada habitante produz por dia cerca de 1,2 kg de lixo

Lisboa e Vale do Tejo e o Norte são as regiões onde há as maiores produções de resíduos, com 38 e 33 por cento

Em 2004, a taxa de reciclagem de resíduos de embalagens foi de 41 por cento. Os plásticos apresentaram a taxa de reciclagem mais baixa (11 por cento) e as de madeira a mais alta (66 por cento). As de papel/ cartão ficaram pelos 56 por cento e as de vidro 39 por cento
A água cobre quatro quintos da superfície da Terra, encontrando-se principalmente nos oceanos e calotas polares que, agora, devido às mudanças climáticas em curso, começam a derreter. Apenas uma ínfima parte é potável. Ou seja, pode ser usada para consumo, tendo origem na superfície da Terra – em rios, lagos e ribeiros – ou em lençóis de água subterrânea.

A água não é muita e pode mesmo esgotar-se. Aliás, os últimos 50 anos aceleram este processo, o que resulta da junção de factores como o aumento da população, o aquecimento global e a má gestão dos recursos hídricos. O incremento populacional da última metade do século, por exemplo, levou a que o consumo de água aumentasse drasticamente em todo o mundo. Para responder a esta procura, construíram-se barragens, sacrificando deltas fluviais e várias espécies, enquanto os rios e os solos seguiram contaminados por detritos urbanos, industriais e agrícolas. Os rios e as águas costeiras portuguesas continuam a ter grandes problemas de poluição, apesar dos “grandes investimentos” efectuados nas últimas décadas em Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETARs), garante o presidente da Direcção Nacional da Quercus. No ano passado, “46 por cento das águas superficiais monitorizadas apresentaram qualidade má ou muito má, com problemas particularmente graves nos rios Lis, Ave e Leça”, explica, sublinhando que “cerca de metade das águas residuais produzidas não têm o tratamento adequado”. Se Portugal não corrigir a situação, “arrisca-se a ser condenado pelo Tribunal Europeu de Justiça”.

Para grandes males, grandes remédios

Conheça a solução de alguns cientistas para o efeito de estufa. Realidade ou pura ficção? Alguns nunca foram testados.

Substituir as fábricas termoeléctricas por nucleares. As segundas produzem a mesma quantidade de energia mas menos dióxido de carbono. O problema é que produzem lixo radioactivo, além dos riscos associados a acidentes nas suas centrais

Abrir um imenso guarda-sol no espaço para colocar a Terra à sombra. O projecto, do astrónomo Roger Angel, visa bloquear parte dos raios solares que chegam à Terra através da colocação de um gigantesco escudo protector em órbita. A solução acarreta custos superiores aos de resolver o problema na sua origem: reduzir os gases de estufa através da implementação integral das energias alternativas

Pulverizar a estratosfera com enxofre, de forma a criar uma camada que filtre a radiação solar. Paul Crutzar, prémio Nobel da Química, concebeu o projecto cujo inconveniente é o facto de reduzir a camada de ozono

Multiplicar o fitoplâncton, propõe o americano John Martin. A estratégia é estimular o crescimento de algas microscópicas (absorvem parte considerável do dióxido de carbono) através da fertilização dos oceanos, adicionando-lhes sulfato de ferro. Contudo, o que se retiraria de dióxido de carbono não seria suficiente para resolver o problema do efeito de estufa

Injectar água nas nuvens. O projecto do Nacional Centre for Atmospheric Research, dos Estados Unidos da América, e da Universidade de Edimburgo, na Escócia, pretende “pulverizar as nuvens sobre o oceano” com pequenas gotas de água salgada, de forma a aumentar a sua capacidade de reflectir os raios solares
Mas se as políticas governamentais não são as mais adequadas para poupar este bem esgotável, também nós, individualmente, temos uma parcela de responsabilidade, pois insistimos em desperdiçar a água que utilizamos diariamente na higiene e tarefas domésticas. “Continuamos a ter grandes desperdícios na distribuição e consumo de água, quer para o consumo humano quer para a rega no sector agrícola”, concorda o ambientalista, esclarecendo a este propósito: “Estima-se que a eficiência na utilização da água é de apenas 58 por cento, o que significa que quase metade deste recurso precioso é desperdiçado.”




desertificação é outra das formas de deterioração do ambiente, que ameaça a saúde e a subsistência de muitos milhões de pessoas em todo o mundo. A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação definia-a como “a degradação da terra em zonas áridas, semi-áridas e sub- -húmidos secas resultantes de factores diversos, tais como as variações climáticas ou por acção do homem”. Desde 1996 que este organismo internacional vem alertando para o problema e, mais tarde, declara 2006 como o Ano Internacional dos Desertos e Desertificação.

Um terço do território continental português é passível à desertificação, devido a factores climáticos, à fragilidade dos solos e relevo. As secas, os incêndios florestais e a erosão do solo, assim como a degradação dos recursos hídricos, são também manifestações claras da desertificação. Para fazer face ao problema, Portugal criou, em 1999, o Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (PANCD), cujo objectivo é, entre outras coisas, “a conservação do solo e da água e recuperação das áreas afectadas”. Só que, cinco anos depois, “continua, em grande parte, por implementar”, diz Hélder Spínola.




facto de ter havido menos incêndios ao longo de 2006 não chega, por si só, para fazer frente a mais este problema. “A desertificação continua a avançar e atinge já os 36 por cento do território, com particular incidência no interior e no sul do país”, prossegue, explicando que “o cenário tende a agravar-se com as alterações ambientais”. Por isso, deixa o alerta: “É cada vez mais urgente evitar os incêndios florestais, a ocupação desregrada do território, as práticas agrícolas lesivas para o solo e a má gestão da disponibilidade de água no território.”

Que destino damos ao lixo que fazemos? Até há pouco tempo, as soluções mais comuns eram o aterro sanitário e a incineração, ambas prejudiciais para a saúde e o ambiente. Felizmente, a reciclagem vai ganhando pontos, graças a uma maior sensibilização da população para o efeito.

De acordo com a Quercus, em 2005, cerca de 65 por cento dos resíduos urbanos (RU) produzidos em Portugal continental tiveram como destino o aterro sanitário, 20 a incineração, 8 a recolha selectiva multimaterial e 7 por cento a valorização orgânica. Hélder Spínola explica que estes valores ficaram “aquém das metas estabelecidas” para este mesmo ano, “que apontavam para que fossem atingidos 25 por cento através da valorização orgânica e 25 através da recolha selectiva multimaterial”.


No ano de 2003, segundo a mesma fonte, a análise da composição física média dos resíduos urbanos revelava que a fracção biodegradável, isto é, a matéria orgânica e o papel/cartão, contribui com mais de metade dos mesmos (61 por cento), valor este “que revela a necessidade de ser dada prioridade à valorização orgânica – compostagem e digestão anaeróbia –, em detrimento da eliminação em aterro. Complementarmente, os restantes componentes, como os plásticos, o vidro e a madeira deverão ser preferencialmente encaminhados para a reciclagem”.

Apesar da reciclagem se apresentar como a solução mais inofensiva, pois dá utilidade ao lixo que fazemos, e com isso estamos a poupar matérias-primas e energias, a medida mais sustentável é mesmo aderir ao chamado princípio dos 3 R. O que, na prática, passa por reduzir o uso de produtos que envolvam substâncias tóxicas e que facilitem grande produção de lixo; reutilizar, o que implica a opção por produtos de longa duração; e, finalmente, reciclar, separando criteriosamente o lixo e depositando-o nos recipientes apropriados, os Ecopontos. Com esta preocupação crescente que nos convida a ser conscientes e a ter cuidados especiais na nossa relação com o ambiente, talvez ainda possamos ir a tempo de salvar a Terra.


Saiba tudo sobre os materiais que usa no dia-a-dia

Plástico
É feito a partir de diversas matérias não renováveis, como o petróleo, as quais são submetidas a tratamentos específicos que visam impedir a sua decomposição sob o efeito da luz e do calor
A tinta utilizada para a impressão de sacos contém cádmio, um metal pesado e tóxico. Quando queimados, libertam metais pesados para a atmosfera
Não é degradável. E mesmo os que são biodegradáveis nunca desaparecem completamente. A sua fabricação implica elevados custos de energia e matérias-primas
Reduza ao máximo o seu uso, optando, por exemplo, por sacos de rede ou pano quando vai às compras. No final, reutilize o plástico

Papel
Normalmente usa-se a madeira na composição do papel, apesar da celulose-base se poder obter a partir de substâncias vegetais (algodão, linho, palha e cereais). Esta é sempre submetida a processos químicos que a convertem em pasta de papel e, depois, em papel
Para obter a matéria-prima (madeira) é preciso sacrificar zonas florestais. Por outro lado, o fabrico do papel implica muitos gastos de energia e água e é bastante poluente para os rios e mares
Na reciclagem, deposite os jornais e as caixas no recipiente certo. E, sempre que possível, opte pelo papel reciclado.

Vidro
É composto essencialmente por areia e carbonato de sódio. A sua produção representa elevados custos energéticos
A extracção das areias necessárias para o seu fabrico tem acelerado a destruição de ecossistemas ribeirinhos. Por outro lado, o vidro leva muito tempo a decompor-se e é um poderosíssimo foco de incêndio
A reutilização dos objectos de vidro, dando-lhe novas utilidades, é a melhor forma de reduzir o seu impacto

Alumínio
Para produzir uma pequena quantidade de alumínio são necessárias várias toneladas de bauxite, um mineral que é extraído das minas
Além da extracção de bauxite poder provocar danos na paisagem, a produção deste metal implica elevados gastos energéticos e consumo de água. Finalmente, a sua extracção e refinação lança óxido de azoto e dióxido de enxofre na atmosfera e produz lamas
Reduzir ao máximo o uso do alumínio no seu dia-a-dia e, depois, levar a reciclagem a sério, colocando as embalagens no recipiente correcto

Pilhas
Contêm metais pesados: o cádmio e sobretudo o mercúrio – uma matéria altamente tóxica que se transformou num dos maiores focos de contaminação de depósitos de lixo
Quando lançadas nas lixeiras, as pilhas vão vertendo estes dois metais e contaminando os solos por muitos anos. Queimadas, juntamente com outros lixos, os metais entram na atmosfera. A exposição prolongada ao mercúrio afecta a saúde, podendo ainda perturbar o comportamento humano
Pilhas, só no “pilhão”. Quando comprar novas, prefira as recarregáveis e de baixo teor de mercúrio

O que é que faz para salvar o planeta Terra?

Xana Nunes, empresária
“Não gastar água demais ou não deixar a porta do frigorífico aberta são apenas alguns dos hábitos que cultivo em casa e já se tornaram naturais na família. Reciclo o papelão, o vidro e as pilhas e tento usar o carro o menos possível, preferindo andar a pé. De qualquer forma, tenho a preocupação de usar a gasolina menos poluente. Por fim, e normalmente, assino os meus e-mails com a seguinte mensagem: ‘Antes de imprimir este e-mail, pense bem se tem mesmo que o fazer. Há cada vez menos árvores.’ Além disso, faço por ter pensamentos positivos e por eliminar energias negativas, de forma a que o espaço que me envolve seja também ele positivo e contagiante. Salvar o planeta também pode passar por aí.”

João Reis, actor
“Separo o lixo para reciclagem, que é algo facílimo de fazer, e quando estou a tomar o banho ou a barbear-me, tenho a preocupação de fechar a torneira sempre que não estou a precisar de água. Também tenho cuidado com a escolha dos detergentes, optando pelos menos poluentes, ou seja, as marcas que têm preocupações ambientais.”

Alerta vermelho

Os sinais do aquecimento global já estão aí, influenciando o ritmo normal da temperatura e o comportamento da vida animal:

Temperaturas altas para o Inverno provocam fenómenos invulgares: há besteiras em flor nas montanhas da Hungria e outras flores primaveris nos Alpes e em Moscovo

Com a Primavera a chegar cada vez mais cedo, as borboletas americanas são obrigadas a voar para Norte à procura de temperaturas mais frescas para porem ovos

Os ursos da cordilheira norte de Espanha recusaram-se a hibernar este Inverno

As abelhas inglesas não querem adormecer. Em vez disso, continuam à volta das flores, cujo botões floriram antes do tempo previsto

Em Fevereiro de 2006, em Tinduf, no Saara, as inundações destruíram grande parte das colheitas e obrigaram a deslocação de 60 mil pessoas

Desde 1659 que o Reino Unido não vivia um Outono tão ameno como o de 2006













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