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Margarida, uma escritora Pop
Por Ana Paula Lemos

Margarida Rebelo Pinto é a escritora que mais vende em Portugal. Dela já de disse muito mas o que ainda ninguém disse clara e inequivocamente é que Margarida conta muito bem uma estória. Quem me explicou a sua vertente contista foi um homem que fez referência na edição portuguesa.

Durante mais de trinta anos trabalhou para grandes editoras portuguesas. Só não digo quem ele é porque nunca lhe pedi autorização para o fazer. Mas, asseguro-vos que a edição nacional deve-lhe muito.

Margarida Rebelo Pinto editou vários livros, dos quais, dois, tiveram uma importância crucial para o lançamento da sua actividade como escritora e para o estudo da sua obra. Um livro foi o Sei Lá, vencedor do Prémio Fnac 1999 que conta já com 130 mil exemplares vendidos. O outro, Não Há Coincidências, vai na sua 33 º edição e já vendeu 140 mil exemplares. Nesta entrevista electrónica falámos de tudo um pouco mas sobretudo da escritora, uma mulher com 35 anos, que ama e vive apaixonadamente.

Margarida escreve desde os sete anos e, segundo nos explicou, sempre soube que ia ser escritora apesar de ter "precisado" do olhar atento de António Alçada Baptista para ter a certeza de que o sonho era possível. Foi esta mulher sensível e atenta, escritora por vocação, determinada nas suas opções que aceitou responder às perguntas que lhe formulamos. Sem pretensões...

1. Quando descobriu que conseguia contar "estórias" - o que é que sentiu?

Sempre contei histórias a mim própria. Quando tinha 7 anos, fiquei bastante doente; tive uma febre reumática que me obrigou a ficar de cama um Verão inteiro e durante três anos não podia correr nem brincar como as outras crianças, então imaginava um mundo só meu, onde era tudo como eu queria. Por isso contar histórias começou por ser um exercício de abstracção do real.

Depois, quando comecei a ensaiar um livro - fiz isso muitos anos antes de publicar o Sei Lá, fazia-o desde os 13, 14 anos - fui adquirindo esse sentido de contadora e isso sempre me deu uma alegria imensa, secreta. Eu sabia que queria ser escritora. mais; eu sabia que ia ser escritora.

2.A sua escrita é o resultado de uma análise social? Ou as questões vêm de dentro para fora?

As duas coisas. Como sou uma esponja, um radar, ando sempre a observar tudo mas o conceito de cada livro - e cada um obedece a uma e só uma ideia - tem a ver com as minhas preocupações mais profundas. O que se passa é que numa leitura mais rápida, as pessoas retêm o superficial. Numa leitura mais atenta, as pessoas apanham outro tipo de coisas.


3.Com que livro ou em que momento é que percebeu que se ia tornar uma escritora profissional?

Acho que foi quando o António Alçada Baptista me encorajou com muito
entusiasmo depois de ter lido os primeiros capítulos do Sei Lá, em 1996, quando o meu filho ainda tinha meses, por isso foi mais ou menos há sete anos. Até aí eu sabia o que queria, mas ainda não tinha materializado nenhum projecto a ponto de decidir dedicar-me e termina-lo para que ganhasse a forma de um livro.

4.Pode falar-nos da intimidade da escrita...Escreve de uma forma metódica? Todos os dias? Sofre quando escreve ou escreve porque sofre?

Escrevo quase todos os dias da semana, sempre de manhã, depois de ter ido levar o meu filho à escola. Não escrevo ao fim de semana e tento não escrever nas férias. Mas ando sempre a tirar notas, não consigo desligar a cabeça e isso às vezes torna-se insuportável. Felizmente há o Lourenço - o meu filho - os meus amigos que são um caso de amor na minha vida, os meus pais, irmãos, sobrinhos...vivo muito para os outros e acho que isso é o meu ponto de equilíbrio para não mergulhar num mundo só meu, como tantas vezes acontece aos escritores.

Claro que escrevo porque sofro, mas também escrevo pelo puro prazer da
escrita, porque não sei fazer mais nada, porque se não escrevesse, a minha cabeça estoirava e era uma grande chatice. Mas às vezes sofro, porque quando invento ou revivo situações dramáticas, torna-se um bocado pesado. É como com os actores; tenho que vestir a pele da personagem nem sempre é um processo pacífico, sobretudo se eu a odiar!

5.Enquanto escreve houve música?


Sempre. Geralmente oiço jazz, Keith Jarrett, Chet Baker, Billie Holiday,Lisa Ekdhal, Ella Fitzgerald. Mas também oiço música portuguesa, Eugénia Melo e Castro, Pedro Abrunhosa, Jorge Palma, GNR, Ornatos Violeta. Às vezes, oiço música clássica, mas é menos habitual.

6. Diz-se uma escritora Pop - explique-me melhor...

A arte pop tem a ver com a massificação da sua expressão. É a arte por um lado que utiliza elementos vulgares, comuns e conhecidos por toda a gente e por outro que é acessível a todos.


7. Tem a convicção que criou um novo género literário ou afirma sem qualquer equívoco que "ninguém escreve como eu..."?

Não tenho nenhum tipo de convicções desse género. Cada um escreve como quer, sabe e pode.

8.Experimenta não fazer nada muitas vezes?

Agora cada vez mais, porque como não consigo desligar a cabeça, tento
distrair-me com ginástica, passeios a pé, idas ao cinema, esse tipo de
coisas. Só há dois tipos de situações em que de facto consigo desligar: quando estou a brincar com o Lourenço ou quando estou apaixonada.

9.Vai ao cinema? E ao teatro?

Vou, mas não tanto quanto gostaria, porque acho que o fim da tarde e a noite são do Lourenço, por isso selecciono muito. Mas vou com certeza à estreia da minha peça! Mas acabo por comprar imensos Dvd's para pôr os filmes em dia.
Mas passo a maior parte do tempo livre a ler, é um vício.

10.Qual é o escritor que mais gosta? Ou que género de literatura mais aprecia?

Não tenho nenhum eleito, tenho vários que gosto muito, como o Lobo Antunes, o Alexandre o'Neill, o Jorge Amado, o Borges, o Graham Greene, sei lá, nunca mais acabo. E depois tenho outros que me vão conquistando, como o Possidónio Cachapa, o Mike Gayle. Mas é difícil enumerar, porque não gosto de escolher! Escolher significa eliminar e não posso deixar de fora a Sophia de Mello Breyner, o José Agostinho Baptista, o Al Berto o William Boyd, o Eça, o Camilo, a Florbela Espanca, o Mário Zambujal e tantos outros.

11.Que livro está a escrever?

É segredo. Estou muito entusiasmada, mas ainda é cedo para falar. Mas é sobre a nova geração, a que está agora em plena adolescência.


12.É a escritora que mais vende em Portugal - qual é a razão do seu sucesso?

Outra vez esta pergunta!!! Porque é que não a fazem aos meus leitores? Não era má ideia...

13. A vida emocional tem uma enorme importância na sua obra - está apaixonada?

Estou sempre apaixonada. Sempre. Pelo meu trabalho ,pelo meu filho, pelos meus pais, pelos livros e discos que amo, pelos meus amigos e amigas, pelas viagens que vou fazendo. Vivo tudo com paixão.

14.Mesmo a forma como se veste procura ser uma afirmação da sua
individualidade. É verdade?

Nunca pensei nisso! Gosto de me sentir confortável e feminina. E claro, gosto de coisas boas. Mas sou pela simplicidade acima de tudo. Uns jeans e uns ténis são mais ou menos uma farda.

15.O seu filho já leu algum livro seu?

Já leu as crónicas e mini ficções que falam dele e gosta de as reles com frequência. Mas ainda é muito pequeno para ler os romances, afinal só tem sete anos.

 



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