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Margarida Rebelo Pinto editou vários livros,
dos quais, dois, tiveram uma importância crucial para o lançamento
da sua actividade como escritora e para o estudo da sua obra.
Um livro foi o Sei Lá, vencedor do Prémio Fnac 1999 que conta
já com 130 mil exemplares vendidos. O outro, Não Há Coincidências,
vai na sua 33 º edição e já vendeu 140 mil exemplares. Nesta
entrevista electrónica falámos de tudo um pouco mas sobretudo
da escritora, uma mulher com 35 anos, que ama e vive apaixonadamente.
Margarida escreve desde os sete anos e, segundo nos explicou,
sempre soube que ia ser escritora apesar de ter "precisado"
do olhar atento de António Alçada Baptista para ter a certeza
de que o sonho era possível. Foi esta mulher sensível e atenta,
escritora por vocação, determinada nas suas opções que aceitou
responder às perguntas que lhe formulamos. Sem pretensões...
1. Quando descobriu
que conseguia contar "estórias" - o que é
que sentiu?
Sempre
contei histórias a mim própria. Quando tinha
7 anos, fiquei bastante doente; tive uma febre reumática
que me obrigou a ficar de cama um Verão inteiro e durante
três anos não podia correr nem brincar como as
outras crianças, então imaginava um mundo só
meu, onde era tudo como eu queria. Por isso contar histórias
começou por ser um exercício de abstracção
do real.
Depois, quando comecei a ensaiar um livro - fiz isso muitos
anos antes de publicar o Sei Lá, fazia-o desde os 13,
14 anos - fui adquirindo esse sentido de contadora e isso
sempre me deu uma alegria imensa, secreta. Eu sabia que queria
ser escritora. mais; eu sabia que ia ser escritora.
2.A sua escrita é o resultado
de uma análise social? Ou as questões vêm
de dentro para fora?
As duas coisas. Como sou uma esponja,
um radar, ando sempre a observar tudo mas o conceito de cada
livro - e cada um obedece a uma e só uma ideia - tem
a ver com as minhas preocupações mais profundas.
O que se passa é que numa leitura mais rápida,
as pessoas retêm o superficial. Numa leitura mais atenta,
as pessoas apanham outro tipo de coisas.
3.Com que livro ou em que momento é que percebeu
que se ia tornar uma escritora profissional?
Acho que foi quando o António
Alçada Baptista me encorajou com muito
entusiasmo depois de ter lido os primeiros capítulos
do Sei Lá, em 1996, quando o meu filho ainda tinha
meses, por isso foi mais ou menos há sete anos. Até
aí eu sabia o que queria, mas ainda não tinha
materializado nenhum projecto a ponto de decidir dedicar-me
e termina-lo para que ganhasse a forma de um livro.
4.Pode falar-nos da intimidade da
escrita...Escreve de uma forma metódica? Todos os dias?
Sofre quando escreve ou escreve porque sofre?
Escrevo
quase todos os dias da semana, sempre de manhã, depois
de ter ido levar o meu filho à escola. Não escrevo
ao fim de semana e tento não escrever nas férias.
Mas ando sempre a tirar notas, não consigo desligar
a cabeça e isso às vezes torna-se insuportável.
Felizmente há o Lourenço - o meu filho - os
meus amigos que são um caso de amor na minha vida,
os meus pais, irmãos, sobrinhos...vivo muito para os
outros e acho que isso é o meu ponto de equilíbrio
para não mergulhar num mundo só meu, como tantas
vezes acontece aos escritores.
Claro que escrevo porque sofro, mas também escrevo
pelo puro prazer da
escrita, porque não sei fazer mais nada, porque se
não escrevesse, a minha cabeça estoirava e era
uma grande chatice. Mas às vezes sofro, porque quando
invento ou revivo situações dramáticas,
torna-se um bocado pesado. É como com os actores; tenho
que vestir a pele da personagem nem sempre é um processo
pacífico, sobretudo se eu a odiar!
5.Enquanto escreve houve música?
Sempre. Geralmente oiço jazz, Keith Jarrett, Chet Baker,
Billie Holiday,Lisa Ekdhal, Ella Fitzgerald. Mas também
oiço música portuguesa, Eugénia Melo
e Castro, Pedro Abrunhosa, Jorge Palma, GNR, Ornatos Violeta.
Às vezes, oiço música clássica,
mas é menos habitual.
6. Diz-se uma escritora Pop - explique-me
melhor...
A arte pop tem a ver com a massificação
da sua expressão. É a arte por um lado que utiliza
elementos vulgares, comuns e conhecidos por toda a gente e
por outro que é acessível a todos.
7. Tem a convicção que criou um novo género
literário ou afirma sem qualquer equívoco que
"ninguém escreve como eu..."?
Não tenho nenhum tipo de convicções
desse género. Cada um escreve como quer, sabe e pode.
8.Experimenta não fazer nada
muitas vezes?
Agora cada vez mais, porque como não
consigo desligar a cabeça, tento
distrair-me com ginástica, passeios a pé, idas
ao cinema, esse tipo de
coisas. Só há dois tipos de situações
em que de facto consigo desligar: quando estou a brincar com
o Lourenço ou quando estou apaixonada.
9.Vai ao cinema? E ao teatro?
Vou, mas não tanto quanto gostaria,
porque acho que o fim da tarde e a noite são do Lourenço,
por isso selecciono muito. Mas vou com certeza à estreia
da minha peça! Mas acabo por comprar imensos Dvd's
para pôr os filmes em dia.
Mas passo a maior parte do tempo livre a ler, é um
vício.
10.Qual é o escritor que mais
gosta? Ou que género de literatura mais aprecia?
Não
tenho nenhum eleito, tenho vários que gosto muito,
como o Lobo Antunes, o Alexandre o'Neill, o Jorge Amado, o
Borges, o Graham Greene, sei lá, nunca mais acabo.
E depois tenho outros que me vão conquistando, como
o Possidónio Cachapa, o Mike Gayle. Mas é difícil
enumerar, porque não gosto de escolher! Escolher significa
eliminar e não posso deixar de fora a Sophia de Mello
Breyner, o José Agostinho Baptista, o Al Berto o William
Boyd, o Eça, o Camilo, a Florbela Espanca, o Mário
Zambujal e tantos outros.
11.Que livro está a escrever?
É segredo. Estou muito entusiasmada,
mas ainda é cedo para falar. Mas é sobre a nova
geração, a que está agora em plena adolescência.
12.É a escritora que mais vende em Portugal - qual
é a razão do seu sucesso?
Outra vez esta pergunta!!! Porque é
que não a fazem aos meus leitores? Não era má
ideia...
13. A vida emocional tem uma enorme
importância na sua obra - está apaixonada?
Estou sempre apaixonada. Sempre. Pelo
meu trabalho ,pelo meu filho, pelos meus pais, pelos livros
e discos que amo, pelos meus amigos e amigas, pelas viagens
que vou fazendo. Vivo tudo com paixão.
14.Mesmo a forma como se veste procura
ser uma afirmação da sua
individualidade. É verdade?
Nunca pensei nisso! Gosto de me sentir
confortável e feminina. E claro, gosto de coisas boas.
Mas sou pela simplicidade acima de tudo. Uns jeans e uns ténis
são mais ou menos uma farda.
15.O seu filho já leu algum
livro seu?
Já leu as crónicas e mini
ficções que falam dele e gosta de as reles com
frequência. Mas ainda é muito pequeno para ler
os romances, afinal só tem sete anos.
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