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Como definir o sentimento estranho que se apodera do turista que chega a Paris? Digamos que a cidade é um cocktail permanente, mas nem sempre há champanhe à vista. É uma festa “entre amigos”, com códigos para iniciados – que atinge o seu clímax na Place Vendôme. Quando der por si ali, com o seu jogging dominical, toque à campainha da Van Cleef and Arpels. Então, uma porta em vidro desliza, abre-se em silêncio sobre a carpete bege, fechando-se de novo atrás de si. Abre-se então uma segunda porta – e bem-vindo ao mundo dos “muito ricos”.
(Foi Scott Fitzgerald que estabeleceu a diferença, aparentemente simples, mas oh quão complexa, entre os “ricos” e os “muito ricos”). O atendimento será exemplar – pois todos sabem que por baixo de um jogging usado se esconde um milionário. Quem falou de crise? Visto daqui, Wall Street parece muito longe.
O nascimento
Estava-se em 1686, quando a construção do Palácio de Versalhes chegava ao seu termo – o arquitecto Le Brun superintendia a finalização da Galeria dos Espelhos. O aparato e o savoir-faire francês atingiam o seu exponente máximo: a magnificência da corte de Luís XIV encontrara o seu símbolo e tornara-se inigualável em toda a Europa. E, no entanto, nesse mesmo mo mento, que olhar lançava o grande moralista La Bruyère sobre a cidade de Paris? “É a capital de um reinado sem praças públicas, nem banhos, nem fontes, nem anfiteatros, nem galerias, nem pórticos, nem passeios...” Chegara a altura de Luís XIV satisfazer as exigências de uma elite intelectual e financeira, que recusava deixar Paris para se instalar em Versalhes. Foi então que o rei voltou as suas preocupações para o que só mais tarde se chamaria o urbanismo. A Praça Vendôme nasceu com um intento claro: glorificar Luís XIV, “o maior rei do mundo”. Ela é o protótipo da dita Praça Real: um conjunto de edifícios simétricos, arquitecturalmente ordenados em torno da efígie do Príncipe Regente, que acolhe um universo fechado e selectivo. Quando o Rei-Sol inaugurou a sua estátua equestre instalada no centro da nova praça, os palacetes sumptuosos que o envolviam eram apenas… fachadas. Por detrás delas, nada havia sido construído ainda.
Foi preciso aguardar 1699 para que a aristocracia e a alta burguesia ligada à finança começassem a instalar-se nos edifícios recentemente inaugurados. Desde logo, os novos habitantes da Praça rivalizam entre wsi e, nos salões, discute-se: quem possui a melhor mobília, a mais rica decoração? O Marquês de Marigny? O Barão de Thiers? O próprio Luís XV se deslocava até à Place Ven dôme para admirar os Titien, Veroneses e Van Dycks das colecções par ticulares. A partir do século XVIII, a Praça torna-se pois no principal centro cultural e financeiro da cidade. Nos andares ditos “nobres” vivem as grandes figuras da finança, que no rés- -do-chão instalam escritórios e balcões. Durante a Revolução Fran cesa, a cabeça de muitos deles acabará espetada numa haste de madeira e assim será exibida na Praça… Foi um milagre os palacetes terem sido poupados à ira da população. Só a estátua do Rei-Sol rolou até ao chão.
Vida nova
Com a chegada de Napoleão I ao poder, uma nova coluna habita o centro da Praça – tem 44 metros de altura e é feita com o bronze derretido de 1200 canhões vencidos na Batalha de Austerlitz. No cimo da coluna, vemos Napoleão, triunfante, o tom está dado para a ressurreição daquela que viria a ser conhecida como “a mais parisiense das praças”.
Desde o início do século XIX, a Praça é pois invadida por uma vida nova. Os grandes costureiros, transferindo-se para a ala oeste de Paris, instalam-se na Praça: Worth e Paquin vestem as cortes mais importantes da Europa cujas caleches desfilam face aos palacetes. Aos poucos, também os grandes joalheiros elegem a Praça como vitrina. As recepções e bailes sucessivos na Corte Imperial, onde a alta sociedade francesa cruza a aristocracia Russa, impõem a necessidade da renovação das jóias de família exibidas em sociedade. Boucheron, Cartier, Chaumet abrem na Place Vendôme sucessivamente as suas lojas, onde conquistam uma clientela exigente com criações inspiradas em viagens longínquas ao Oriente. Muitas destas altas-joalharias instalam ateliers e artesãos nos andares superiores – tradição que ainda hoje algumas destas casas mantêm.

Alejandra di Andia
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Elsa Maxwell

Coco Chanel |
MITOS
“Quer uma jóia da Cartier? Não, prefiro uma festa no Ritz!”, dizia a socialite americana Elsa Maxwell. Ritz é a palavra que estala como uma bola de champanhe. Coco Chanel chamou-lhe home sweet home. Por que motivo vamos ainda hoje ao Ritz? O mais certo é depararmos com uma espécie de zona residencial para ricos, altamente securizada, frequentados apenas por clientes de passagem que pensam em cálculos e especulação.
Nos anos 80, o filósofo Deleuze denunciava a pobreza da cultura em que vivíamos, prenunciando uma época próxima, mais rica. Aguardemos pois. “A frivolidade é a mais bela resposta à angústia”, dizia Cocteau. Com que melhor palavra definir a Place Vendôme? Ela é a frivolidade feita monumento, fixada nas pedras preciosas das jóias, no ouro do Ritz – e no bronze derretido dos canhões.
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