
|
O que leva uma jovem de 20 anos a oferecer-se como bombista-suicida por uma causa? A palestiniana Arin Awad Ahmed esteve em Portugal e explicou-nos.
Por Mariza Figueiredo
|
|
A missão
No dia 22 de Maio de 2002, Arin Awad Ahmed, de 20 anos, e o jovem Issam Badir, de 16, foram deixados numa zona movimentada da cidade israelita de Rishon LeZion, onde estavam maioritariamente civis. Cada um levava uma mochila com 35 quilos de explosivos. O plano era separarem-se e, depois de Issam Badir accionar a sua bomba, Arin premir o botão que a levaria a explodir assim que as pessoas começassem a correr na sua direcção, a fugir do atentado perpetrado pelo rapaz.
Mas antes de darem início à sua missão, Arin e Issam sentaram-se numa praça. Lado a lado e em silêncio, observavam o movimento. Preparavamse para morrer e matar. E não foi preciso muito tempo até que Arin quebrasse o silêncio. De forma breve, informou Issam de que não iria avançar. Trocaram poucas palavras e separaram- se. Issam partiu com algumas dúvidas. Disse que ia dar uma volta e logo veria o que faria.
Arin tentou ligar aos membros do movimento armado que organizaram o ataque. Queria informá-los de que não levaria adiante a sua missão. Não obteve resposta. E na mesma praça onde foi deixada, ficou à espera. Foi um par de horas até conseguir que a atendessem. E outro longo período até convencê-los de que, de facto, não avançaria. Deixando para trás a mochila armadilhada, Arin foi para casa. Mais tarde veio a saber que Issam Badir efectivamente accionou a sua bomba. Três pessoas foram mortas e dezenas ficaram gravemente feridas. Uma semana mais tarde, Arin era presa pela polícia israelita.
O passado
Arin Awad Ahemed nasceu e vive nos arredores de Belém. Órfã de pai quando ainda era bebé, viu a mãe partir para reconstruir a sua vida na Jordânia, mas assegura que cresceu feliz, cuidada pela avó e por algumas tias.
Aos 20 anos, era uma estudante universitária. A ocupação israelita era fonte de revolta para a sua geração, mais acirrada pela segunda Intifada, em que os conflitos, as mortes e a repressão eram ainda mais intensos. Arin não pertencia activamente a qualquer grupo armado. Mas quem não tinha alguém próximo envolvido directamente no conflito?
Numa certa tarde, após o que alguns meios de comunicação israelitas referem ter sido o dia da morte do seu namorado, um membro activo do grupo armado Tanzim, Arin decidiu fazer chegar a mensagem aos responsáveis daquela organização de que estava disposta a combater a ocupação israelita, a ser uma shahid, uma mártir. Não foi preparada nem treinada. Em poucos dias foi informada de que participaria num atentado suicida.
O presente
Lisboa, 3 de Dezembro de 2009. Arin Awad Ahmed desembarca em Portugal. É a primeira vez que deixa a Palestina e que fala em público sobre a sua história. O tempo e a prisão não foram suficientes para serenar a sua revolta. Ela está presente no seu discurso e no seu olhar. No nosso encontro, insiste em falar em árabe, a sua língua: “Assim expresso-me com mais precisão.”
| |

MULHERES NO CONFLITO
• De todos os atentados suicidas palestinianos em Israel, 78 foram realizados por mulheres
• Wafa Idriss, enfermeira, de 28 anos, foi a primeira
• Arin Awad Ahmed foi a única, de que se tem notícia, a desistir a meio
• As que actualmente se encontram detidas foram presas antes de efectuar o atentado
|
|
O que leva uma jovem informada e com formação superior a oferecer- -se para uma acção tão extrema?
Em primeiro lugar, parece importante explicar o que para mim significa esta expressão ‘bombista suicida’. Um atentado é um acto nacional contra a ocupação, porque na minha idade eu não podia levar a minha vida quotidiana como as demais pessoas faziam e fazem no resto do mundo. Isto devese a uma ocupação em que as acções militares do exército israelita são de matança de inocentes, de ocupar e confiscar na nossa terra, de não nos deixar levar uma vida normal, nem sequer permitindo que saiamos de casa. Cheguei a frequentar a universidade em Ramalah, mas puseram obstáculos que não nos permitiam ir estudar. Inclusivamente não podíamos escolher determinados temas. O que é que esperava que fizesse? Se não podíamos sair de casa livremente e a situação económica à nossa volta era caótica, quando vemos os vizinhos a serem mortos à nossa frente, o que vamos dizer? Ver todas essas imagens e estar sob estas condições tão más empurra-nos a querer fazer alguma coisa para mudar a realidade, para dar um futuro melhor aos nossos filhos. E em todo o mundo não se fez nada para evitar esta ocupação…
Quais eram os seus sentimentos?
Ódio da força militar ocupante agressiva do nosso território, a contestar em força contra a força. Parece uma reacção normal para uma pessoa que vive subjugada a estas acções agressivas.
Estes sentimentos aproximaramna de grupos armados como o Tanzim?
Era um membro activo deste grupo, simpatizante? Não era preciso ser próxima do Tanzim, esta é uma organização em que temos familiares e amigos. Os seus membros são parte deste povo que se encontra sob ocupação.
O que a fez oferecer-se como voluntária?
Li na imprensa internacional que foi pela morte de uma pessoa próxima, o seu namorado. Foram as circunstâncias. Queria mudar aquela realidade. A ocupação da Igreja da Natividade, em Belém, que resultou na morte de tantas pessoas e na prisão de outras tantas, e os 40 dias em que lá fomos mantidos como reféns. Assim como a opressão dos jovens. Não nego que houve um amigo, muito próximo, que foi morto. Tudo isso me fez tomar esta decisão, pensar que tinha o direito de lutar para levantar a opressão e acabar com a ocupação.
Ou seja, o que a moveu foi uma questão mais política que religiosa?
A base de tudo implica tantas explicações… e não é uma questão religiosa. Faço questão de sublinhar que havia jovens cristãos entre os resistentes, que contestam a ocupação como nós, pois a nossa meta é acabar com a ocupação israelita. E somos um povo unido.
Foi isto que moveu outros bombistas suicidas, como o rapaz que participou na acção consigo?
Creio que a razão é uma razão nacional. Muitos dos atentados ocorreram na época da ocupação, quando entravam nas cidades palestinianas. É preciso sublinhar isso. Eu nasci muçulmana, poderia ter feito um atentado quando era mais jovem, mas não o fiz. Isso demonstra que é um conflito político e não religioso. Os atentados foram um resultado da ocupação do nosso território.
O que a fez mudar de ideia e não explodir?
A minha cultura e a minha educação não me permitiram fazê-lo. Não podia reagir exactamente como faziam connosco. Fui educada a não fazer o mal aos outros como fazem connosco. A nossa religião educou-nos a respeitar os outros, as demais religiões monoteístas que existem na nossa terra santa – o cristianismo, o judaísmo e o islão. Do nosso inimigo, conheço muito bem a ideologia de ocupação. E não podemos imitar esta ideologia.
Sete anos passaram, esteve na prisão. O que vê quando olha para trás no tempo?
No passado, a agressão sempre trouxe outras agressões. Nós, palestinianos, contestámos a força com força também. Agora, acreditamos nas negociações. Estamos dispostos a negociar se os israelitas aceitarem, se não se negarem a realizar negociações de paz. Negandose, isso pode levar-nos a um ponto de perder a esperança – e se tal acontecer, pode ser perigoso. Pedimos que a comunidade internacional faça parar Israel. Pedimos que façam mais pressão sobre Israel, que nos dêem o direito de estabelecer o nosso Estado Palestiniano Independente. Negociações implicam comunicação entre os dois povos. Co - mo podemos ter esta comunicação se temos um muro a separar-nos?
O que vai fazer da sua vida?
Acredito que continuarei os meus estudos. Economia é a licenciatura que escolhi e é um tema distante da política. Mas temos de ter muito claro que a política é um negócio.
|

|

|