
Escândalos em Hollywood… O argumento repete-se desde a idade de ouro das cronistas mundanas. Mas as rainhas dos mexericos legaram o seu trono a uma geração de editorialistas cada vez mais trash, para quem todos os meios são lícitos. Quem são estes reis dos mexericos que enlouquecem o planeta people?
POR EMMANUELLE RICHARD |
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Marilyn Monroe experimentando uma nova droga chamada LSD com Timothy Leary em Venice Beach; Lana Turner surpreendida na cama com Frank Sinatra pela mulher deste, Ava Gardner; Cary Grant sentado no luxuoso Polo Lounge, em Beverly Hills, de mãos dadas com o belo cowboy de westerns, Randolph Scott… Como, não sabia?!
As origens do gossip
Se não sabia, é sem dúvida porque os espectros de Louella Parsons e Hedda Hopper ainda pairam sobre as colinas de Hollywood. Nos anos 40 e 50, estas duas pioneiras do gossip têm um acordo tácito com os grandes estúdios: encham-nos de bisbilhotices sobre starlets e actores de série B, e as supervedetas serão poupadas. A homossexualidade de Rock Hudson ou a dependência de anfetaminas de Judy Garland nunca virão à tona nas crónicas da poderosíssima Louella, conhecida como Olhos de Abutre, lida diariamente por 20 milhões. A sua arqui-rival de chapéus extravagantes, Hedda, antiga actriz e anticomunista acérrima, torpedeia Cary Grant por ter feito férias na União Soviética, mas abstém- se de revelar a sua bissexualidade. Meio século depois, os segredos da idade de ouro de Hollywood continuam a ser desvendados, ao passo que as celebridades de hoje não têm onde se esconder, com a imprensa cor-de- -rosa a servir os seus mais pequenos gestos a um público ávido de tutano: “Britney perde a cabeça e rapa o cabelo num salão de beleza!”, extasia-se o bloguista Perez Hilton, juntando o vídeo de um paparazzo. “Lindsay envia-nos um mail após a sua detenção jurando que as drogas encontradas no seu carro não lhe pertenciam!”, anuncia a cadeia de televisão Access Hollywood..
O novo cerco às celebridades
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O cocainagate de Kate Moss, em 2005 .
As imagens que deram a volta ao mundo. |
Ao contrário do que se pensa, as vedetas da actualidade não desaparecem após o seu quarto de hora sob os projectores. “Uma pessoa como Lindsay Lohan vai ser famosa toda a vida: é essa a natureza da nossa sociedade e dos meios de comunicação social, que integraram o gossip na informação”, comenta Perez Hilton, cujo site atrai mais de um milhão de visitantes diários. Em contrapartida, a tradição das grandes damas americanas da bisbilhotice (Liz Smith, Cindy Adams, Jeannette Walls...), a cujos ouvidos se segredam dicas nas recepções mundanas de Manhattan, está em vias de extinção. Estas rainhas da coscuvilhice refinada foram suplantadas por uma geração de gays irreverentes na Internet, de Ted Casablanca (The Awful Truth, www.eonline.com) a Perez Hilton.
Mas também estes estão ameaçados pelas grandes operações online colectivas de tom zombeteiro, como o Gawker ou o TMZ, actualizadas ao minuto por dezenas de jovens repórteres. Esta nova geração dispensa os intermediários habituais. Quando uma estrela está no Twitter ou existem algures testemunhas oculares, para quê perder horas a tentar contactar um porta-voz ou um agente de imprensa?
O top ten dos furos hollywoodescos
1. O anúncio da morte de Michael Jackson no sítio TMZ, a 25 de Junho de 2009
2. O filme da perseguição infernal a Britney Spears pelas ruas de Los Angeles, ao cabo da qual ela manda rapar a cabeça, na KABC TV, a 17 de Fevereiro de 2007
3. O anúncio da morte da playmate Anna Nicole Smith no sítio de Perez Hilton, a 8 de Fevereiro de 2007
4. As declarações anti-semitas de Mel Gibson – a polícia teria abafado o assunto – publicadas no sítio TMZ, a 28 de Julho de 2006
5. Kate Moss fotografada diante de uma linha de cocaína, na primeira página do UK Daily Mirror, a 15 de Setembro de 2005
6. O encontro romântico de Brad Pitt e Angelina Jolie em África, na revista People, a 9 de Maio de 2005
7. A separação de Tom Cruise e Nicole Kidman no New York Daily News, a 6 de Fevereiro de 2001
8. Hugh Grant, detido em Los Angeles com a prostituta Divine, no UK Independent, a 27 de Junho de 1995
9. As acusações de pedofilia contra Michael Jackson na primeira página do New York Post, a 23 de Agosto de 1993
10. A relação de Woody Allen com Soon-Yi, filha de Mia Farrow, no New York Post, a 20 de Agosto de 1992 |
Em 1998, o ciberjornalista Matt Drudge, que revelou no seu Drudge Report a relação entre Monica Lewinsky e Bill Clinton, iniciou uma nova era ao pedir aos internautas que lhe enviassem dicas. Surpreendentemente, muitas fontes passam informações de natureza confidencial aos meios de comunicação social sem pedir uma compensação financeira, explica a advogada das estrelas, Blair Berk, de Beverly Hills: “Dá-lhes uma sensação de poder.”
Os fins justificam os meios
Nos anos 50, sabia-se em Hollywood que o primeiro marido de Louella Parsons era o médico que tratava as doenças venéreas dos actores e fazia abortos às actrizes. Eram informações que ela não disseminava, mas que utilizava como meio de pressão no seu jogo de influências com os patrões dos estúdios. Hoje, toda a gente estaria ao corrente graças aos blogues de insiders como Crazy Days and Nights, mantido, diz-se, por um advogado de Hollywood irritado com os excessos dos seus clientes, e onde também intervém um seu amigo contabilista, que tem muitas histórias para contar sobre as bizarras deduções de impostos das estrelas...
Sítios como Radar, Gawker ou TMZ reconhecem que pagam para obter certas informações. À semelhança de Louella e Hedda que, no seu tempo, davam sub-repticiamente gratificações a barmen loquazes, Harvey Levin, do TMZ, confessou ter coberto toda a cidade de Los Angeles com centenas de fontes em restaurantes, hospitais (vejase o que aconteceu aquando da morte de Michael Jackson, em Junho) e até esquadras (a detenção de Mel Gibson em estado de embriaguez na marginal de Malibu, em 2006). Desde então, o xerife de Los Angeles está em guerra aberta com o TMZ e tudo tem feito para identificar as suas fontes policiais.
Uma escalada permanente
Como outrora, os reis do gossip estão dispostos a fazer algumas sões: se um agente de imprensa lhes suplica que não divulguem um escândalo, deverá fornecer “pelo menos duas boas dicas” para apaziguar Richard Johnson, redactor-chefe da Page Six. A célebre página dupla do New York Post fixou como limite os mexericos sobre crianças e doenças, mas já revelou o cancro do presidente de uma grande empresa, partindo do princípio de que os accionistas tinham o direito de saber. Depois de terem passado ao lado da cacha do século – a gigantesca burla de Bernard Madoff –, os profissionais da bisbilhotice têm de se superar.
Num retrato recente da temida bloguista Nikki Finke (autora de www.deadline.com), a New Yorker fremia de excitação: graças à Internet, constatava a revista, Hollywood volta a ser palco de uma concorrência jornalística desenfreada que já não se via desde o duelo entre Louella Parsons e Hedda Hopper. “As pessoas falam comigo porque é assim que funciona”, confirmava Nikki Finke na New Yorker. “Bem gostariam de me ignorar mas, como não podem, consolam- se dizendo: ‘Hoje sou eu que levo uma bofetada, mas amanhã será a vez de outro.’”
AS CABEÇAS-DE-CARTAZ DOS MEXERICOS
Walter Winchell, o pioneiro
Foi o pai dos gossip columnists americanos. Lança a primeira crónica mundana de escândalos em 1924. Nessa época, os rumores sobre a vida privada das estrelas nunca saíam dos salões da cidade. Winchell elabora um engenhoso cocktail de frivolidades e informações políticas sérias. Durante perto de 40 anos, a sua crónica é publicada em 2 mil jornais do mundo inteiro e o seu programa de rádio mantém a América suspensa.
O seu maior furo: O rapto do filho do aviador Charles Lindbergh (1932).
Liz Smith, a gentil
A decana dos mexericos nos Estados Unidos. Em 60 anos de carreira, raramente teve furos bombásticos, mas está no coração do jet-set. A sua crónica, iniciada em 1977 no New York Daily News, era de leitura obrigatória na era do disco, antes de ela se transferir para o New York Post. Liz Smith sempre recusou dar eco a vedetas espalhafatosas e a programas de tele-realidade. Dispensada em Fevereiro último pelo Post, Liz lançou o sítio www.wowowow.com para manter a sua crónica cheia de carinho pelas estrelas de outrora.
O seu maior furo: O divórcio calamitoso de Donald e Ivana Trump (1990-1992).
Page Six, a todo-poderosa
Inaugurada em 1977 pelo patrão do New York Post, Rupert Murdoch, a Page Six é o monte Sinai do gossip: as celebridades nova-iorquinas lêem-na avidamente ao pequeno-almoço e querem lá aparecer pelo menos uma vez na vida. Esta dupla página quotidiana tem o poder de lançar best-sellers, fazer romper contratos, encher restaurantes e destruir casamentos. O seu redactor-chefe, Richard Johnson, de 55 anos, é a alma da Page Six.
O seu maior furo: A relação de Woody Allen com a enteada, Soon-Yi (1992).
Gawker, o escarnecedor
“Não é nosso objectivo praticar o bem”, declara Nick Denton, antigo jornalista do Financial Times que, em poucos anos, se tornou um dos mais poderosos power players de Nova Iorque. Lançado em 2002, o seu agressivo blogue colectivo, www.gawker.com, é a “besta negra” das celebridades e dos órgãos de comunicação social tradicionais. Este sítio favorito da elite na moda de Manhattan tem a audácia de publicar documentos ousados, como vídeos internos da Igreja da Cientologia, rindo-se dos seus advogados, e contratou um jornalista de investigação do Chicago Tribune que lhe multiplica os furos.
O seu maior furo: Vídeos de Tom Cruise em galas da Igreja da Cientologia (2008).
Perez Hilton, a víbora
Aos 31 anos, aquele que se intitula The Queen of All Media é um dos raros cronistas sociais reconhecidos na rua, de Roma até Tóquio, graças a um descarado culto da personalidade no seu blogue com fundo rosa bombom, www.perezhilton.com. Desde a sua estreia na Web, em 2004, Perez Hilton, de seu verdadeiro nome Mario Lavandeira, especializou-se na “saída do armário” de celebridades gay e nas travessuras das bad girls. Atrai 7 milhões de visitantes por mês. O seu império rende-lhe milhões e inúmeros processos judiciais. Hilton é criticado pela sua obsessão com a fama, o seu favoritismo por certas celebridades, as suas disputas no Twitter e os seus erros nunca seguidos de pedidos de desculpas: de origem cubana, “Perezito” anunciou a morte de Fidel Castro e, ao saber da última hospitalizaçãode Michael Jackson, a 25 de Junho, decretou que o rei da pop estava a fazer teatro.
O seu maior furo: A overdose de Anna Nicole Smith (2007).
TMZ, o pitbull
A morte de Michael Jackson alcandorou o sítio www.tmz.com ao patamar de fonte imbatível para tudo o que se passa em Hollywood. Lançado em 2005 pela gigante AOL (a sigla TMZ refere-se à Thirty Miles Zone, o perímetro dos grandes estúdios da meca do cinema), é frequentado mensalmente por 10 milhões de visitantes. Embora seja alimentado por um exército de jovens repórteres que perseguem as estrelas de câmaras digitais em punho, o TMZ tem a marca do seu redactor-chefe, Harvey Levin. Este antigo advogado musculado de 58 anos reconhece que paga às suas fontes entre 50 e várias dezenas de milhares de dólares por dica e assume sem rebuço este jornalismo à base de gratificações.
O seu maior furo: O anúncio da morte de Michael Jackson (Junho de 2009) |
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