
As relações entre irmãos, às vezes problemáticas, com zangas resolvidas à lambada quando pequenos, também são feitas de cumplicidade e partilha.
POR JÚLIA SERRÃO
O mais velho
Não é fácil ser o mais velho, assegura-me quem o é. Pedro, 20 anos, diz meio a sério meio a brincar, olhando para o irmão: “Mais cedo ou mais tarde acabamos com os fedelhos às costas e, em vez de ir fazer um programa com as amigas, temos de ir jogar à bola com o mano.” Francisco tem apenas cinco anos e olha o irmão com ar totalmente perdido. Não entende o que é que ele está a dizer, mas parece desconfiar que é algo que não abona a seu favor.
Filhos de pais diferentes, a verdade é que estes rapazes se amam, diz a mãe, Marta, orgulhosa dos filhos. Os dois estão unidos por um enorme carinho e cumplicidade. “Tive imensa sorte com o Pedro, que aceitou o irmão e o ama desde a primeira hora. Mas o Francisco é uma criança linda, muito doce, que também sabe fazer-se amar.”
O mais novo
Mas os mais novos também não se cansam de dizer que são ‘as ovelhas negras da família’. Eu, que também sou a mais nova de quatro irmãos, admito que durante um tempo, quando pequena, achava que a minha mãe gostava mais dos dois rapazes e da outra rapariga. E ainda por cima nascera muitos anos depois deles, sentindo-me muitas vezes com direito a gozar a regalia dos filhos únicos. Hoje, porém, a minha relação com eles é um dos meus maiores pilares de equilíbrio.
O do meio
E os irmãos do meio? Sentem-se ‘entalados’ entre uns e outros, achando sempre que são os últimos em tudo. “A minha mãe preocupava-se com o meu irmão mais velho, porque era o rapaz da casa, o seu primeiro. Ou pelo menos era assim que eu via as coisas. E com o mais novo porque, dizia, precisava muito dos seus cuidados”, observa Teresa, de 28 anos, resumindo ter crescido com um “certo ciúme dos manos”. Se assim tem sido ao longo da história, o que dizer então das relações actuais entre irmãos, num tempo em que as famílias voltam a construir-se várias vezes, com as relações fraternais a ganhar especificidades muito próprias?
O complexo de Caim
No livro Ser Único ou Ser Irmão (Oficina do Livro), a autora Otília Monteiro Fernandes explora o tema das relações entre os irmãos. Recorda a história bíblica de Caim e o complexo que Charles Baudoin apelidou com o mesmo nome, sintetizando o conjunto de sentimentos confusos e contraditórios que por vezes o filho mais velho alimenta pelo irmão recém-nascido: “Percebe que foi destronado.” Apesar do sentimento mais comum que acompanha a perda de exclusividade ser o ciúme, explica a psicóloga, também há “a inveja, o medo, a raiva, a tristeza e a dúvida”. Os comportamentos reactivos podem surgir em forma de agressão sobre o bebé ou regressão ou paragem de desenvolvimento do próprio, problemas do sono e da alimentação e doenças imaginárias, ou por fim o isolamento.
A posição indefinida
Ser o do meio é “nem ser o mais velho nem o mais novo, o maior ou o mais pequeno e é, simultaneamente, ser as duas coisas”. Tudo depende das circunstâncias e não pode deixar de ser confuso. Entalado entre dois (irmãos), pode pensar- se que a sua tarefa “é conquistar um lugar no grupo fraternal e, provavelmente, a via mais salutar para o desenvolvimento da sua identidade consiste em procurar diferenciar- se dos irmãos”. A outra é “subordinar-se à personalidade destes”. A opção depende de muitos factores, esclarece a psicóloga, lembrando que a destronação é um factor importante “porque é o nascimento do irmão seguinte que o desloca de uma posição mais ou menos confortável para uma que não o é tanto”.
OPTIMIZAR AS RELAÇÕES FRATERNAIS É POSSÍVEL
O psicólogo clínico Manuel Coutinho responde a quatro questões:
As relações entre irmãos estão condenadas à tensão?
O pior que pode haver na relação entre irmãos é a indiferença. As relações pautam-se sempre por alguma tensão, o que não significa que seja negativo.
Quais são as principais razões de amor/desamor que os liga?
É normalmente a atenção que os pais dão ao outro. E, por regra, a criança que causa o conflito é aquela que naquele momento está a sentir-se menos amada. Por isso, tende a chamar a atenção pela negativa. Ou seja, implicando com o irmão.
A situação piora quando são meios-irmãos?
Desde que não haja contaminação da relação por parte do subsistema parental, as relações afectivas podem ser igualmente profundas entre os meios-irmãos. As relações fraternais também se constroem. Não se pautam só pelos laços biológicos mas sim pelas ligações afectivas profundas.
O que é que os pais podem fazer para solidificar os laços?
Não devem resolver as contendas pelos filhos e, sempre que possível, não tomar partido. Mas devem olhar prioritariamente para o filho que causa o problema/conflito, porque esse, sim, é o que de alguma maneira pode estar a sentir-se preterido. |
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