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ESTRELA DO MÊS


Em Hollywood
Marion Cotillard arrasa. a seguir ao óscar, as filmagens sucedem-se. entre dois papéis perfeitos com colegas prestigiados, oferece a si própria em França Le Dernier Vol, um filme romanesco de Karim Dridi.
Por Sophie Grassin | Tradução De Maria Eugénia Colaço | Exclusivo Madame Figaro

Bastou um filme para que, aos 33 anos, Marion Cotillard se tornasse aquilo que é: uma actriz francesa reconhecida pelos maiores. “Quando Olivier Dahan recrutou Marion para fazer de Piaf, os meus parceiros, o Studiocanal e a Disney, desistiram do filme. Devolvi-lhes os montantes investidos e desejei-lhes boa sorte”, recorda Alain Goldman, produtor de La Môme [que em Portugal recebeu o título La Vie en Rose]. “Quando Ridley Scott, que é meu amigo desde 1492: Cristóvão Colombo, procurava uma actriz francesa para Um Ano Especial, sugeri-lhe a Marion. ‘Marion quê?’, perguntou ele cortesmente. Tive de lhe escrever o apelido na toalha de papel. Nos óscares foi Persépolis, de Marjane Satrapi, que representou a França, porque, pelo menos desde o tempo de Clóvis, os nossos compatriotas odeiamse a si próprios. Mas Marion conquistou o óscar de melhor actriz para um filme falado em francês. Foi uma recompensa cujo carácter excepcional nunca será demais sublinhar. Um talento inato, um trabalho titânico que ela gosta de minimizar… Para mim, Marion parece-se com… Zidane.”

Marion filmou com Michael Mann (Inimigos Públicos, com Johnny Depp), Rob Marshall (Nove, com Daniel Day-Lewis) e Christopher Nolan (Inception, com Leonardo DiCaprio). E defende aqui Le Dernier Vol, de Karim Dridi, onde encarna a aviadora Marie Vallières de Beaumont, que parte em busca do homem que ama, Lancaster, cuja avioneta se despenha em 1933 no Sara. Aí a espera um novo amor chamado Antoine Chauvet (Guillaume Canet), tenente rebelde em litígio com a hierarquia militar.

“Conheci Marion muito antes do Óscar”, explica Karim Dridi. “Esta precisão é importante, pois não quero passar por oportunista. Tinha 10 minutos para falar com ela. Lá fora, 15 realizadores aguardavam a sua vez. Hora e meia depois, continuávamos a conversar. A história agradou-lhe. ‘É um beco sem saída, mas sem muros’, resumia ela. Eu sentia-me como Charles Dumont a apresentar uma canção a Piaf. Uma coisa era certa: sem Marion, não faria Le Dernier Vol. Vi todos os filmes que fez: os bons, os menos bons… Mesmo quando me aborreciam, ela brilhava.”


Marion possui instinto e uma precisão
muito musical. nela, cada palavra,
cada vírgula, cada entoação
tem um sentido

Dridi fala muito, o que calha bem: Marion não gosta de entrevistas telefónicas – encontra-se actualmente em Los Angeles, rodando Inception. Tema tabu: Guillaume Canet, com quem vive. Por um instante, a actriz anima-se: “É um actor muito empenhado”, sussurra, antes de desatar a rir. “Eu sabia que a minha resposta lhe iria agradar... Bem, acontece que a vida põe no nosso caminho filmes que reconhecemos implicitamente.”

“Na altura, ela vivia algo de muito forte com Guillaume”, comenta Dridi. “Portanto, apanhou imediatamente a réplica-chave do filme (‘O seu desejo de amar é mais forte que o amor’), a determinação de Marie e o beijo que eu tinha na cabeça antes ainda de escrever o argumento: um fio de água que a heroína deixa correr para a boca do oficial exausto. Dito isto, dirigir dois actores apaixonados um pelo outro, logo em estado de fusão, não é fácil. Quando dizia alguma coisa a um, o outro respondia. Por outro lado, na última parte do filme, sei que os olhares que trocam são absolutamente genuínos.” Marion quis este papel. “Dotada de uma força de carácter invulgar, Marie goza de uma liberdade duramente conquistada ao seu meio e aos homens”, afirma a actriz. “Ao mesmo tempo, mantém-se enredada na sua história de amor. Sim, no seu íntimo há muitas pequenas prisões.” Cotillard não chegou a ter um mês para se preparar. “Tenho pena”, reconhece. “O encontro necessário com a personagem não se deve fazer sob pressão. Embora isso não seja muito ecológico, gostaria de ter tirado o brevet. Mas contentei-me em voar no avião de Marie, mergulhar na vida desta mulher que bateu recordes de velocidade e ler Théodore Monod. E, depois, já me tinha passeado pelos anos 30 com Inimigos Públicos e La Vie en Rose, o que me dava algum avanço. O resto vem dos sentimentos e nós, actores, somos justamente os antropólogos dos sentimentos.”

“Quando ela chegou ao local de rodagem”, confirma Karim Dridi, “sabia tudo sobre as mulheres aviadoras e até como a iam pentear (um carré tirado de uma foto da época). Marion possui instinto e uma precisão muito musical. Nela, cada palavra, cada vírgula, cada entoação tem um sentido. A estrela nunca me deu problemas com o seu perfil ou com uma mecha de cabelos fora do lugar. Tal como eu, Marion detesta moscas. Ora, no deserto nigeriano, elas colavam-se aos camelos, à maquilhagem… Eu temia o pior, mas Marion deixava-as pousar nos lábios sem pestanejar. A mesma coisa quando iça Guillaume para o camelo: estava animada de uma tal fúria que conseguiu puxar os seus 70 quilos para cima do animal.”

 

A CAMINHO DO SEGUNDO ÓSCAR?
Completamente à vontade na pele de uma celebridade de Hollywood, Marion Cotillard fez a ronda dos grandes talk-shows americanos, incluindo o de Oprah Winfrey, para promover Nove, a comédia musical de Rob Marshall (com estreia marcada em França para 10 de Fevereiro) em que contracena de igual para igual com Nicole Kidman, Penélope Cruz e Daniel Day-Lewis. Neste filme inspirado em Oito e 1/2, o clássico de Fellini com Mastroiani, Daniel Day-Lewis interpreta o papel de um realizador de cinema em crise que hesita entre todas as mulheres da sua vida: a mulher (Marion Cotillard), a amante (Penélope Cruz), a musa (Nicole Kidman) e a mãe (Sophia Loren). Fala-se já da excelência do desempenho de Cotillard, que canta duas canções (uma delas é Take It All, enquanto se despe perante um público masculino) e comove no papel de esposa infeliz. Já se fala numa segunda nomeação para o Óscar… R.G.

“O empenho de Marion e a forma como assume o seu estatuto parecem- me exemplares a todos os níveis”, afirma o comediante Gilles Lellouche, o melhor amigo da actriz. “Conhecemo-nos numa curtametragem e voltámos a encontrar-nos em filmes como Ma vie en l’air, Amor ou Consequência ou Les Petits Mouchoirs [comédia sobre um grupo de trintões assinada por Guillaume Canet]. Eu tinha muito medo de ver La Vie en Rose. Quando vemos no ecrã pessoas de quem gostamos muito, acabamos sempre por apanhá-las numa ou noutra cena: ‘cá está a minha amiga’. Com a Marion, isso não acontece.”

Já se diz que está excepcional em Nove, onde interpreta Louisa, sobre a qual paira a sombra de Giulietta Masina. “Fazer uma comédia musical era um sonho de infância”, confessa Marion. “Mas tive de recusar o papel por causa de Le Dernier Vol. Há que respeitar os compromissos assumidos. Em Nove [cujas filmagens acabaram por ser adiadas], o nível era muito elevado, a precisão a alcançar inimaginável. Mas durante os longos meses de preparação reinava um ambiente de trupe. Assistia aos ensaios das outras actrizes, Nicole Kidman, Penélope Cruz, cruzávamo-nos nos corredores... O entendimento entre nós foi imediato. De vez em quando, beliscava-me. Tenho a consciência de estar a viver coisas extraordinárias.”

E porquê Les Petits Mouchoirs? Marion atira para fora: “Há muito tempo que tinha vontade de usar T-shirts, calças de ganga e ténis… Que mais posso dizer-lhe? Faço de uma das amigas do grupo e o Guillaume trata-me como qualquer outra actriz.”

“Eu não compreendia o fenómeno Cotillard antes de contracenar com ela em Les Petits Mouchoirs”, sublinha François Cluzet. “A Marion tem duas coisas a favor dela: uma graciosidade indiscutível e uma disciplina à americana.”

Marion exerce essa disciplina neste preciso momento em Inception, cujo script se mantém rigorosamente secreto. “Daqui a cinco minutos”, regozija-se Cotillard, “meto-me no meu carro híbrido” – a única exigência que consta sempre dos meus contratos – “e vou para o set. Como contraceno com Leonardo DiCaprio, as nossas caravanas funcionam com energia solar e ninguém comete erros a separar o lixo”. Libertada de um sistema rotulador, a actriz saboreia essa sensação. “Hoje, ela pode desempenhar qualquer papel”, diz Alain Goldman, “de criada a rainha de Inglaterra. Mas os grandes papéis de tragédia parecem-lhe particularmente destinados. Marion é mais uma Adjani que uma Valérie Lemercier”.














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