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INTIMIDADE


Por que razão não dizemos toda a verdade quando falamos do nosso currículo íntimo? Há grandes contradições entre o que homens e mulheres dizem sobre a sua vida sexual.

Por Clara Soares

Os homens apaixonam-se com frequência. É o fim do mito “Eles só pensam a partir da cintura para baixo”. E as mulheres fazem amor sem se preocupar primeiro com os afectos. É o fim do mito “Elas querem é casar e ser mães de família”. No século XXI, os sexos ficaram mais próximos.

Os homens começam a não ter problemas em mostrar-se sensíveis, românticos e pais presentes. Do lado feminino, as conversas sobre a vida privada saíram do armário e são expostas em revistas, filmes, blogues eróticos e de diários íntimos.

Apesar de uns e outros se assemelharem em matéria de condutas, tal não transparece nos inquéritos sexuais europeus, brasileiros e americanos. As sondagens mostram, de forma consistente, contradições abissais entre o que os dois sexos dizem fazer na intimidade.

Será que mentem? E se o fazem, como parece indicar a disparidade dos números, que razões estão por detrás disso (uma vez que a maioria destes inquéritos são confidenciais)?
A tese de que as pessoas mentem porque, mesmo anonimamente, não gostam de revelar toda a verdade sobre os seus assuntos íntimos permanece válida. Outros analistas defendem que as pessoas tendem a responder como é socialmente desejável: elas omitem, por exemplo, o número de parceiros sexuais, enquanto que eles exageram.

A verdade da mentira

Por que mentimos?
Defesa da harmonia social
Medo da perda
Insegurança pessoal
Vício ou hábito
Falta de ética
Perturbações de identidade
Prioridade aos cavalheiros.
A avaliar pelas respostas dos 400 portugueses inquiridos numa sondagem mundial da revista Men’s Health, sobre estilos de vida masculinos, eles conseguem fazer 32 abdominais por minuto, tiveram mais de duas parceiras num ano e fizeram amor mais de três vezes por semana. Portugal apenas confirma uma tendência global: eles querem ser “o máximo”, e isso significa ser um animal sexual e em forma. Ou, no mínimo, parecê-lo.

Num artigo da revista Veja de Março passado, o cruzamento de dados das sondagens internacionais e do país, com os relatos obtidos nos consultórios médicos, levou à descoberta do “gato-com-rabo-de-fora”. A verdade, nua e crua, escrevia-se assim: “Não se preocupe se a sua frequência está abaixo da média, boa parte dos que afirmam fazer várias vezes por semana exagera.”

O mesmo sucede em Portugal: a tese de doutoramento do psicólogo Pedro Nobre sobre os comportamentos sexuais dos portugueses concluiu que mais de metade dos homens afirmava ter dificuldades na vida sexual (no caso das mulheres, eram ainda mais evidentes as queixas). A antecipação do fracasso e o dever da erecção e penetração surgiam no topo dos medos masculinos.

Agora as senhoras.
O estudo do Instituto de Ciências Sociais sobre os comportamentos sexuais dos portugueses mostra que elas continuam a afirmar ter menos parceiros que eles. O que, mais uma vez, confirma a tendência mundial. Como a investigação do psicólogo americano Norman Brown, da universidade de Michigan. O inquérito feito a mais de duas mil pessoas heterossexuais sexualmente activas na meia-idade permitiu concluir que as mulheres afirmaram ter tido oito parceiros, em média, enquanto os homens revelaram ter cerca de 40.

O arquétipo da dama pudica e do cavalheiro conquistador ainda é válido? Ou será apenas uma verdade conveniente que homens e mulheres se orgulham de jogar socialmente? É improvável que todos mintam de forma concertada. Como se explica tamanha disparidade?

Raio X

A mentira também se lê: quanto mais subir na escala, maior a probabilidade de ser “traído” pelos seus gestos e expressão (o que é mais raro no caso das mentiras inócuas ou “brancas”, que envolvem baixo risco)
Pistas para identificar um “nariz a crescer”:
Evitar o contacto visual (pode revelar embaraço, insegurança)
Tocar na face, coçar o nariz ou mexer na orelha (desconforto, conflito moral)
Corar (ansiedade ou excitação pelo perigo de ser “apanhado”)
Incongruência entre palavra e atitude – por exemplo, afirmar “Claro que quero!” com os ombros encolhidos ou os braços cruzados
Falta de expressão ou “cara de cera” – por exemplo, dar uma gargalhada movendo apenas os lábios, sem outros músculos faciais envolvidos, ou falar em tom monótono, sem ênfase (atitude desimplicada)
Usar humor ou ironia se questionado sobre tópico comprometedor – “desviar o assunto”, “fugir com o rabo à seringa”, “sair fora”
Atitude contida (silêncios, estilo ausente, “à defesa”)
O sociólogo americano Arthur Stinchcombe, da universidade de Illinois, admite que o cerne da questão está na leitura que uns e outros fazem sobre os actos que praticam na intimidade. Por exemplo, existem diferenças claras de género sobre o que se entende por orgasmo masculino, penetração e excitação sexual: homens e mulheres teriam, por isso, formas de contagem distintas do que é, por exemplo, um “parceiro”. Mesmo que eles sejam de Marte e elas de Vénus, há outras razões para que os estudos sobre assuntos íntimos (secretos) sejam “boicotados” por quem se presta a fazer revelações que serão públicas.

Boa gente não mente, molda as circunstâncias para não ficar fora de jogo. A pressão social e mediática para ter cada vez mais e melhor sexo convidam, nas conversas, a que se peque por excesso ou omissão de detalhes da biografia íntima. É legítimo, por exemplo, dizer ao grupo de amigas casadas que o fim-de-semana fora de casa foi óptimo para namorar, quando não se faz amor com o companheiro há meses. É igualmente comum comentar as proezas sexuais feitas com a antiga colega de trabalho aos comparsas do futebol, sabendo de antemão que ela não retribuiu os avanços mais picantes dele, após o jantar de empresa.

Desde a mais tenra infância, aprende-se a ouvir que mentir é feio e pode transformar a vida num inferno. Mas é disso que se fala nas novelas, nos filmes e nos encontros de corredor. “Conta-me histórias”, “Eu sei que tu sabes que eu sei”. Meias verdades, entrelinhas várias, sem as quais a sedução não seria possível.

Sexo e mentira são dois frutos apetecidos. Para combater o tédio de uma relação conjugal com 20 anos, um escritor de meia-idade aventurou-se no universo virtual com a intenção de explorar as emoções e afectos de quem encontrava no caminho. Fernando Esteves Pinto, de 47 anos, casado e autor de romances e recolhas poéticas, foi contactado por autoras que lhe traziam histórias das suas vidas conjugais, emoções e experiências.

“Achei que tinha ali material vivo para dar continuidade ao meu trabalho”, explica, acabando por lançar Sexo entre Mentiras (Editora Ibérica): “O livro está povoado de emoções biográficas.” As falsas verdades entram em cena, justifica, na medida em que “ninguém admite falhar, todos querem representar bem o seu papel quando se trata de sexo”. O autor admite que a mentira faz parte do nosso código de sobrevivência porque protege os relacionamentos, mas mesmo na melhor das hipóteses (quando nunca se é apanhado), traz sempre alguns amargos de boca. Mentir é “projectar uma virtude que não se possui, tomar por real aquilo que não passa de uma farsa”. Porém, como o próprio autor afirma, “nem sempre o prazer merece a verdade; no acto sexual, a mentira funciona como um estímulo do próprio sexo”.

Representar um papel que vai contra o que se sente ou se é na intimidade pode ser um mecanismo de defesa destrutivo a médio e longo prazo, mas continua a ser uma estratégia de cativar (de captar a atenção ou cortejar) o outro. Um legado da evolução da espécie que se deve, em boa parte, à aquisição da linguagem.

 
Que dizer então das “mentiras brancas” praticadas entre cônjuges? No caso da infidelidade não consentida, por exemplo, a mentira revela-se um bálsamo que poupa dissabores à pessoa querida e aos familiares. Ainda que se incluam no pacote dos pecados mortais, são alvo de muitas atenuantes. Segundo a terapeuta familiar Catarina Rivero, as relações extra-conjugais que possam ter existido durante uma fase crítica do casamento ou no pós-divórcio propiciam a omissão ou até a negação de factos: “Muitos casais optam por fazê-lo para proteger a sua imagem e a do outro perante as famílias de origem e os filhos.” A ocultação da verdade sucede ainda para preservar o espaço íntimo, “como os homossexuais que não divulgam a sua orientação, mentindo se questionados sobre as suas relações amorosas”. Ou até como uma maneira de poupar energias, quando a bateria pessoal está a precisar de recarga: “Quantas vezes, em dias que estamos cansados, doentes ou tristes, respondemos à pergunta ‘Como está?’ com um ‘bem, obrigada’?”
Dissimula-se, “doura-se a pílula”, esconde-se o que, por conveniência, não convém revelar. Em essência, se a prática for feita com peso, conta e medida, acaba por ser aceite como uma virtude, uma maneira sábia de manter sob controlo, ou conferir uma ordem, à teia de relações que se tem (sem que os instintos ameacem lançar o caos).

A arte do engano pode sair cara e ter efeitos danosos. Persistir no “erro” pode, em casos mais complexos, ser a maneira possível de passar uma verdade. Uma investigação da universidade canadiana de Montreal, que envolveu 415 pessoas na faixa etária dos 20 anos, mostrou que a probabilidade de enganar o parceiro - entre 40 e 76 por cento dos casos - era mais frequente quando se tinha um estilo de vinculação evitante. A psicóloga Geneviéve Pelletier, que dirigiu o estudo, concluiu que “o acto de enganar permite a hipótese de afastamento e evita o confronto com a fobia do compromisso”.

No extremo oposto ao dos mentirosos compulsivos, encontramos o dos defensores da verdade a todo o custo, que acaba por ter como consequência o efeito que pretende evitar: o outro fecha-se em copas e, em última instância, abandona o barco. Para o comum dos mortais, a vida é feita de pequenos delitos, uns mais bem intencionados que outros, mas todos por um motivo que, à falta de melhor explicação, era de força maior. Como lembra Fernando Esteves Pinto, as mentiras são as linhas por onde a história dos dois se escreve. E, não menos importante, “todas as belas histórias de amor nascem das ruínas e da mágoa de quem foi enganado”.













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