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ESTRELA DO MÊS

Quem é esta mulher? Pouca gente conhece as várias facetas de Joana Amaral Dias, psicóloga, política, mãe, colunista.

Usa o verbo experimentar como motor. Tudo se passa entre as pessoas e o falar.
Na política, na psicologia, na comunicação social. Na vida de
Joana Amaral Dias, sempre foi assim.
Por Anabela Mota Ribeiro | Fotografia de Pedro Ferreira

Quem é Joana Amaral Dias? Houve um tempo em que ela era a neta do Professor Nunes Vicente, a filha do Professor Carlos Amaral Dias. Houve um tempo em que ela era voluntária numa associação de apoio a pessoas com HIV. E, ao mesmo tempo, ela era a Joana que transforma a sua vida numa narrativa que apetece ler. Que é dirigente associativa, que trabalha desde cedo, que tem um filho que é agora um rapaz lançado de 13 anos. Licenciou-se em Psicologia, doutorou-se em resiliência familiar (a família é um dos seus grandes temas). É militante do Bloco de Esquerda, foi mandatária para a juventude de Mário Soares quando este se candidatou à presidência. Tem uma colaboração sistemática com a SIC Notícias, a TSF, o Sexta, e escreve sobre cinema para o Correio da Manhã. Não é tudo. Depois da entrevista, ia dedicar-se a outra actividade: ver pacientes no consultório. Eis a vida intensa de uma mulher de 35 anos.

É psicóloga, política, mãe, colunista. Desde 2003, a sua vida tem conhecido uma exposição crescente. Em que é que isso alterou o seu quotidiano? 
Muito pouco. Alterou a exposição mediática, que tem consequências na vida diária, social, familiar. Desde a faculdade, sempre balancei o meu tempo entre a actividade académica, e depois clínica, com a actividade associativa, e depois partidária. Nunca estive a jogar só num tabuleiro. Fiz coisas muito diferentes, outras vezes complementares, ou com fronteiras porosas, com pontos de contacto que podem ser mais-valias.

 
  Joana Amaral Dias não gosta que o seu nome seja reduzido a um golpe de sorte ou a um nome de família.
No seu tabuleiro sempre coexistiram a Psicologia e a intervenção cívica. É professora universitária e faz clínica, além de ser dirigente do Bloco de Esquerda.
A matéria-prima, desde a política à clínica e à faculdade, é o trabalho com pessoas. A falar. Há uma base de trabalho que é comum, que envolve competências diferentes. A clínica é sempre um trabalho de uma gratificação gradual, construída na relação com o outro; são trabalhos de reengenharia profundos, não existem resultados imediatos. Faço psicoterapias individuais a adultos e faço psicodrama (uma técnica de que gosto bastante).

Como compreender essa pulverização, que é o que mais ressalta quando falamos de si e do seu percurso?
Se olhar para a minha infância e adolescência, nunca senti que fosse profundamente vocacionada para uma coisa. No liceu, na altura dos testes psicotécnicos, alguns colegas saíam de lá como se tivessem descoberto a pólvora; eu saí de lá na mesma. Escolher Psicologia foi uma formulação de compromisso com as letras e as ciências.

Teve mais que ver com isso do que com a influência dos seus pais?
Os meus pais são ambos médicos, psiquiatras e psicanalistas. Havia um contexto familiar, que é anterior à geração dos meus pais, mais próximo das ciências; o pai da minha mãe também era psiquiatra, e tenho vários tios psiquiatras e neurologistas.

Foi, por tudo isso, uma escolha pesada?
Nunca senti nenhuma pressão para escolher essa área ou qualquer outra. Os meus pais sempre deram bastante liberdade e autonomia para que os seus filhos fizessem as opções de vida que entendem – ainda hoje é assim. Na faculdade, fui sentindo aqui e ali o peso, não só por ser filha do meu pai e da minha mãe mas também por ser neta do meu avô, professor catedrático da Universidade de Coimbra, com um nome naquela área. Com alguma ingenuidade da minha parte – confesso –, nunca pensei que isso pudesse ser uma vantagem ou uma desvantagem.

Como é que foi uma vantagem e como é que foi uma desvantagem?
Se chegasse a casa e tivesse uma dúvida ou se precisasse de um livro, estava lá. Foi uma desvantagem porque é preciso provar perante os outros que não se é só isso. Que se tem uma identidade própria e um mérito seu.

Ser mãe aos 22 anos foi uma maneira de traçar o seu caminho contrariando uma certa previsibilidade familiar e social?
Sim e não. O meu pai é filho único, mas a minha mãe é a mais velha de nove irmãos; tenho 30 primos direitos e sempre existiram muitos bebés. Fui a primeira a ter filhos, a dar netos aos meus pais, bisnetos aos meus avós, mas logo depois os meus primos também tiveram. A verdade é que também há uma série de práticas sociais que sempre pus em causa, desde pequena. Não tive um filho, como é ó­bvio, para contestar estereótipos. Mas se olhar para trás não me fazia sentido aquela sequência: acabar o curso, ter um emprego, e uma casa, e uma vida profissional estabelecida e estável – já estamos nos 30 com isto tudo – e só depois é que se tem um filho.

Na sua família existia a flexibilidade social para acolher esse projecto? Qualquer projecto? Até o de nunca se doutorar.
Nunca tive esse problema. Quando tive um filho tinha uma grande dose de independência económica. Comecei a trabalhar com 15 anos. Não vivia em casa dos meus pais. Não era o caso da adolescente que engravida a meio do liceu. E era uma excelente aluna. Mesmo que os meus pais quisessem ficar preocupados, seria difícil – preocupados porquê?

Porque é que foi importante desenvolver esse processo autonómico tão cedo? Não tinha grandes amarras…
Não, não tinha. Foi sempre uma procura de experiências diferentes. A escola nunca foi uma experiência total, totalmente satisfatória. Às vezes ficava aquém do que tinha em casa, ficava aquém do que eu esperava. A escola cumpria a tarefa da socialização; gostava de ir à escola, também, para ver os meus amigos.

Não era de paixões instantâneas por um projecto que depois abandonava?
Não. Gostava de explorar [e por isso levava até ao fim]. Os meus pais deixaram-me viajar sozinha a partir dos 14, 15.

Num certo sentido, foi uma adolescência normal.
Normalíssima, com os cafés. Não fumava às escondidas porque os meus pais eram fumadores e não tinham grande moralidade para me proibir. Disse de chofre que fumava e fumo desde os 15 anos à frente deles.

Era segura de si própria. Não temia discutir o que quer que fosse. É um traço que fica.
Além da educação liberal que me deram, houve uma coisa fundamental para a formação da minha personalidade. Uma coisa que na generalidade é pouco considerada, mas que é a relação mais longa que temos nas nossas vidas: a relação entre irmãos. O meu irmão foi, e é, muito importante na minha vida. É rapaz, mais velho, inteligente. Funcionava como todas as fratrias: rivalizava com ele, competia com ele, queria ser melhor do que ele, andávamos à batatada. Durante muito tempo ele foi melhor aluno do que eu, e eu tentava rivalizar noutras coisas.

Na atenção dos pais?
Noutras coisas, como ser mais despachada do que ele, ou ter mais amigos do que ele.

Tudo isso é ainda perceptível, hoje. A segurança com que disputa, com que discute.
Eu ia sempre à luta. Mesmo fisicamente. Eu lutava pela igualdade. Quando as coisas davam para o torto, ele vencia-as [risos], mas não era por isso que na próxima não retorquia.

O que é que lhe faz medo? O que é que pode tolher o seu impulso?
Tudo o que possa afectar o bem-estar do meu filho, a integridade da minha família – eu e o Vicente.  Nesse domínio, sou uma leoa.

É um medo diferente, mas em relação ao que está para trás, teve medo de não ser capaz, de não ser levada a sério?
Mas eu não sou levada a sério muitas vezes! Sou a “Barbie do Bloco” não sei quê, a loura-burra não sei quantos. A essas coisas dou uma importância relativa. Têm raízes, que combato no meu quotidiano – o machismo, o sexismo... Tento perceber de onde vêm, e sobretudo o que posso fazer com elas.

O fantasma do falhanço, ainda mais numa família onde todos são expoentes, pode ser tremendo.
Nunca senti pressão para ser a melhor, para estar acima, para ser a ganhadora. Os meus pais deram-me bastante espaço para que me espalhasse – e espalhei-me algumas vezes. Pelo contrário, foram sendo surpreendidos com os êxitos que eu tive.

O relacional é a sua palavra nuclear?

É. A actividade associativa, a política, foram coisas que me foram acontecendo. Não foi uma busca premeditada, consequente. Tenho a minha vida académica e clínica de base, estruturada. É uma coisa que gosto de fazer, que acho que faço competentemente e que depende mais de mim do que doutras coisas. Acabou por tornar-se um porto seguro.













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