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FAMÍLIA







Morte, violência, separação, sexualidade, drogas, diferença. Devemos falar sobre estes
e outros temas difíceis com
os nossos filhos?

Se fazem parte da vida, porque não os abordar?

Descubra como.



Por Mariza Figueiredo
Mãe, a avó não volta mais? Porque é que a Clarinha é mais velha que a irmã e ainda não sabe falar nem andar? O pai foi-se embora porque já não gosta de nós? Mas, afinal, como é que a sementinha vai parar dentro da barriga da mãe? E porque é que as pessoas se matam?

Não é raro sermos apanhados, de repente, por alguma destas perguntas mais ou menos desconcertantes feitas pelos nossos filhos. É que as crianças não estão alheias à realidade que as rodeia.

Em outros casos, somos nós que nos perguntamos se devemos comentar com eles certas preocupações que nos inquietam como é o caso da pedofilia. E há também aquelas situações traumáticas em que devemos dar o primeiro passo para os ajudar a pôr para fora algo que os angustia.

Seja qual for a situação, num ambiente aberto à conversa, onde não há temas proibidos e em que a criança se sente à vontade para pôr as suas questões, tudo acontece de forma mais fácil e fluida.

Nunca é demasiado cedo para criar uma atmosfera em que as crianças se sintam à vontade para falar com os pais, professores ou adultos em que confiam. É o que afirmam os peritos. “Alguns temas podem parecer pouco apropriados, sobretudo para os mais pequenos”, afirmam os especialistas do site Talking with Kids About Tough Issues (www.talkingwithkids.org). “Mas as nossas crianças já os ouvem através da televisão, dos filmes, das revistas e dos amigos da escola. Se não falarmos com eles cedo e com frequência – e respondermos às suas questões – eles vão buscá-la a outra pessoa qualquer. Perderemos, assim, a oportunidade de lhes proporcionar informação que não só é mais fiável mas também que vai de acordo com os nossos valores pessoais e princípios morais.”

Temas difíceis

Sexualidade
Até aos 10 anos o seu filho provavelmente dispensará os pormenores sobre os mecanismos do sexo. Dê explicações simples e recorra aos termos correctos. O que toca à concepção pode requerer uma descrição ligeiramente mais detalhada. Avance à medida da curiosidade demonstrada.

Aproveite e... fale-lhe sobre a privacidade. Desde introduzir o conceito de bater à porta antes de entrar até ao respeito pelo corpo de cada um. Ninguém para além da mãe, do pai e do médico devem tocar as partes íntimas do corpo, devendo a criança estar à vontade para dizer “não” àquele que o quiser fazer contra a sua vontade.

Morte
A morte faz parte da vida. Evite dizer “está a dormir” ou “partiu para sempre”, ou, no âmbito da religião, dizer que Deus “chamou” aquela pessoa ou a “quis ter ao seu lado”, pois tudo isso pode dar azo a confusão. Seja clara e utilize as palavras correctas. A pessoa não volta mais, mas as boas lembranças estarão sempre presentes.

Aproveite e... não esconda os seus sentimentos.

É natural sentir-se triste e não há razão para esconder das crianças que os adultos também sofrem com as perdas.

Guerra, violência e desastres
Explique de forma simplificada os factos que a perturbam. O importante nestas situações é assegurar-lhe que as guerras e eventos violentos ocorrem longe de onde vivem, e que ao mais alto nível há uma preocupação para evitar este tipo de acontecimentos. Garanta-lhe que, aconteça o que acontecer, os pais estarão sempre a protegê-la.

Aproveite e... limite o acesso dos mais pequenos aos noticiários da televisão.

Separação
Esta notícia deve idealmente ser dada por pai e mãe em conjunto. Isso ajuda a que a criança assimile que, apesar da separação, ambos estão juntos a acompanhá-la. Escolha uma altura em que ela vai ter pelo menos um dos pais por perto após a notícia ser dada, a quem possa recorrer por qualquer razão ou sentimento de tristeza ou solidão. Explique claramente o que significa esta separação e o que isto implica, inclusive na sua rotina diária. Explique também o porquê da mesma. Isso pode ajudar a que a criança não assuma a culpa para si. Mágoas devem ser deixadas de lado para dar à criança liberdade para ter os seus próprios sentimentos.

Aproveite e... dê à criança espaço para falar, para pôr as suas questões e demonstrar o que está a sentir.

Drogas
Os mais pequenos provavelmente nunca ouviram falar de drogas, apenas álcool e cigarros. Esclareça que, lícitas ou ilícitas, estas substâncias provocam habituação. Podem ser fáceis de utilizar mas, quando não se quer consumir mais, isso torna-se muito difícil, ou quase impossível, devido à habituação.

Aproveite e... deixe claro que a decisão cabe a quem usa, mas que isso traz consequências muito pesadas.

Diferença
Há meninos e adultos brancos, pretos, amarelos e todos fazem parte do mundo em que vivemos. Isso não faz com que sejam diferentes entre si e de nós. Há também pessoas com problemas físicos ou mentais e todos merecem o nosso respeito.

Aproveite e... faça um brinde à diferença e à curiosidade do seu filho. A apatia e a indiferença é que são estranhas numa criança.
Deve-se falar de tudo com as crianças, mesmo que sejam temas dolorosos ou traumáticos, defendeu sempre Françoise Dolto, médica e psicanalista francesa, especialista em infância. “O silêncio resulta mais traumático do que as palavras, já que o que não se expressa é sempre vivido como mau, vergonhoso ou algo que se deve ocultar”, afirmou certa vez.

“Podemos falar de tudo com as crianças, mas sempre de acordo com as suas idades”, concorda a psicóloga Ana Duarte Silva. E explica: “Devemos dizer aquilo que elas podem entender sem lhes criar angústia. Na realidade, as coisas devem ser ditas à medida que vão crescendo. A verdade não é só uma. Vai-se construindo, como o conhecimento. Com um ano é de uma maneira, aos dois é de outra, aos três é de outra ainda. A coisa vai evoluindo, e a criança vai elaborando sobre isso e formulando ela própria um conceito”, diz a psicóloga.

“Acredito que as crianças têm sempre uma teoria à volta das coisas, mesmo as mais pequeninas. Penso que, antes de falarmos sobre qualquer tema, devemos primeiro ver o que é que elas sabem. Depois, pegamos nas suas palavras e vamos adicionando elementos, dando uns pequenos ajustes e acrescentando umas pequenas ideias”, refere.

Havendo uma situação traumática, no entanto, as crianças podem ficar paralisadas e não dizer nada. “Uma criança a quem morre um dos pais, por exemplo, pode ficar tão perdida que não fala sobre o assunto. Cabe ao adulto, então, dar o primeiro passo. Deve-lhe ser explicada a situação e criar ali um espaço para falar sobre o tema. Para a criança pôr para fora o que a angustia, seja através da fala, do jogo ou do desenho”, afirma Ana Duarte Silva.

A franqueza tem um papel muito importante nesta relação entre adulto e criança. Quanto mais o adulto for espontâneo, melhor. Mas é verdade que há temas com os quais muitas vezes não se está à vontade. “Há sempre maneira de dizer qualquer coisa. Há tantos recursos ao nosso alcance: um livrinho, a internet... Pais e filhos podem inclusivamente procurar juntos”, refere a psicóloga.

E mesmo sendo um assunto difícil, é importante dar--lhes uma resposta. Isso é uma forma de estimular a curiosidade. “A pulsão para o saber existe em nós, na espécie humana. É boa, positiva. Em geral vem de uma criança que muitas vezes tem as coisas resolvidas dentro dela, o que lhe confere disponibilidade para o saber. É bom estimular isso. Uma criança saudável é curiosa e é muito bom que assim seja. O querer aprender deve ser estimulado”, diz.

É importante termos tempo para estar com as crianças para que as conversas surjam.

Mas é que nem sempre temos uma resposta para dar às suas questões. E não é preciso responder a tudo, sem excepção. Às vezes também não é grave deixar-se uma ou outra pergunta no ar. “O que é importante é que haja um espaço de abertura para que as coisas possam ser faladas. Mas até onde a criança quiser. A determinada altura, quando já está satisfeita, ela acaba por mudar de assunto”, observa a psicóloga.

Disponibilidade é também fundamental neste âmbito. É importante termos tempo para estar com as crianças. Tempo para que as conversas surjam. E as oportunidades podem ser infinitas. Uns gostam de passear e ir conversando, outros preferem fazê-lo à mesa, na compa-nhia de irmãos ou outros familiares, e há ainda quem prefira sentar-se frente a frente com a criança. Seja como for, o importante é haver oportunidade. “Os assuntos mais sérios ou profundos, no entanto, devem ser falados numa conversa a dois”, explica.

E, para quem tem mais do que um filho, é essencial que haja tempo para estar de vez em quando com cada um em separado. “É difícil mas é fundamental. Às vezes vai-se com um ao supermercado, com outro ao sapateiro, à mercearia. Mas este encontro a dois pode também ocorrer dentro do espaço de casa. Isso implica ter de dizer para o outro, ou outros, ‘agora não’. Isto vai suscitar frustração naquele que fica de fora, que faz birra, que vem e bate à porta com imensas coisas urgentes. É difícil, mas quando se consegue é muito bom e permite construir um espaço de respeito pelos outros.”

Conversar sobre temas difíceis em 10 passos

1 - Comece cedo. Crie um ambiente em que a criança se sinta à vontade para falar sobre os mais diversos temas

2 - Mantenha a conversa ao nível da criança. Fale-lhe na sua linguagem, mas sem ser excessivamente infantil

3 - Seja franca. Não precisa de entrar por caminhos que ache demasiado pesados ou complexos, mas fale a verdade

4 - Dê o primeiro passo se sentir necessidade de falar sobre algo que a inquieta ou se notar que qualquer coisa preocupa a criança

5 - Volte ao tema quando estiver preparada. Se adiou uma resposta por não saber o que dizer, não deixe que o assunto caia no esquecimento. O seu filho pode ir buscar a informação que procura a outra fonte menos fidedigna

6 - Ouça com atenção. Quem é que gosta de falar sem ser ouvido? Um monólogo também não interessa a ninguém. Dê espaço para o diálogo

7 - Não se ria das suas perguntas. Isso pode inibir a criança. Faça com que se sinta confortável para falar do que quiser

8 - Partilhe os seus valores. Conversar permite que mostre a sua forma de ver e de estar no mundo. Aproveite

9 - Mostre-se disponível. Quanto mais disponível estiver mais espaço haverá para a conversa

10 - Seja paciente. Como qualquer um de nós, a criança precisa de tempo para processar as informações novas. É provável que volte uma e outra vez a um tema que a interessa
Desde o caso da Casa Pia e, mais recentemente, do caso Maddie, que a pedofilia preocupa muitos pais. Alguns hesitam perante a ideia de abordar o tema com os seus filhos. Devemos fazê-lo ou isso iria alarmar a criança? “Os temas têm de ser introduzidos. Podem, às vezes, angustiar um bocadinho, mas a realidade tem de ir sendo apresentada à criança. À medida que esta cresce, a fantasia e a realidade começam a diferenciar-se uma da outra. E o adulto é quem tem a obrigação de apresentar a realidade à criança. Mas sem se esquecer do seu grau de maturidade emocional”, defende Ana Duarte Silva. E acrescenta: “Há coisas que provocam alguma angústia ou ansiedade. E um bocadinho não é mau. Estes sentimentos fazem parte da vida, assim como a frustração. São o motor da vida. O problema é quando a angústia e a ansiedade paralisam e não permitem qualquer desenvolvimento. Isso, sim, deve ser evitado.”

As histórias tradicionais podem sempre ser um ponto de apoio. “A da Branca de Neve, por exemplo. Havia a bruxa, e os anões diziam que ela não devia abrir a porta a ninguém porque há pessoas que são más.”

E não precisamos de nos limitar puramente aos factos quando conversamos com as crianças. Os nossos sentimentos e a nossa visão das coisas transmitem-lhe os nossos valores. “Mostrar os sentimentos que temos em relação a uma determinada situação faz a criança pensar sobre os seus sentimentos e emoções. A formação moral das crianças parte também do que os pais lhes transmitem”, sublinha a psicóloga.

Com filhos adolescentes é igualmente importante cultivar o ambiente aberto à conversa. “Os pais da infância são diferentes dos da adolescência. Tudo tem de mudar. A adolescência é um período de transformação. Se a criança muda, os pais têm de mudar também, assim como as respostas que dão. Dentro de uma relação de amor harmoniosa isso ocorre naturalmente. Tem de haver uma adaptação constante. Dia-a-dia”, observa Ana Duarte Silva.

O diálogo é fundamental nesta fase da relação entre pais e filhos. E os que não falam têm de ser um pouco levados a fazê-lo. “É importante entrar com jeitinho, sem ser intrusivo, e permitir que as coisas sejam faladas. Senão, em vez de o jovem se abrir ele fecha-se ainda mais.”

Os temas nesta fase são ainda mais difíceis para alguns pais. “Muitas coisas são postas em questão. A autoridade é diferente. O menino não tem de querer. Começa a ter um pensamento e tem de ser respeitado. A decisão última é dos pais, mas os adolescentes têm de ser ouvidos. E isso mexe com a adolescência dos próprios pais. Mas tudo é possível”, refere. E remata: “O medo de abordar certos assuntos é, em geral, dos pais e não dos adolescentes. São os adultos que introduzem estes medos, por não estarem à vontade para falar sobre certas coisas. Há mudanças de valor, há conflito de gerações. As coisas mudam, as ideias mudam, a sociedade muda... os pais também têm de se adaptar a todas estas revoluções.”













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