

É uma das características humanas mais valorizadas nos nossos tempos. Um íman que atrai os outros, uma força da personalidade que traz benefícios a todos os níveis e que pode ser treinada.
Por Júlia Serrão
As segundas-feiras no escritório onde Cristina trabalha como secretária, no centro de Lisboa, “já não são o que eram”. Recentemente, num curto intervalo para o café, ela e os colegas deram por si, divertidíssimos, a reproduzir as piadas do novo programa televisivo do Gato Fedorento, Diz que é uma Espécie de Magazine. “De repente, percebemos que tínhamos encontrado um excelente antídoto para lidar com a angústia da segunda-feira”, observa.
Esta história, reproduzida em muitos outros lugares de trabalho e de encontro entre amigos, parece vir demonstrar o que S. Tomás Aquino sempre defendeu: “O humor é um bem útil”, algo “necessário para a vida”, contrariando, assim, a ideia generalizada entre alguns filósofos e teólogos que o associavam ao mal e ao diabólico. “Da mesma maneira que o sono está para o repouso corporal, o humor está para o repouso da alma”, escreve o eclesiástico italiano.
Actualmente, no âmbito do que em Psicologia Positiva se determinou chamar “forças da personalidade”, ter sentido de humor é uma das mais valorizadas.
Todos desejam tê-lo, por vezes mais do que ser inteligente ou ter boa figura. Acredita-se que será um dos mais eficientes trampolins para a felicidade e para se ser socialmente interessante. “Existe uma espécie de íman em termos sociais à volta do humor”, comenta a propósito Helena Marujo, psicóloga e professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
Tem sido difícil definir o humor, apesar do interesse à volta do tema, sobretudo desde que se começou seriamente a considerá-lo em termos de investigação científica, esclarece a docente universitária. “Para alguns autores, é uma capacidade que integra aspectos cognitivos, emocionais, um instrumento que algumas pessoas desenvolvem e potenciam, e que utilizam para lidar com as dificuldades da vida.”
Do ponto de vista do Manual das Virtudes e Forças Humanas, de Martin Seligman e Christopher Peterson, por exemplo, o humor aparece como uma força de carácter dentro de uma virtude que é a transcendência, “com o sermos capazes de transcender o aqui e agora, o imediato, o objectivo, e ver outros sentidos nos acontecimentos da vida”, esclarece Helena Marujo. Na prática, tem a ver com o conseguir “reavivar o sentido da vida, nas situações difíceis” – particularmente nas que envolvem stress e sofrimento –, “repensando e reenquadrando essa mesma situação, de tal forma que seja possível vê-la não só pelo seu lado de sofrimento e dor”.
André Conte-Sponville define o humor como uma virtude em si mesmo – uma das 18 enunciadas no seu livro O Tratado das Grandes Virtudes (Editorial Presença). Contando com a surpresa que esta categorização possa suscitar, o filósofo francês defende, logo no princípio do capítulo reservado ao tema: “É que toda a seriedade é culpada, quando virada para si própria. O humor preserva-nos disso e, além do prazer que nos causa, é estimado por esta razão.” A grande diferença entre o humor e a ironia, algo que anda muito próximo, diz, é que o primeiro “ri de si próprio (…) procura valer-se, como diz Kierkegaard”, enquanto o segundo “ri do outro (…) procura abolir-se”. No entanto, esclarece: “O humor não pode ser permanente nem pode erigir-se em sistema, ou então é uma defesa como qualquer outra, e deixa de ser humor (…) O humor, quando fiel a si próprio, antes conduz à humildade.”
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Do humor
segundo Isabel Leal
1. Às diferentes disposições emocionais, que variam nos limites da depressão e da mania, chamamos humor.
Mudamos de humor, de acordo com um rol infindável de razões, umas internas e idiossincráticas, outras externas e nomeáveis como razões de bom e mau humor que podem ir desde acontecimentos de vida muito relevantes até estímulos rápidos e insensatos. Depois, exprimimos esses estados como podemos e como sabemos, umas vezes de forma sintónica, outras, nem por isso.
2. Mas, no dia-a-dia, associamos o humor a ânimos positivos e tendemos a achar que é preferível uma gargalhada a um sorriso; um sorriso, a uma atitude indiferente ou contida; uma atitude contida a qualquer expressão de tristeza; qualquer expressão de tristeza aos cambiantes do desespero tão estético quanto insuportável. Achamos que o humor positivo é um dom, uma sorte inesperada que nos calhou em herança ou, então, uma árdua e diligente conquista tirada a ferros de naturezas problemáticas e complicativas.
3. Consideramos que um “bom humor” é da família do código postal, uma espécie de “meio caminho andado” para tornear obstáculos, permitir aquela voltinha que referimos mil vezes, como se fosse fácil, que é a de transformar em oportunidades toda a gama de inconvenientes, desgostos e frustrações. Assumimos que, com ânimos positivos somos mais simpáticos, mais atraentes para os outros, mais desejáveis, mais saudáveis, mais luminosos. E somos.
4. O complicado mesmo é que, contrariamente a outras áreas da nossa irritante humanidade, não basta parecê-lo, é preciso sê-lo. De facto, enquanto noutros aspectos, mais coisa menos coisa, mais produção aqui, mais cosmética ali, lá se atingem os mínimos para desempenho social, a expressão adequada e mesmo agradável do nosso estado afectivo não garante a qualidade da vivência subjectiva. Não basta o elogio da alegria, a afirmação das virtudes terapêuticas do riso, a óbvia condenação dos chatos, tristonhos e deprimidos. Como se sabe, também os palhaços choram, fazendo rir os outros apenas porque o espectáculo tem de continuar. |
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É uma espada de dois gumes, conclui Rod Martin, professor da Universidade de Ontário. Se, por um lado, pode criar melhores relações pessoais e ajudar o indivíduo a lidar com a vida, por outro, pode ser corrosivo, destruidor – serve para antagonizar o outro, destruindo-lhe a auto-estima. “É uma forma de comunicação tal como a oralidade e cada um de nós usa-o de maneiras diferentes”, escreve no seu recente livro The Psychology of Humor (A Psicologia do Humor), em que distingue quatro tipos de humor: o agregador, que cria laços; o hostil, que goza com o outro; o auto-infligido, que goza consigo próprio; o que ri da vida. Segundo o psicólogo canadiano, o tipo de humor que a pessoa pratica diz muito sobre ela própria. E sobre a forma como se relaciona com os outros.
Em parte genético – a influência é de 50 por cento –, mas também cultural, o sentido de humor pode ser cultivado e treinado, à semelhança de outras competências humanas. Por outras palavras, é possível contrariar a herança que trazemos à nascença. E também a imagem que temos de nós próprios nesta área, como um todo cultural.
“Se é verdade que em Portugal existe uma cultura que continuamente nos diz que ‘não temos humor, somos tristes e negativos’ – o que influencia a forma como nos vemos e representamos –, na experiência de vida privada, de um modo geral, as pessoas dizem que até costumam ver as coisas com sentido de humor. Portanto, há aqui uma duplicidade entre a visão pública de uma cultura massificada sem esperança e, ao mesmo tempo, um reconhecimento individual do valor e da importância do humor”, observa Helena Marujo. Os que assim pensam estão decididos a ampliar esta característica e a integrá-la de uma vez por todas nas suas vidas. Os que estão a despertar para ela, estão empenhados em cultivá-la.
Os estudos que agora vão surgindo sobre os benefícios do humor do ponto de vista fisiológico, psicológico e relacional – de acordo com o que sabe, é muito importante enquanto instrumento social de aproximação e coesão –, estarão, seguramente, por detrás desta recente abertura à cultura do humor. Mas não só.
O humor a nível mediático, em Portugal, feito por um grupo de novos humoristas genuínos e inteligentes, também está a contribuir generosamente para este fenómeno. De repente, toda a gente brinca com as piadas do Gato Fedorento e da equipa da Revolta dos Pastéis de Nata, por exemplo. “Eles estão a fazer com que os portugueses tenham mais vontade de rir uns com os outros, porque houve um contexto que os estimulou”, concorda a docente universitária, sublinhando que esta experiência está a reverter claramente num “crescimento do nosso sentido de brincar com a vida, de rir mais uns com os outros. E não dos outros, o que é completamente diferente”. E que é algo que a investigação científica tem mostrado, ao longo dos anos, ser “uma estratégia fabulosa para o sistema imunitário e para a longevidade, por exemplo”.
Helena José, professora-adjunta na Escola Superior de Saúde de Faro e autora de uma tese de mestrado sobre o Humor nos Cuidados de Enfermagem, conta: “Ao longo da minha prática como enfermeira durante 12 anos, tinha a sensação de que as pessoas bem-humoradas pareciam lidar melhor com as alterações à sua situação de saúde e até pareciam atingir um mais rápido e elevado nível de recuperação.”
Actualmente, com um doutoramento em curso nesta mesma área, que poderá vir a intitular-se Dando Sentido ao Humor Promovendo o Bem-estar, acredita nos benefícios do humor no contexto dos cuidados de saúde e, especificamente, nos de enfermagem, defendendo que “o seu uso pode ser planeado, em função do resultado desejado para uma pessoa concreta”.
O seu projecto, cujo objectivo é “implementar o humor enquanto intervenção de enfermagem”, conta com uma equipa de enfermeiros (do Serviço Especialidade Cirúrgica 2 do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio) a trabalhar no terreno há cerca de um ano.
“Uma das estratégias humorosas mais utilizadas por estes técnicos no cuidado aos doentes é a utilização de filmes cómicos, que eles próprios elegem, podendo também recorrer-se à anedota ou à banda desenhada”, explica, sublinhando que a decisão de visualização da película parte também do doente. Ou então é sugerida pelo enfermeiro. Mas sempre tendo em conta o diagnóstico que se faz da pessoa e da avaliação do benefício de uma intervenção deste tipo ao seu caso. Este ponto é, aliás, fundamental para Helena José, que defende: “É preciso conhecer a pessoa de que cuidamos e a gravidade da situação que ela vive para saber se é ou não adequada uma intervenção humorosa, porque senão corremos o risco de causar mal-estar, humilhar e destruir, em vez de lhe trazer bem-estar, esperança, de a encorajar e aliviar.”
De acordo com a especialista, “é interessante perceber que os enfermeiros acabam por utilizar o humor como intervenção terapêutica”, de outras formas, com os doentes que não estão inseridos no estudo, “entendendo-o, assim, como uma capacidade humana, uma característica da personalidade e uma habilidade para transformar o sério em cómico. Algo que possibilita intervir em si próprio e rir de si, que permite comunicar e estar no mundo de um modo mais divertido. Que é contagioso, que gera o riso, o sorriso ou apenas expressa sentimentos”. Deste modo, assegura, “o humor é igualmente libertador para os enfermeiros”.
Os dados laboratoriais resultantes deste estudo, neste momento, mostram claramente alterações positivas ao nível dos indicadores do sistema imunitário dos doentes, o que vem confirmar outras investigações feitas neste sentido. Ou seja, um aumento dos valores de Imunolobulinas (IgA, IgG e IgM) no sangue, após a intervenção humorosa.
Mas os benefícios do humor vão além dos fisiológicos. E, por isso, neste momento, já não se trabalha a problemática apenas com doentes, mas também com grupos profissionais em que as pessoas têm de lidar com situações-limite e níveis de tensão muito elevados.
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Tipos de humor
- Hostil. Agressivo e destruidor, é usado para criticar e manipular o outro, usando o sarcasmo e o ridículo. Tem um impacto muito forte. O “agressor” evita responsabilidade no seu acto, utilizando a desculpa de que “era brincadeira”
- Agregador. É o tipo de humor que alivia os ambientes. Doce e amigável, quem o usa é capaz de rir das suas próprias falhas. Reforça os laços do grupo, mas pode ser utilizado para excluir alguém dele
- Auto-infligido. Quem o utiliza está sempre a fazer palhaçada, usando os seus próprios defeitos para divertir os outros. É utilizado por pessoas desejosas de agradar. Quem usa este tipo de humor de forma rotineira, destrói o respeito por si próprio, experimenta altos níveis de ansiedade e corre o risco de entrar em depressão
- Rir da vida. É o género de humor de quem olha os acontecimentos da vida sempre pelo lado positivo, sabe enfrentar os desafios e rir dos absurdos. Alimenta-se a si próprio, sem precisar de audiência. Os estudos demonstram que traz benefícios para a saúde
The Psychology of Humor, de Rod Martin |
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A integrar o humor em formações com equipas de técnicos que trabalham com crianças em risco, Helena Marujo participou recentemente num congresso levado a cabo por um grupo de cientistas de Valhadolide sobre este fenómeno. “Neste momento, esta equipa tem resultados muito interessantes sobre a eficácia do humor em grupos específicos, como professores e a terceira idade”, diz, acrescentando que, entretanto, existem outros trabalhos em curso, de outros cientistas, sobre o humor e o jornalismo, o humor e o feminismo e o humor e a educação.
“A criação de contextos imediatos de relação onde as pessoas se riem em conjunto, para além dos ganhos e benefícios individuais, tem também ganhos ao nível da sociabilidade”, esclarece. O sentido de humor é uma ferramenta social mas também um mecanismo de defesa, pois funciona em situações difíceis. “Tem um efeito catárctico.”
Vivem uma relação próxima, cruzam-se com alguma frequência, mas não é seguro que o humor implique necessariamente o riso. “Há pessoas que têm sentido de humor e não dão muitas gargalhadas, pelo que não têm de estar obrigatoriamente associados. Mas a maior parte das vezes estão”, defende Helena Marujo, esclarecendo que os benefícios destas duas capacidades em termos de saúde também são um pouco distintos. Rir, dar uma boa gargalhada, é uma experiência física “com ganhos fisiológicos, ao nível da activação cardiovascular e do sistema imunitário”, entre outras coisas. O humor é uma experiência cognitiva, “que permite perspectivar as situações, ver sentidos que ninguém percebeu”. Tem componentes mais relacionais e sociais. Torna-nos socialmente mais atraentes e, neste sentido, os seus benefícios são essencialmente do ponto de vista psicológico. É um instrumento de excelência “para contrariar a solidão e a depressão”.
No entanto, a especialista é peremptória: vale a pena treinar os dois. O sentido de humor, “que tem a ver com esta capacidade de pensar múltiplos sentidos e significados para uma determinada situação, flexibilizar o pensamento”, e o riso, a gargalhada, “que é o conseguir envolver o corpo neste processo mais físico e emotivo”. Helena Marujo acredita que o grande passo será aprofundar o estudo do humor nas diferentes perspectivas, pois há muito a investigar ainda neste campo. Por exemplo, a diferenciação do humor por género. “Há teorias que apontam para diferentes formas de rir e de usar o humor, o que não significa que o homem tenha mais humor do que a mulher. São resultados de estudos empíricos iniciais, há que explorar melhor este aspecto”, observa, acrescentando que estas mesmas diferenças podem ser mais culturais do que de género. “A mulher é mais treinada para estar atenta ao lado emocional, relacional e comunicacional. Por isso, se calhar, o seu humor também tem mais a ver com esse lado em termos de conteúdos. O humor do homem, também pelo seu legado, tem mais a ver com o aspecto cognitivo, das ideias.”
Enquanto se vão procurando respostas, o desafio é mesmo “fazer um cruzamento entre o optimismo, a esperança e o lado entusiasmado e positivo de ver a vida e o futuro, com a capacidade de, no presente, conseguirmos rir de nós próprios, dos nossos erros e asneiras. Isto implica uma desdramatização, uma normalização das situações, não deixando que estas ganhem dimensões que não merecem”. O sentido de humor, assegura, tem a enorme capacidade “de relativizar, pôr em perspectiva. Aumentamos a capacidade de ter saúde e poder responder positivamente à vida”.
Depois disto, ainda acredita que “o riso é sinal de pouco siso”? |
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