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DOSSIER








Esqueça a paixão, esqueça o desejo. Vamos falar de amor no seu sentido mais pleno. Aprende-se a dois, como na dança. Abra o coração e liberte-o.

Por Mariza figueiredo
Be mine. Be my Valentine, dizia o cartão decorado com corações e bichinhos que recebi de outra rapariga quando frequentava o liceu nos Estados Unidos, no coração da América profunda. Estranhei. Mas este foi o primeiro de uma série de cartões que recebi naquele 14 de Fevereiro. E estranhei ainda mais. Tinha 16 anos, estava num país estrangeiro, mas não tardei a perceber que ali o dia de São Valentim não era uma data exclusiva dos casais enamorados. Era para eles, mas também para aqueles que celebram a amizade, a família e outros laços afectivos. Uma festa do amor.

O amor romântico, aquele vivido entre os casais, é, na realidade, apenas uma das facetas deste sentimento único e essencial para a existência humana: o amor. Razão de ser e de viver. Alimento da nossa essência e elemento de diferenciação de outros tantos seres que habitam o planeta. O elo que nos confere vida para além da morte no coração daqueles que um dia amámos e que nos amaram.

Não é de somenos importância que o amor tenha despertado o interesse de tantos estudiosos dos mais diversos quadrantes desde os tempos mais remotos. Da literatura à astrologia, da alquimia à psicologia, da filosofia à ciência, sempre se procurou entender o que é o amor, qual a sua natureza, como se manifesta em nós. E para si, o que é o amor?

“É dedicar uma parte de nós. É ultrapassar o estado do egoísmo ou do narcisismo infantil. E acho que é isso que nos permite viver mais”, responde a psicóloga e psicoterapeuta Conceição Almeida.

“Há demasiadas definições acerca desta palavra para sermos contundentes. Creio que cada um deveria poder ter a sua própria definição. A mim, a que mais me satisfaz é a do Dr. Joseph Zinder, que define este sentimento como a alegria pela mera existência do ser amado”, responde o psicólogo argentino Jorge Bucay, que recentemente lançou em Portugal o romance Amar de Olhos Abertos (Pergaminho).
Amor e marcas
• Kevin Roberts, CEO mundial da agência de publicidade Saatchi & Saatchi, defende que o amor é o caminho para as empresas

• Num cenário em que as marcas perderam a sua essência, achou que o amor era a única maneira de aliviar a febre emocional e criar novos tipos de relacionamentos de que as marcas precisavam

• Lançou o conceito de Lovemarks, que não são propriedade dos fabricantes, dos produtores, das empresas. São das pessoas que as amam

• Baseou-se na sua experiência e na sua intuição, mas também em seis verdades sobre o amor:
1. Os seres humanos precisam de amor. Senão, morrem
2. Amar significa mais do que gostar muito
3. O amor diz respeito a corresponder, aplica-se a um sentir intuitivo, delicado
4. Quem e o que amamos é o que importa
5. O amor leva tempo
6. O amor não pode ser comandado ou exigido

“No sentido mais amplo, sem se situar ao nível do amor de pais ou de filhos, nem do amor sexual ou do amor de Deus, diria que o amor é uma benevolência. E é daí que decorre tudo o mais, todas as expressões do amor”, afirma José Rosa, filósofo e professor da Universidade da Beira Interior. “Hoje confunde-se o amor e o desejo, que são coisas muito diferentes. Deseja-se aquilo que não se tem. O amor é o inverso. É um outro tipo de plenitude. Enquanto o desejo é ‘carente’, o amor é ‘exuberante’ no sentido de que é pleno. Assim, quase paradoxalmente, podia dizer-
-se que só se ama o que se tem e não o que se deseja.”

“O amor aparece nas nossas vidas, no melhor dos casos, quando nos damos conta de que somos amados incondicionalmente pelos nossos pais para além do que façamos ou do nosso aspecto, condição ou aptidões. Aprendemos deles a sentirmo-nos valorizados e reconhecidos e, daí, a amar e a desejar ser amados”, declara Jorge Bucay.

Na realidade, nascemos e não sabemos quem somos. Aprendemos isso nos olhos do outro. É o que explica a psicóloga Conceição Almeida: “Através do outro, reconhecemos a nossa existência própria, a nossa identidade sexual, a diferença como pessoa inteira, diferente e separada.” E é com a mãe que estabelecemos a nossa primeira relação com o outro. É a nossa primeira experiência como ser único.

“E esta primeira relação pode comprometer toda a capacidade de amar de uma pessoa ao longo da vida. A vinculação amorosa-afectiva que somos capazes de estabelecer com os outros tem a ver com a forma como fomos gostados e amados quando nascemos. Estabelece-se uma relação de espelho que permite uma identificação e esta capacidade de vínculo”, comenta a psicóloga. E recorda uma história curiosa que viu num documentário sobre gorilas em cativeiro: as mães gorilas só engravidam quatro anos depois da primeira cria, pois esta precisa durante este período da atenção da mãe em exclusividade. O programa mostrava que, num determinado jardim zoológico, queriam aumentar o número de crias e, numa geração de gorilas, retiraram os bebés às mães mais cedo para que elas engravidassem de novo. Quando chegaram à fase adulta, os gorilas que foram retirados às mães não sabiam fazer sexo. “Ao contrário do suposto, isso não se aprende por imitação. É qualquer coisa que tem a ver com a identificação. A génese da capacidade de amar tem a ver com o estado de paixão que se estabelece entre a mãe e a sua cria. E é curioso vermos isso comprovado mesmo no parente animal mais próximo do homem”, observa Conceição Almeida.
“Para amar, é preciso aprender. Aprende-se tal como aprendemos a querer, a andar, a nadar, a vestir”, refere o filósofo José Rosa. “O amor aprende-se a dois, como na dança”, sublinha Conceição Almeida. Aprende-se na família e com as primeiras pessoas que gostam de nós. Com os pais, mas também com os irmãos, que são os primeiros rivais e os primeiros amigos. “Estas primeiras relações não são escolhidas, mas as outras pela vida fora vão ser. Isto, em princípio, permite um grau de liberdade maior, mas também um risco maior. Quando nos zangamos com os pais e irmãos, temos a segurança de que a relação não será prejudicada. Se nos zangarmos ou fizermos o que não devemos aos amigos, a relação poderá acabar. Temos de fazer uma gestão destes impulsos mais amorosos e mais agressivos. Mas ainda bem que isso se faz primeiro na família, uma vez que é um espaço mais protector para experimentar as nossas capacidades de nos ligarmos”, comenta a psicóloga.


“Tentar converter o sexo em coisa banal, como se faz hoje em dia, é não perceber o encanto do percurso do amor.“


Para Jorge Bucay, “necessitamos do amor (tanto amar como ser amados), mas também é certo que se aprende a amar sendo amado e que se melhora a ‘qualidade’ e a maturidade da nossa forma de amar com a experiência vivida”.

Mas já “perdemos muitas das iniciações ao amor. As sociedades ocidentais perderam o sentido das iniciações”, alerta o filósofo José Rosa. E no campo do amor romântico isso é claro. “Tentar converter o sexo em coisa banal, como se faz hoje em dia, é não perceber o encanto do percurso do amor. Na realidade, isso é contra o amor e o próprio sexo, e acaba por privar os jovens do requinte de outros prazeres muito mais sublimes e realizantes.” O desejo desesperado de experimentar tudo, a necessidade de ter tudo à vista, ao alcance da mão, acaba por incapacitar para outras dimensões que requerem antecipação não realizada, sonho, devaneio. “Reside aqui a essência da pornografia: esventrar o sexo do seu fascínio, mecanizá-lo. Assim, sob a capa da liberdade, mata-se o encanto. Na margem entre o visto e o escondido, entre o ‘já’ e o ‘ainda-não’, está um mistério que vale a pena ser vivido. A espera pelo objecto amado tem o seu encanto e até o atingir é-se capaz de fazer muitas coisas belas.”

Para ilustrar o que diz, José Rosa lembra o diálogo entre a raposa e o Principezinho na obra de Saint-Exupéry. “Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito.”

Do lugar dos amores,
segundo Isabel Leal, psicóloga
1
Poucos são os que, de entre nós, conseguem o distanciamento suficiente em relação às ideologias dominantes e a um marketing frouxo mas bem propagandeado, ao serviço de interesses esclarecidos, que não iluminados. Moldados que somos em culturas que se transformam connosco, mudamos com elas na leveza das coisas conhecidas, opinativos e etnocentrados, tão para além do bem e do mal, tão afastados dos raciocínios que permitem a destrinça entre o trigo e o joio, que alegremente percebemos declarações de guerra para impor a democracia ou o afastamento de uma criança pequena, do seu meio e das pessoas que sempre conheceu, em nome do valor que é a não excisão.

2
Por cada fenómeno que percebemos há todos os outros que não percebemos. E não percebemos, definitivamente, o hábito, tão em voga em meio mundo, de as pessoas se casarem por arranjo familiar; de haver várias co-esposas de um só homem; de a maternidade e paternidade serem encaradas como afirmação de estatuto, feminilidade ou virilidade. Não percebemos, nem queremos perceber, outras culturas que andam por aí, nalguns casos há uns milhares de anos, que tratam as nossas crenças como umas entre outras. Central nesse repúdio mal assumido de outras formas de viver e sentir está a natureza do vínculo que nos liga, a nós pessoas, uns aos outros.

3
Penso que não será incorrecto resumir o nosso modo, ocidentalizado e urbano, de considerar o amor como o cerne de toda a vida social. Se, no outro extremo deste mesmo eixo, tudo compreendemos e tudo explicamos em função do dinheiro, neste lado de cá das razões que movem o mundo, parece que é o amor que serve, simultaneamente, de motivação e de justificação. Defendemos que as relações entre pais e filhos são relações amorosas, que é por amor que namoramos, casamos e procriamos, que o amor tudo salva e tudo redime. É por amor que namoramos, desenvolvemos actividade sexual, nos mantemos juntos e companheiros. E, inversamente, é pela falta de amor que tudo isso se eclipsa e se esvai.

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Claro que sabemos que o amor é apenas a designação genérica dos diferentes tipos de vínculos que desenvolvemos com as pessoas que nos rodeiam e com algumas que vamos encontrando vida fora. Sabemos que, sobretudo, às ligações e às atracções que se constroem sobre o sexual, tendemos a considerá-las como de uma qualidade diferente de amor: o amor romântico, uma espécie, especial e única, que nos entreabre as portas do mito e nos transforma em Tristões e Isoldas, que é como quem diz, figuras de um panteão dos deuses menores que atravessam os tempos.

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Porque é que a experiência da paixão e a sua elegia se foram transformando em bens de consumo e divulgando como possibilidade acessível a todos, sem estigma nem punição, não encerra sequer grande enigma. Como seres centrados no Eu e viventes empenhados nos nossos mitos privados somos, seguramente, cidadãos mais despreocupados, mais distraídos e pouco consequentes. As estratégias dos poderes, hoje como sempre, usam-nos de forma sapiente. Esta, a do direito e dever ao amor e à paixão, é com certeza a mais sofisticada de todas. Mas disso, só se falará com propriedade nos séculos vindouros.

O amor é uma questão central da nossa vida. “É o verdadeiro motor das relações interpessoais e, para muitos de nós, o sentido último da essência social da humanidade”, comenta Jorge Bucay.
Mas se a nossa capacidade de amar é o resultado das relações mais precoces que vivemos, a forma como encaramos e vivemos o amor é o resultado da cultura em que nos inserimos.

A filosofia tem dedicado muito do seu tempo a pensar o amor. E, neste sentido, a nossa cultura e o pensamento ocidental são fortemente marcados pelo pensamento grego e pela visão dada pelo mundo judaico-cristão. “Podemos dizer que o pensamento grego sobrevaloriza a carência e, por isso, sobredetermina o Eros numa relação com qualquer coisa que o pode preencher”, explica José Rosa. Nesta visão, o amor busca algo que lhe falta.

O amor é uma iniciação à sabedoria na visão de Platão, uma das referências fundamentais para a filosofia quando se trata da questão do amor. “Em O Banquete (Guimarães Editores), o discurso de Diotima revela claramente este propósito de iniciação à contemplação da estrutura mais decisiva da realidade, à contemplação da ideia. E se há em Platão o sentido do amor dos corpos belos, isso é apenas um momento para um outro momento, o da passagem do amor do corpo belo para a alma bela, e da alma bela para a ideia de Beleza, o nível mais fundamental para Platão”, refere o filósofo.


“Temos dificuldade em encontrar o acerto justo entre o receber e o dar. Tornamos as nossas relações infernais.”


Os deuses são incapazes de amar, mesmo que possam invejar os mortais, ser-lhes propícios ou adversos. É o que defende a perspectiva grega. “Não podem amar porque são perfeitos. Entender o amor como o preenchimento de uma carência obriga a que um ser que não tem carências não possa amar. Isto seria rebaixarem-se. Ao invés, podem e devem ser objecto de amor, de desejo e de piedade.”

Já na visão do amor dada pelo mundo judaico-cristão, Deus cria o mundo, os homens, a diversidade, porque é bom “e não quer que uma boa criação não venha a ser, a existir”. “No livro do Génesis (1,31), afirma-se que ‘Deus viu todas as coisas e eram muito boas’.” O amor de Deus é o sentido da sua generosidade. Deus não cria porque precisa, como nas gnoses, mas sim porque naturalmente se dá, dá, e é em si pura doação. “Trata-se de uma visão em que é o Ágape, e não o Eros, que está no centro. Ágape é generosidade (em latim, caritas), o amor dádiva, o amor oblativo, não o amor possessivo, captativo, que se coloca sempre no centro. E nesse sentido, poderíamos dizer: a essência da religião cristã diz que Deus é amor”, refere o filósofo. E o amor aí já não está em receber, mas em dar. A essência do amor é a benevolência, é o querer bem.

“Vivemos dramaticamente estas duas dimensões do amor. E temos dificuldade em encontrar o acerto justo entre o receber e o dar, e por isso tornamos, por vezes, as nossas relações infernais”, comenta José Rosa. “Muitos de nós sentimos isso porque não tivemos a experiência de nos sentirmos radicalmente amados, até às fibras mais profundas. Esta experiência muda-nos por completo e percebemos que não é uma coisa má nem terrível. E que não precisamos de abrir mão nem de nós nem do nosso desejo, da nossa auto-estima, mas apenas de reorientar as suas forças, de pôr ordem no amor”, como gostava de dizer Santo Agostinho. Uma vez orientado o amor, há uma coordenação positiva entre o amor do mundo (amor mundi), o amor de si mesmo (amor sui) e o amor de Deus (amor Dei), afirmava ainda Santo Agostinho.

E o que é que u ma pessoa pode fazer para se sentir amada até à última fibra? “Deixar-se amar”, explica. “Na leitura judaico-cristã, nós não somos o princípio do amor. A existência do ser exprime ela própria um acto de amor, de superveniência. E, portanto, nós não somos fiéis connosco próprios se não nos deixarmos amar. Tecemos sobre nós muitas teias e não percebemos uma coisa tão simples na vida do amor: que nós não somos amáveis pelo que há de melhor em nós, pelas nossas melhores qualidades, pelas virtudes, pela beleza. O que há de mais amável em nós, mais digno de amor, é o nosso lado escuro, o lado das imperfeições. E por isso nós muitas vezes não nos deixamos amar no exacto momento em que fazemos tudo para ser amados. Isso é uma espécie de drama.”

Santo Agostinho experimentou este drama de forma muito profunda, como se pode ler nas suas Confissões. Andou à procura do amor onde ele não existia. Buscou a fama e a glória. E alcançou. Pelo caminho, deu asas aos seus desvarios sexuais pelas ruelas de Cartago. “E quanto mais respondia a este desejo, dando-lhe o que ele imediatamente queria, mais sentia que a resposta não o satisfazia. É que o desejo segue uma espécie de ciclo infernal que vai num crescendo e nunca atinge a completa saciedade. O amor, por sua vez, tem uma lógica de pacificação”, afirma o filósofo.


“Só pode haver amor na liberdade. O amor quer o outro livre. Não o aprisiona, não o chantageia.“


Santo Agostinho veio depois a viver com uma concubina da qual teve um filho. E a certa altura, declara: “Não vos digo que não ameis. Pensais que vos digo que não ameis? Não, não! É preciso amar. Amem muito! Amem muito, amem com força. Mas digo-vos: ordenai o vosso amor.”
Segundo José Rosa, este ordenar é conhecer-se a si próprio e aos seus desejos, e querer tudo na medida exacta. Não amar aquilo que não pode ser objecto de amor. Não se apegar infinitamente àquilo que não pode responder infinitamente. “Só assim é que se é livre. Só assim é que não nos parasitamos uns aos outros”, comenta. “Querer infinitamente uma criatura, uma pessoa, não só perverte o amor, a consciência e subjectividade amantes, como perverte o objecto amado. E aí é interessante ver o que acontece ao nível das estrelas pop: serem objecto de idolatria por parte dos fãs altera-lhes completamente a consciência. Não têm estatuto para ser adorados. Ficam ‘ex-cêntricos’, isto é, sem centro de gravidade, incapazes de reconhecer a realidade.”
As faces do amor
Philia. É o sentimento que nos impele a amar os nossos parentes mais chegados. Existe naturalmente entre os amigos e nas famílias.
O amor que os pais sentem naturalmente pelos filhos e vice-versa.

Eros. É aquele amor romântico que uma pessoa sente por outra. É o amor que tem muito a ver com atracção física. É esse tipo de amor que normalmente compele as pessoas a manter um relacionamento amoroso continuado. Nesse sentido, também é sinónimo de relação sexual.

Pragma. Como diz o nome, este estilo de amor dá prioridade ao lado prático das coisas. O indivíduo avalia todas as possíveis implicações antes de embarcar num romance. Se o namoro aparente tiver futuro, ele investe. Se não, desiste. Cultiva uma lista de pré-requisitos para
o parceiro ou a parceira ideal e pondera muito antes de se comprometer.

Ágape. Em grego, significa altruísmo, generosidade. A dedicação ao outro vem sempre antes do próprio interesse. Sente-se bem quando
o outro demonstra alegria.

Storge. É o nome da divindade grega da amizade. Por isso, quem tende a ter esse estilo de amor valoriza a confiança mútua, o entrosamento e os projectos compartilhados. O romance começa de maneira tão gradual que os parceiros nem sabem dizer quando exactamente. A atracção física não é o principal. Os namorados-amigos não tendem a ter relacionamentos calorosos, mas sim tranquilos
e afectuosos.

O amor requer a gratuidade radical de estar junto dos outros, por nenhuma razão. “É um ‘porque sim’, ‘porque eu quero’, é o mais puro acto de boa vontade. E é daí que arranca. Isto, para mim, é o fundamento de toda a convivialidade”, diz José Rosa. Na sua opinião, este sentido de fidelidade e de um ‘por nada’ é a única coisa que nos pode manter juntos sem este medo do fim. O medo está nos antípodas do amor. Não há nada tão radicalmente oposto ao amor como o medo. Ninguém consegue amar com medo. O medo é uma coisa que afasta o amor. “Só pode haver amor na liberdade. O amor quer o outro livre. Não o aprisiona, não o chantageia. De nenhum modo. E, acima de tudo, quer o bem do outro.”


“Toda a gente procura estar ligado a alguém.
Isso permite também lidar com a morte”, afirma Conceição Almeida. “A morte é a maior angústia. É o esquecimento, em última análise. E nós somos lembrados por aqueles de quem gostamos e existimos no interior uns dos outros. E isso só acontece através do amor. Guardamos como um tesouro. Há quem diga que é mais importante amar que ser amado, no sentido de experimentar esta ligação e deixar uma memória no interior dos outros.”

“O filósofo Martin Buber dizia que ‘amor’ significa ‘não-morte’. Justificava em latim como ‘a-mor’, se entender-mos o ‘a’ como prefixo negativo de ‘mor’ (morte). Assim, para aquele filósofo, dizer ‘amo-te!’ equivalia a dizer ‘não morrerás!’, ‘não haverás de morrer!’ Queria dizer que o amor é ‘eterno’ e, por isso, ‘eterniza’”, remata José Rosa.













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