Três
dias depois do 11 de Setembro, Condi chega a casa desesperadamente
cansada e, antes de se deitar, espreita pela janela os
escombros das Torres Gémeas e chora mansamente.
Diz-se que não suportou a dor. Agarrou-se então
ao piano e tocou Brahms, esperando assim reconstruir na
intimidade da solidão o caos que trazia dentro
se si.
Aos 50 anos, torna-se a mulher mais poderosa do mundo
ao aceitar a nomeação presidencial para
Secretária de Estado do governo dos Estados Unidos
da América.
“O Secretário de Estado é o representante
dos Estados Unidos perante o mundo, e os olhos do mundo
verão na doutora Rice a força, a nobreza
e a decência do nosso país”, afirmou
Bush quando a empossou.
Força, nobreza e decência... Três palavras
que marcarão para sempre a imagem desta mulher,
que a mãe, paradoxalmente, quis dar a conhecer
ao mundo pelo nome de Condoleezza, que na expressão
italiana con dulcezza significa “tocar com doçura”.
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Condoleezza
aprendeu desde cedo a “manipular”
os instrumentos imprescindíveis ao desenvolvimento
pessoal e humano, como a música, o desporto
e a cultura. |
Em Birmingham,
no Alabama, lugar onde nasceu a 14 de Novembro de 1954,
já não existe ninguém da família
que possa contar a sua história, mas dos viventes
que ainda partilharam a memória do convívio
com os seus pais chega-nos sempre um relato marcado pelo
brilhantismo desta personalidade.
Condi foi educada para triunfar. Aos quatro anos de idade,
a sua mãe, Angela Rice, professora de música,
ensinou-lhe as primeiras notas musicais. Aos 15 anos,
Condi começou a frequentar a Universidade de Denver
com o objectivo de se tornar uma concertista de piano.
É certo que o plano de vida, traçado sobretudo
pela mãe, se alterou profundamente, mas a actual
Secretária de Estado nunca abandonou o piano como
meio de expressão estética, ao ponto de,
ainda hoje, sobretudo nas festividades mais importantes,
brindar os membros da Casa Branca com vários solos
de piano.
Todos se lembrarão daquele memorável dia
em que Rice ao piano e Yo-Yo Ma no violoncelo, interpretando
vários compositores clássicos, ofereceram
aos seus amigos de Washington um fantástico recital.
Decorria o ano de 2002 e a família Bush estava
reunida para o efeito na Casa Branca.
Diz-se que Josef Korbel, prestigiado professor de Ciência
Política, eminente especialista em assuntos soviéticos,
foi o responsável pela mudança radical do
percurso de Condoleezza.
Só Madeleine Albright, antiga Secretária
de Estado de Bill Clinton e filha de Josef Korbel, saberá
explicar, com o rigor que as biografias exigem, a importância
que o seu pai teve, de facto, na vida de Condi.
Mas uma coisa é certa: foi depois de ter frequentado
o curso de Ciência Política, ministrado por
Korbel na Universidade de Denver, que Rice trocou a arte
do piano pelo estudo dos assuntos de Estado.
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Em
baixo, ao piano com Yo Yo Ma no famoso recital
que ofereceram, na Casa Branca, em 2002. |
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É assim
que aos 19 anos, em Denver, Condoleezza obtém a
licenciatura em Ciência Política e mais tarde,
com 26 anos, na Universidade de Stanford, defende o título
académico de Senior Fellow of the Institute for
International Studies, que na Europa corresponde ao grau
universitário de professor doutor.
Torna-se, então, um membro do Centro de Controlo
de Armamento e de Segurança Internacional desta
universidade e a partir de 1993 desempenha o lugar de
Provost da Universidade de Stanford, uma função
que corresponde ao cargo de co-Reitor, nunca antes ocupado
por uma negra ou por alguém tão jovem.
“Para ter
sucesso precisei de ser duplamente boa”, disse
um dia a Secretária de Estado a Antónia
Felix, a sua biógrafa principal, autora da mais
recente obra publicada, The Condoleezza Rice Story.
A escritora afirmou não ter dúvidas acerca
do percurso duro, trabalhoso e doloroso que Rice teve
de travar para vencer na vida.
A começar, lembra Antónia Felix, o facto
de ter estudado sob o signo da segregação
racial (1954), uma época especialmente violenta,
em que Condoleezza, com apenas nove anos, vê mor-
rer uma das suas melhores amigas numa explosão
perpetrada pelo Ku Klux Klan numa igreja baptista.
Acresce a sua pertença ao género feminino,
o que, no Alabama, nunca lhe facilitou a vida, como
atestam as lutas das mulheres sulistas pela sua emancipação
e libertação.
“Os meus pais eram grandes estrategas”,
disse a Secretária de Estado a Antónia
Felix. “Sempre me proporcionaram a preparação
mais correcta para me tornar melhor. Eram tempos muito
difíceis para os negros americanos.”
Dizem os principais analistas que a estatura moral de
Condoleezza foi herdada de seu pai, John Rice, pastor
presbiteriano e professor, homem empenhado nas causas
ligadas à educação e libertação
dos negros americanos. Dele terá igualmente bebido
a dimensão religiosa do mundo, que muito determinou
o seu lugar na vida e na história.
Os jornalistas gostam de escrever sobre um episódio
que terá acontecido na Casa Branca, na presença
do chefe da delegação do The New York
Times: durante um jantar, alguns convidados terão
ouvido Condi referir-se ao Presidente Bush como “o
meu mari...”
Sabemos que a vivência religiosa terá contribuído
muito para que o Presidente e a sua Secretária
de Estado tenham construído uma relação
pessoal forte. Diz-se mesmo que os dois rezam muitas
vezes juntos, embora Bush seja metodista e Rice presbiteriana,
o que na América não tem grande importância
desde que se reze ao Deus do protestantismo.
Outros, os apologistas da fraca dimensão intelectual
de Bush, acrescentam que esta relação
só existe porque Condoleezza não só
transporta a raiz da religião para os assuntos
de Estado – o que satisfaz absolutamente o poderoso
lobby evangélico – como completa culturalmente
o Presidente. No entanto, chegou à política
pelas mãos do democrata Josef Korbel e no início
do seu curriculum académico foi simpatizante
das teses políticas do Presidente Kennedy.
Não foi George Bush filho quem descobriu o brilhantismo
intelectual de Condi, embora, segundo a revista Newsweek,
Rice e Bush “constituam uma combinação
perfeita”. “O rapaz branco e rico do Texas
que levava a vida a brincar; e a rapariga negra da classe
média que era aplicada e estudiosa.”
Rice salta para a ribalta política ao serviço
da América em plena Guerra Fria, quando o Muro
de Berlim dividia a Europa em Ocidente e Leste, e a
América e a União Soviética hegemonizavam
o mundo.
Foi o facto de ser especialista na União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas que
a tornou um elemento imprescindível da política
externa americana, fazendo então parte do Conselho
Nacional de Segurança do governo de Bush pai.
O que fará Condoleezza quando o ciclo Bush acabar?
Segundo os seus críticos, o único desejo
que se vislumbra é o de chefiar a Liga Nacional
de Futebol, sobre a qual fala tanto com o Presidente,
sobretudo quando passa os fins-de-semana na privacidade
do seu rancho no Texas.
Nos corredores da vida política americana ouve-se,
cada vez com mais frequência, que para 2008 se
antecipa um momento extraordinário: o duelo eleitoral
entre Rice e Hillary Clinton para a Presidência
dos Estados Unidos da América.
Nunca uma mulher negra foi tão longe…
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