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É
um lugar mágico, este do coração.
Habitado por duendes, fantasmas, heróis e rainhas...
E ele, graças a Deus, sempre a bater. Bate mansa,
mansamente, se estiver amorosamente deleitado. Bate num
pulsar aflito, quase desesperado, se desejar o objecto
enamorado. Quando deixa de bater, é a eternidade
que acontece.
O coração é a alma de todas as moradas.
Os poetas habitam-no, cantando o sopro da palavra. Cantam
o coração, chorando a vida. Os cardiologistas
tratam-no como um órgão, sem emoções
e afectos, obedecendo exclusivamente ao rigor de critérios
científicos. Os mestres das “ciências
ocultas” dizem que o coração (a mente)
é a morada da grande sabedoria. Os psicólogos,
esses, já vêem no pulsar do coração
a imagem por excelência dessa outra (nova) ciência
que estão a construir, a Psicologia da Beleza ou,
como diziam os antigos, a Psicologia da Alma. Os filósofos,
senhores do pensamento abrangente, gostam de encontrar
no “coração” o lugar do sentimento.
Nós, os sujeitos deste tempo, do lugar de todas
as moradas, elegemos o coração como o centro
nevrálgico da consciência.
Sabemos, como nenhuma outra geração que
habitou o planeta, o que devemos comer para o preservar,
qual a pressão máxima e mínima que
pode suportar, quantas batidas se permite ouvir, como
eliminar a gordura que se infiltra nas suas paredes e,
até, o melhor pensamento que deve produzir.
“Pensar com o coração,
é que nunca!” O
homem contemporâneo não deve ouvir o coração,
dizem as grandes correntes da filosofia, transformadas
nas últimas décadas pelos processos dinâmicos
do saber, nos chips da vanguarda tecnológica.
| As batidas da vida
Neste texto, o
coração quase nunca foi tratado
como um órgão. Quisemos que ele
fosse o lugar por onde passaram, ao longo do tempo,
os vários olhares do homem acerca da vida
e do mundo. Mas, afinal, quem é esse órgão
que, deixando de bater, nos leva a lugares tão
estranhos ou a lado nenhum?
A Wikipédia, a enciclopédia livre
a que todos acedemos via Internet, diz-nos que:
1.O coração
é o órgão que bombeia o sangue,
de forma a que este circule no corpo de todos
os animais vertebrados.
A grande função do coração
é, assim, arrastar o sangue suficiente
para percorrer todo o corpo e voltar ao coração
em apenas 45 segundos. A circulação
sanguínea está assegurada pelo batimento
cardíaco, ou seja, o batimento do coração
que lança o sangue nas artérias.
2.O coração
é um órgão musculoso que,
no homem, tem aproximadamente o tamanho de uma
mão.
A parte musculosa do coração tem
o nome de músculo cardíaco.
3.O coração
humano apresenta quatrocavidades. Na parte superior,
os aurículos: o direito e o esquerdo.
Na parte inferior, os ventrículos, igualmente
esquerdo e direito.
O coração funciona assim como duas
bombas que trabalham em simultâneo. Quando
falha, pouco há a fazer.
4.Portugal é o país
onde se morre mais de doenças provocadas
pelo coração. As mulheres com mais
de 55 anos, que fumam, não fazem exercício
físico e trabalham muitas horas, são
as principais vítimas da doença
cardíaca.
5.Mas o mundo inteiro debate-se
com este problema.
Em 1992, mais de 17 milhões de pessoas
morreram de doença cardiovascular.
6. É preciso começarmos
a tratar melhor o coração. Sobretudo,
a dar mais atenção às suas
batidas e à sua pressão. |
O pensamento
inteligente, defende a comunidade dos investigadores sociais,
dos quais se destacam sociólogos e economistas,
é tornar racional toda e qualquer área da
realidade inteligível.
Ao abrigo desta tese, iniciada por Nietzsche, matou-se
Deus como a metáfora mais universal do coração,
defende James Hillman, director de estudos do Instituto
C.G. Jung, um dos principais centros mundiais de estudos
psicanalíticos. E com esta morte, as gerações
que sucederam a Nietzsche elegeram o paradoxo como a sétima
morada do coração, negando à tradição
religiosa, nomeadamente aos textos do Novo Testamento,
o mais consistente pensamento filosófico de sempre
acerca do “coração” como entidade
simbólica e metafórica. “Uma psicologia
animada pela beleza é necessariamente uma psicologia
que resgata a importância da percepção
para a alma, o que significa deslocar o órgão
da percepção do olhar para o coração”,
escreve Marcus Quinates, investigador do Instituto C.G.
Jung. Para os antigos, lê-se ainda no texto publicado
por este investigador na revista Sapere Audare, “o
órgão responsável pela percepção
era o coração,
associado, assim, aos sentidos, à imaginação”.
“Não é aquilo que entra pela boca
que torna o homem impuro. O que sai da boca é que
torna o homem impuro. Não sabeis que tudo aquilo
que entra pela boca passa para o ventre e é expelido
em lugar próprio? Mas o que sai da boca provém
do coração; e é isso que torna o
homem impuro. Do coração procedem as más
intenções, os assassínios, os adultérios,
as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos
e as blasfémias. É isto que torna o homem
impuro. Mas comer com as mãos por lavar não
torna o homem impuro.” (Mateus 7,24-30).
Com estas palavras atribuídas a Cristo pelo evangelista
Mateus, a comunidade dos homens construiu aquilo a que
os monges da tradição cristã designaram,
ao longo de mais de dois mil anos, por “sabedoria
do coração”. Ela moldou a história,
criou um pensamento próprio e sobretudo originou
sistemas de organização social e política
conformes a este edifício de crenças.
Pensar com o coração era, assim, revelador
de bem, bondade e beleza. Para este sistema de pensamento,
o coração, antes de ser um órgão,
era um lugar para onde confluíam, metaforicamente,
todos os movimentos positivos da alma. O coração
era o tabernáculo da alma. O lugar onde habitava
Deus. Mas porquê o coração e não
o fígado ou qualquer outro órgão
igualmente vital?
Porque os judeus consideravam o coração
o sítio onde nascia o sopro da vida. É de
resto o pensamento que atravessa toda a enciclopédia
bíblica e que os padres na tradição
cristã vão recuperar a partir da “filosofia”
de Jesus acerca do coração.
Foi
a tradição judeo-cristã
que inventou e impôs
ao mundo ocidental esta “sabedoria do coração”.
Os antigos, nomeadamente os gregos, não cultivavam
o coração como sistema codificado de belo
ou de bem. Menos ainda de bom. Basta ler Homero, Ésquilo,
Sófocles ou Eurípides para percebermos que
os valores do belo e do bom não estavam no coração,
mas na arete – o lugar de todas as excelências,
como a grandeza de alma ou a nobreza do carácter.
Na altura, sinónimos de espírito guerreiro,
valentia, bravura.
No mundo moderno, foi Descartes quem violou o consenso
histórico em torno da “sabedoria do coração”
ao afirmar, peremptoriamente, “eu penso, logo existo”.
O pai, o filho e o
coração
•
Pedro é
poeta. José, cirurgião cardiotoráxico.
Ambos são publicamente conhecidos pelos
Sena-Lino. O médico conhece o coração
por dentro e por fora. O poeta diz que os seus
versos são o produto da escuta do coração:
“É no silêncio que ouço
o bater do coração e aprendo a morrer.”
• José
Sena-Lino, médico cirurgião do Hospital
Santa Cruz, o homem escolhido para operar Jorge
Sampaio, começou por nos dizer que o coração,
no seu entender, não é mais do que
uma bomba mecânica. Depois, fez questão
de nos chamar a atenção para a ténue
fronteira entre a vida e a morte, de que o coração,
segundo o médico, é o mais extraordinário
exemplo. Às vezes, ele pára quando
menos esperamos. Essa experiência é
tão frustrante que nos deixa perplexos,
conta-nos o cirurgião.
“Trabalho com corações doentes”,
disse. Existe uma enorme diferença entre
um coração saudável e um
coração doente. “Quando fazemos
o transplante do coração –
tiramos o velho e pomos o novo – é
que percebemos bem a diferença. Um é
grande, dilatado, distendido, cheio de gordura.
O outro, o novo, geralmente de um jovem, é
rosadinho, com os ventrículos bem desenhados,
sem gordura. É um coração
pequeno, que bombeia bem, rosado”, acrescenta.
•
Pedro Sena-Lino, um
dos poetas mais representativos da chamada geração
de 90, fala da aprendizagem da morte como inevitabilidade
poética para construir a métrica
sonora da palavra. “O meu coração
é o eixo, voz, memória da minha
poesia. Ouço o coração para
deixar vibrar a poesia. Ouço, só
então escrevo…” E em Biofagia,
livro publicado pela Quasi, escreveu: “(…)
que me deixaste e eu guardei a morte/como biografia
necessária ao coração.”
Dois olhares sobre a mesma
metáfora: a vida e as imensas possibilidades
de a fazer acontecer. |
Com
esta expressão, alterou-se definitivamente o código
do sistema de pensamento ocidental. O coração,
lugar de toda a poesia, do bom, do belo, cede à
razão o desempenho primordial na geografia dos
afectos.
O mundo estava, assim, mal governado. O coração
é mole. Cede com facilidade. Não bate sempre
da mesma maneira. Umas vezes, assinala pressão
máxima; outras, mínima. Não obedece
à química do justo. Os homens declararam
morte ao coração.
Por isso, Pascal, filósofo cristão, foi
obrigado a violar o cânone da métrica racional
que passou a vigorar depois de Descartes, e lembrou que
há “razões que a razão desconhece”.
Pascal lembrou sobretudo que o coração também
pode ser o lugar onde habitam as nossas dúvidas
e as angústias próprias de um mundo que
se esconde na essência da sua regulamentação.
O que não somos capazes de ver ou de conhecer e
saber, não existe? Vai Onde te Leva o Coração
foi justamente o grande desafio que Susana Tamaro propôs
aos seus leitores. Ir com o coração, onde
fala a imensa profundidade do nosso ser, disse numa entrevista
ao jornal La Repubblica.
Ir com o coração, explicou a autora, “é
experimentar a radicalidade das nossas opções
de vida”. Ler com o coração, disse
ainda Susana Tamaro, pressupõe uma atitude de escuta.
E escutar obriga à disponibilidade para ouvir o
outro, sobretudo na sua diferença, e aceitá-lo.
Fernando Pessoa, influenciado pelo ambiente social e político
da Primeira República, muito dado ao pensamento
racional em contraste com a dinâmica psicológica
dos afectos, também achou que as suas cartas de
amor só eram assim, belas, porque estavam informadas
pelo ridículo da paixão.
Não há verdade no coração?
Mas, afinal, onde está a verdade? Pergunta o homem
contemporâneo, perplexo perante o paradoxo do mundo
moderno.
Hoje, a “sabedoria do coração”,
assente na responsabilidade individual própria
dos filhos de Deus, cedeu lugar à “sabedoria
social”, produto da responsabilidade de todos.
Já
ninguém ouve com o coração,
explica Pierre Bourdieu, sociólogo, no livro La
Misère du Monde. Só que o mundo também
já não quer deixar falar o coração.
O problema mais importante, escreveu Lipovetsky em Les
Temps Hipermodernes (Grasset, 2004), é que o ambiente
da civilização do efémero alterou
a tonalidade emocional. O sentimento de insegurança
invadiu os espíritos, a saúde impôs--se
como uma obsessão das massas, o terrorismo, as
catástrofes, as epidemias são os temas que
fazem a actualidade. Por outro lado, as lutas sociais
e os discursos críticos deixaram de ser portadores
de utopias.
Tudo acontece como se tivéssemos passado da era
post para a era hiper. Não se trata, escreve ainda
o filósofo, de abandonarmos o mundo da tradição
para acedermos à racionalidade moderna, mas de
modernizar apenas por modernizar o que já está
modernizado.
Por outro lado, cada vez mais o lugar do belo e do bem,
do bom, se explica pela confluência química
de reacções que a ciência progressivamente
tem apontado como “produtos” complexos situados
no cérebro. Os cientistas, sobretudo os neurologistas,
sabem bem onde estão situados os sentimentos, as
emoções, os afectos. E, não tarda,
anunciam ao mundo o total mapeamento genético do
ser humano.
Já nada leva a supor, por isso, que se recupere
a “sabedoria do coração” como
lugar último da perfeição.
Entrámos
na era do cérebro. Do genoma. Deixámos a
dialéctica do coração e da razão.
Já vamos a caminho de muitos outros lugares.
António Damásio
é uma das vozes desse novo
lugar algures no cérebro humano. Com a sua obra,
o neurologista explicou-nos como Descartes, o pai da razão,
se ti-nha equivocado. Afinal, não existe razão
sem emoção, nem emoção sem
sentimento.
Uma coisa é certa: sempre que quisermos desenhar
o amor, é ao coração que vamos recorrer.
As suas linhas geométricas são sem sombra
de dúvida o mais universal sistema gráfico.
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