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DOSSIER

Lugar de muitas gavetas, já foi uma "sabedoria", Hoje é pouco mais que um orgão que continuamos a desenhar para enunciar o verbo amar.

por Ana Paula Lemos
ilustrações de Júlio Vanzeler

É um lugar mágico, este do coração. Habitado por duendes, fantasmas, heróis e rainhas... E ele, graças a Deus, sempre a bater. Bate mansa, mansamente, se estiver amorosamente deleitado. Bate num pulsar aflito, quase desesperado, se desejar o objecto enamorado. Quando deixa de bater, é a eternidade que acontece.

O coração é a alma de todas as moradas. Os poetas habitam-no, cantando o sopro da palavra. Cantam o coração, chorando a vida. Os cardiologistas tratam-no como um órgão, sem emoções e afectos, obedecendo exclusivamente ao rigor de critérios científicos. Os mestres das “ciências ocultas” dizem que o coração (a mente) é a morada da grande sabedoria. Os psicólogos, esses, já vêem no pulsar do coração a imagem por excelência dessa outra (nova) ciência que estão a construir, a Psicologia da Beleza ou, como diziam os antigos, a Psicologia da Alma. Os filósofos, senhores do pensamento abrangente, gostam de encontrar no “coração” o lugar do sentimento.

Nós, os sujeitos deste tempo, do lugar de todas as moradas, elegemos o coração como o centro nevrálgico da consciência.

Sabemos, como nenhuma outra geração que habitou o planeta, o que devemos comer para o preservar, qual a pressão máxima e mínima que pode suportar, quantas batidas se permite ouvir, como eliminar a gordura que se infiltra nas suas paredes e, até, o melhor pensamento que deve produzir.


“Pensar com o coração, é que nunca!” O homem contemporâneo não deve ouvir o coração, dizem as grandes correntes da filosofia, transformadas nas últimas décadas pelos processos dinâmicos do saber, nos chips da vanguarda tecnológica.

As batidas da vida

Neste texto, o coração quase nunca foi tratado como um órgão. Quisemos que ele fosse o lugar por onde passaram, ao longo do tempo, os vários olhares do homem acerca da vida e do mundo. Mas, afinal, quem é esse órgão que, deixando de bater, nos leva a lugares tão estranhos ou a lado nenhum?
A Wikipédia, a enciclopédia livre a que todos acedemos via Internet, diz-nos que:

1.O coração é o órgão que bombeia o sangue, de forma a que este circule no corpo de todos os animais vertebrados.
A grande função do coração é, assim, arrastar o sangue suficiente para percorrer todo o corpo e voltar ao coração em apenas 45 segundos. A circulação sanguínea está assegurada pelo batimento cardíaco, ou seja, o batimento do coração que lança o sangue nas artérias.

2.O coração é um órgão musculoso que, no homem, tem aproximadamente o tamanho de uma mão.
A parte musculosa do coração tem o nome de músculo cardíaco.

3.O coração humano apresenta quatrocavidades. Na parte superior, os aurículos: o direito e o esquerdo.
Na parte inferior, os ventrículos, igualmente esquerdo e direito.
O coração funciona assim como duas bombas que trabalham em simultâneo. Quando falha, pouco há a fazer.

4.Portugal é o país onde se morre mais de doenças provocadas pelo coração. As mulheres com mais de 55 anos, que fumam, não fazem exercício físico e trabalham muitas horas, são as principais vítimas da doença cardíaca.

5.Mas o mundo inteiro debate-se com este problema.
Em 1992, mais de 17 milhões de pessoas morreram de doença cardiovascular.

6. É preciso começarmos a tratar melhor o coração. Sobretudo, a dar mais atenção às suas batidas e à sua pressão.

O pensamento inteligente, defende a comunidade dos investigadores sociais, dos quais se destacam sociólogos e economistas, é tornar racional toda e qualquer área da realidade inteligível.

Ao abrigo desta tese, iniciada por Nietzsche, matou-se Deus como a metáfora mais universal do coração, defende James Hillman, director de estudos do Instituto C.G. Jung, um dos principais centros mundiais de estudos psicanalíticos. E com esta morte, as gerações que sucederam a Nietzsche elegeram o paradoxo como a sétima morada do coração, negando à tradição religiosa, nomeadamente aos textos do Novo Testamento, o mais consistente pensamento filosófico de sempre acerca do “coração” como entidade simbólica e metafórica. “Uma psicologia animada pela beleza é necessariamente uma psicologia que resgata a importância da percepção para a alma, o que significa deslocar o órgão da percepção do olhar para o coração”, escreve Marcus Quinates, investigador do Instituto C.G. Jung. Para os antigos, lê-se ainda no texto publicado por este investigador na revista Sapere Audare, “o órgão responsável pela percepção era o coração, associado, assim, aos sentidos, à imaginação”.

“Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro. O que sai da boca é que torna o homem impuro. Não sabeis que tudo aquilo que entra pela boca passa para o ventre e é expelido em lugar próprio? Mas o que sai da boca provém do coração; e é isso que torna o homem impuro. Do coração procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias. É isto que torna o homem impuro. Mas comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro.” (Mateus 7,24-30).

Com estas palavras atribuídas a Cristo pelo evangelista Mateus, a comunidade dos homens construiu aquilo a que os monges da tradição cristã designaram, ao longo de mais de dois mil anos, por “sabedoria do coração”. Ela moldou a história, criou um pensamento próprio e sobretudo originou sistemas de organização social e política conformes a este edifício de crenças.
Pensar com o coração era, assim, revelador de bem, bondade e beleza. Para este sistema de pensamento, o coração, antes de ser um órgão, era um lugar para onde confluíam, metaforicamente, todos os movimentos positivos da alma. O coração era o tabernáculo da alma. O lugar onde habitava Deus. Mas porquê o coração e não o fígado ou qualquer outro órgão igualmente vital?

Porque os judeus consideravam o coração o sítio onde nascia o sopro da vida. É de resto o pensamento que atravessa toda a enciclopédia bíblica e que os padres na tradição cristã vão recuperar a partir da “filosofia” de Jesus acerca do coração.

Foi a tradição judeo-cristã que inventou e impôs ao mundo ocidental esta “sabedoria do coração”.
Os antigos, nomeadamente os gregos, não cultivavam o coração como sistema codificado de belo ou de bem. Menos ainda de bom. Basta ler Homero, Ésquilo, Sófocles ou Eurípides para percebermos que os valores do belo e do bom não estavam no coração, mas na arete – o lugar de todas as excelências, como a grandeza de alma ou a nobreza do carácter. Na altura, sinónimos de espírito guerreiro, valentia, bravura.

No mundo moderno, foi Descartes quem violou o consenso histórico em torno da “sabedoria do coração” ao afirmar, peremptoriamente, “eu penso, logo existo”.


O pai, o filho e o coração

Pedro é poeta. José, cirurgião cardiotoráxico. Ambos são publicamente conhecidos pelos Sena-Lino. O médico conhece o coração por dentro e por fora. O poeta diz que os seus versos são o produto da escuta do coração: “É no silêncio que ouço o bater do coração e aprendo a morrer.”

José Sena-Lino, médico cirurgião do Hospital Santa Cruz, o homem escolhido para operar Jorge Sampaio, começou por nos dizer que o coração, no seu entender, não é mais do que uma bomba mecânica. Depois, fez questão de nos chamar a atenção para a ténue fronteira entre a vida e a morte, de que o coração, segundo o médico, é o mais extraordinário exemplo. Às vezes, ele pára quando menos esperamos. Essa experiência é tão frustrante que nos deixa perplexos, conta-nos o cirurgião.
“Trabalho com corações doentes”, disse. Existe uma enorme diferença entre um coração saudável e um coração doente. “Quando fazemos o transplante do coração – tiramos o velho e pomos o novo – é que percebemos bem a diferença. Um é grande, dilatado, distendido, cheio de gordura. O outro, o novo, geralmente de um jovem, é rosadinho, com os ventrículos bem desenhados, sem gordura. É um coração pequeno, que bombeia bem, rosado”, acrescenta.

Pedro Sena-Lino, um dos poetas mais representativos da chamada geração de 90, fala da aprendizagem da morte como inevitabilidade poética para construir a métrica sonora da palavra. “O meu coração é o eixo, voz, memória da minha poesia. Ouço o coração para deixar vibrar a poesia. Ouço, só então escrevo…” E em Biofagia, livro publicado pela Quasi, escreveu: “(…) que me deixaste e eu guardei a morte/como biografia necessária ao coração.”

Dois olhares sobre a mesma metáfora: a vida e as imensas possibilidades de a fazer acontecer.

Com esta expressão, alterou-se definitivamente o código do sistema de pensamento ocidental. O coração, lugar de toda a poesia, do bom, do belo, cede à razão o desempenho primordial na geografia dos afectos.

O mundo estava, assim, mal governado. O coração é mole. Cede com facilidade. Não bate sempre da mesma maneira. Umas vezes, assinala pressão máxima; outras, mínima. Não obedece à química do justo. Os homens declararam morte ao coração.

Por isso, Pascal, filósofo cristão, foi obrigado a violar o cânone da métrica racional que passou a vigorar depois de Descartes, e lembrou que há “razões que a razão desconhece”. Pascal lembrou sobretudo que o coração também pode ser o lugar onde habitam as nossas dúvidas e as angústias próprias de um mundo que se esconde na essência da sua regulamentação.

O que não somos capazes de ver ou de conhecer e saber, não existe? Vai Onde te Leva o Coração foi justamente o grande desafio que Susana Tamaro propôs aos seus leitores. Ir com o coração, onde fala a imensa profundidade do nosso ser, disse numa entrevista ao jornal La Repubblica.

Ir com o coração, explicou a autora, “é experimentar a radicalidade das nossas opções de vida”. Ler com o coração, disse ainda Susana Tamaro, pressupõe uma atitude de escuta. E escutar obriga à disponibilidade para ouvir o outro, sobretudo na sua diferença, e aceitá-lo.

Fernando Pessoa, influenciado pelo ambiente social e político da Primeira República, muito dado ao pensamento racional em contraste com a dinâmica psicológica dos afectos, também achou que as suas cartas de amor só eram assim, belas, porque estavam informadas pelo ridículo da paixão.
Não há verdade no coração? Mas, afinal, onde está a verdade? Pergunta o homem contemporâneo, perplexo perante o paradoxo do mundo moderno.

Hoje, a “sabedoria do coração”, assente na responsabilidade individual própria dos filhos de Deus, cedeu lugar à “sabedoria social”, produto da responsabilidade de todos.

Já ninguém ouve com o coração, explica Pierre Bourdieu, sociólogo, no livro La Misère du Monde. Só que o mundo também já não quer deixar falar o coração. O problema mais importante, escreveu Lipovetsky em Les Temps Hipermodernes (Grasset, 2004), é que o ambiente da civilização do efémero alterou a tonalidade emocional. O sentimento de insegurança invadiu os espíritos, a saúde impôs--se como uma obsessão das massas, o terrorismo, as catástrofes, as epidemias são os temas que fazem a actualidade. Por outro lado, as lutas sociais e os discursos críticos deixaram de ser portadores de utopias.

Tudo acontece como se tivéssemos passado da era post para a era hiper. Não se trata, escreve ainda o filósofo, de abandonarmos o mundo da tradição para acedermos à racionalidade moderna, mas de modernizar apenas por modernizar o que já está modernizado.

Por outro lado, cada vez mais o lugar do belo e do bem, do bom, se explica pela confluência química de reacções que a ciência progressivamente tem apontado como “produtos” complexos situados no cérebro. Os cientistas, sobretudo os neurologistas, sabem bem onde estão situados os sentimentos, as emoções, os afectos. E, não tarda, anunciam ao mundo o total mapeamento genético do ser humano.

Já nada leva a supor, por isso, que se recupere a “sabedoria do coração” como lugar último da perfeição.

Entrámos na era do cérebro. Do genoma. Deixámos a dialéctica do coração e da razão. Já vamos a caminho de muitos outros lugares.

António Damásio é uma das vozes desse novo lugar algures no cérebro humano. Com a sua obra, o neurologista explicou-nos como Descartes, o pai da razão, se ti-nha equivocado. Afinal, não existe razão sem emoção, nem emoção sem sentimento.

Uma coisa é certa: sempre que quisermos desenhar o amor, é ao coração que vamos recorrer. As suas linhas geométricas são sem sombra de dúvida o mais universal sistema gráfico.













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