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Filhos por um fio
por
Teresa
Ribeiro Baptista
ilustração
de Edgar
Kaiseller Lorga
Os portugueses têm cada vez menos filhos. E pelo andar da carruagem,
deixará mesmo de haver gente lusa no planeta. Urge apoiar a
maternidade.
Cristina
casou relativamente tarde, aos 35 anos. Sempre sonhou com uma
casa cheia de filhos e toda a zaragata que isso implica. Queria
pelo menos quatro, mas não é fácil dobrar o destino à nossa
vontade. Hoje, já perto de fazer 40 anos, Cristina tem uma filha,
a Leonor, de um ano, e não há planos para mais.
"São várias as razões, cada qual com o seu peso. Primeiro, casei
tarde, já com uma carreira profissional assegurada - pensava
eu! Já tinha portanto o bichinho do trabalho e a independência
financeira, da qual é difícil abrir mão. Depois, o meu marido
já era pai de três filhos quando o conheci, ou seja, ele é que
tem o meu número ideal de filhos... E, por fim, fui mãe muito
tarde, aos 38 anos.
Na altura, tinha o meu escritório em casa e pude dar
toda a atenção do mundo à Leonor. Para ter mais filhos, só num
país ideal, onde existisse de facto o trabalho em part-time,
onde não fosse penalizada na minha carreira e conseguisse manter
o meu actual nível de vida e uma casa tão boa como esta que
tenho, mas com mais divisões", idealiza. Portugal não cumpre,
de facto, um único dos requisitos acima mencionados. As ajudas
às famílias numerosas são parcas, para não dizer inexistentes,
e o subsídio a empresas que promovam o part-time, por exemplo,
nem sequer é posto em discussão. Na sociedade de hoje, com os
contratos laborais cada vez mais precários, são poucos os que
se arriscam a sair do mercado de trabalho para se dedicar mais
aos filhos ou a ter mais filhos. O Índice Sintético de Fecundidade
(número médio de filhos por mulher em idade fecunda, dos 15
aos 49 anos), entre nós, é de 1,5. Mas para renovar as gerações,
seriam precisos pelo menos 2,1 filhos por mulher. E se tivermos
em conta apenas os filhos de mulheres portuguesas, não chegamos
à média de um. É graças aos filhos dos estrangeiros, principalmente
dos africanos, que estamos a meio da tabela europeia. Nem tão
poucos como em Itália (1,25 por mulher), nem tantos como nos
países do topo da tabela, França e Irlanda, com 1,89 filhos
por mulher (dados do Eurostat). A França, que nos anos 80 viu
a sua taxa de natalidade atingir níveis preocupantes em relação
ao futuro e ao pagamento das reformas, conseguiu, graças a grandes
campanhas e benefícios, reverter a curva descendente da natalidade.
Mas, para que tal aconteça por cá, é preciso que o Governo acorde...
Se continuar assim, daqui a meio século haverá menos um milhão
de portugueses do que hoje.
Tendo em vista as finanças portuguesas, ninguém está
a pedir ao Estado que faça como o Canadá, que paga um salário
ao cônjuge que optar por ficar em casa. Mas ainda há muito espaço
de manobra.
Se observarmos os dados do Instituto Nacional de Estatística
(INE) sobre o índice de fecundidade, notamos que foi em 1983
que Portugal deixou de ser um país fértil (dos 3,1 filhos em
1960 passámos a 2,0 em 1983 e aos actuais 1,5).
Índice
sintético de fecundidade

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| Analisando o número médio
de filhos por mulher em idade fecunda, entre os
15 e os 49 anos, concluímos que, de facto, as portuguesas
têm cada vez menos filhos |
|
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|
1960 ..............
3,1
|
|
1970 .............. 3,0
|
|
1980 ..............
2,2
|
|
1983 .............. 2,0
|
|
1990 ..............
1,6
|
|
1999 .............. 1,5
|
|
2000 ..............
1,6
|
|
2001 .............. 1,5
|
|
FONTE:
INE
|
|
Vanessa Cunha, socióloga, colabora no projecto Famílias
no Portugal Contemporâneo, do Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa, que analisa os dados de um inquérito
aplicado pelo INE em 1999 a uma amostra representativa de 1776
mulheres portuguesas, entre os 25 e os 49 anos, a viverem em
casal e com pelo menos um filho entre os 6 e os 16 anos. O projecto
ocupa-se de várias dimensões da vida familiar, como a conjugalidade,
a fecundidade, o trabalho e as redes informais de apoio, para
ser publicado em livro.
Segundo a socióloga, o número decrescente da fecundidade portuguesa
deve-se a vários factores, como o acesso à contracepção, o impa-cto
da entrada da mulher no mercado de trabalho, a maternidade tardia
e o facto de o número ideal de filhos, para a mulher portuguesa,
ter passado de dois/três para dois. Para além da falta de condições
financeiras.
"Em Portugal, o trabalho da mulher foi uma conquista, porque
a coloca em pé de igualdade com o homem - e não só. Também o
convívio no trabalho, fora do ambiente doméstico, é gratificante.
Há mulheres que ainda não tiveram filhos simplesmente porque
não encontraram o parceiro ideal. Este é outro factor que contribui
para o baixo índice de fecundidade. A maternidade tardia pode
ser mais complicada e os problemas de infertilidade são mais
comuns a partir de certa idade", explica Vanessa Cunha. Os métodos
contraceptivos deram à mulher e ao casal o direito de escolher
quando e quantos filhos ter. Mas se isto é verdade para as mulheres
com escolaridade média, o mesmo não se aplica a quem não tenha
tido acesso à escolaridade. Do seu ideal de dois, acabam por
ter em média três filhos, sendo só um deles planeado. E 30 por
cento tem mesmo quatro filhos ou mais. Já para quem tem um nível
médio/superior de educação, o controlo é mais efectivo. E do
ideal de dois/três filhos, acabam por ficar com 1,98, em média.
| |
| |
| Sem escolaridade |
| Ensino Primário |
Ensino
Preparatório/
Básico |
| Ensino Secundário |
Curso
médio
/Licenciatura incompleta |
| Licenciatura/Grau superior |
| Todas
as famílias |
|
 |
|
Nº
de filhos que queria ter
|
|
1
|
2
|
3
|
4 e +
|
Total
|
Média
|
|
13,8
|
69,0
|
17,2
|
-
|
100
|
2,03
|
|
15,1
|
70,6
|
9,6
|
4,7
|
100
|
2,8
|
|
14,2
|
68,0
|
12,3
|
5,6
|
100
|
2,13
|
|
14,5
|
62,3
|
13,0
|
10,1
|
100
|
2,28
|
|
|
9,1
|
56,4
|
23,6
|
10,9
|
100
|
2,53
|
|
6,8
|
63,6
|
15,9
|
13,6
|
100
|
2,48
|
|
|
14,0
|
67,4
|
12,3
|
6,3
|
100
|
2,16
|
|
|
 |
|
Descendência
actual
|
|
1
|
2
|
3
|
4 e +
|
Total
|
Média
|
|
12,8
|
32,1 |
24,4 |
30,8 |
100 |
3,01 |
| 17,0 |
54,8 |
20,3 |
7,9 |
100 |
2,24 |
29,7
|
53,9 |
12,1 |
4,4 |
100 |
1,93 |
| 30,7 |
57,3 |
10,1 |
2,0 |
100 |
1,83 |
|
27,0
|
54,0 |
14,0 |
5,0 |
100 |
1,97 |
20,4
|
63,4 |
12,9 |
3,2 |
100 |
1,99 |
|
| 23,4 |
54,2 |
15,8 |
6,6 |
100 |
2,09 |
|
|
Isabel foi contra tudo e contra todos quando resolveu
sair do mercado de trabalho para ter os seus filhos. O marido,
preocupado com o pagamento das despesas, e os colegas de trabalho,
que lhe vaticinaram a "morte súbita" laboral, não foram muito
encorajadores. Mas, apesar de propostas tentadoras a nível profissional,
resolveu ficar com os três filhos até o mais pequeno ir para
a creche, aos três anos. Agora, trabalha em part-time na sua
área (advocacia). "No príncipio, foi muito complicado, porque
não queríamos baixar o nosso padrão de vida. O facto é que deixámos
de viajar e, durante quatro anos, vivemos em dois quartos, um
bocadinho apertados. Como não me afastei totalmente dos meus
contactos, pude voltar ao escritório sem ter de me sentir de
novo uma estagiária... Consegui conciliar o ser mãe com a carreira.
Mas olhando em volta, sinto que pertenço a uma minoria", observa
Isabel.
Que o digam as mães entrevistadas para o projecto do Instituto
de Ciências Sociais: 27 por cento das inquiridas ficaram-se
pelo filho único, exclusivamente por razões materiais; 17 por
cento, pela idade avançada e 15 por cento, pela falta de disponibilidade.
O tempo perdido entre a ida e a volta, acrescido ao tempo real
no trabalho, faz com que sobre muito pouco tempo para o convívio
- não só com os filhos, mas também com o cônjuge. O cansaço
do dia-a-dia tira energias e muitas vezes dita a opção por um
filho.
Não são poucas as mães que gostavam de ter mais filhos. Há também
as que ficam satisfeitas com o filho único.
Ideal
abstracto de filhos segundo o ano
de entrada na maternidade (%)
Este quadro mostra que houve essencialmente
uma passagem do ideal de
2/3 filhos por casal para o ideal de 2. E que o ideal
de filho único e de
4 e mais filhos sempre foram minoritários.

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|
|
|
|
|
Até
1974
|
|
1975-1979
|
|
1980-1984
|
|
1985-1989
|
|
A
partir de1990
|
|
Todas as famílias
|
|
|
|
 |
|
Descendência
actual
|
|
0-1
|
2
|
3
|
4 e +
|
Total
|
Média
|
|
1,4
|
43,7
|
47,9
|
7,0
|
100
|
2,58
|
|
1,4
|
56,2
|
36,3
|
6,0
|
100
|
2,41
|
|
1,6
|
64,9
|
27,8
|
5,7
|
100
|
2,34
|
|
2,6
|
67,1
|
25,5
|
4,7
|
100
|
2,28
|
|
1,4
|
71,8
|
22,1
|
4,6
|
100
|
2,27
|
|
1,9
|
64,7
|
28,2
|
5,3
|
100
|
2,33
|
|
FONTE:
Famílias no Portugal Contemporâneo,
Instituto de Ciências Sociais
|
|
|
"Quando me casei pela primeira vez, a ideia de ter filhos nem
me passava pela cabeça. Trabalhava em média 12 horas por dia,
sem razão de queixa - adoro o meu trabalho. Tive uma carreira
fulgurante e, aos 27 anos, já tinha uma excelente posição no
Banco - a única mulher em 20 colegas na mi- nha área. Com o
segundo casamento, veio a vontade de ter um filho. Só um. Demorei
cinco anos a engravidar. Não penso em ter mais. Só um filho
dá para conjugar com o trabalho", argumenta Maria João, integrante
inequívoca da estastística das 10 por cento que se sentem satisfeitas
com a sua descendência.
Vera não tem tantas certezas como Cristina ou Maria
João. Com um filho, com 30 anos e uma carreira finalmente a
arrancar (produção de programas televisivos), sente-se dividida
quanto à ideia de ter mais filhos. "Por um lado, sempre jurei
que não teria só um filho. Sou filha única e bem sei a falta
que me fez um irmão. Queria ter pelo menos mais um. E acho que,
se vivesse em França, estaria a falar agora com uma barriga
já avançada! Talvez seja o protótipo da mãe 1,5! Querer e não
poder é muito complicado!"
Portugal
sofre do mesmo mal dos países mais desenvolvidos, tendo uma
baixa taxa de natalidade, mas também do mesmo mal dos países
do Terceiro Mundo: a falta de investimentos nas áreas da Segurança
Social, da Educação e da Saúde.
Razões
para ter um filho único
Para aquelas que, só tendo um filho,
não pretendem ter mais,
os motivos são os seguintes:

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1º ..........
Constrangimentos materiais .......... 27%
|
|
2º.......... Idade avançada
.......... 17%
|
|
3º ..........
Falta de disponibilidade .......... 15%
|
|
4º .......... Problemas de saúde
.......... 14%
|
|
5º ..........
Satisfação com a descendência .......... 10%
|
|
6º .......... Problemas com
o filho ou cônjuge .......... 9%
|
|
7º ..........
Outras razões.......... 8%
|
|
Quando o Governo puser mãos à obra e pedir mais filhos aos portugueses,
quantas serão as mulheres em idade de procriar?
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