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Já foi contemplada pelos Prémios Camões, Vergílio Ferreira, da APE, do Pen Clube, pela sua obra literária. Não é por isso vaidosa nem petulante, não perde o bom humor, assume fases difíceis, tem sabedoria de mulher madura e brincadeira de adolescente. Explica-se: “Quanto mais tímida estou mais austera pareço. Habitualmente não sou agressiva e se há coisa que eu valoro em mim é o sentido de humor.” Este ano pertence-lhe o Prémio Máxima de Literatura pelo romance Myra e por este prémio explode em alegria: “Fiquei absolutamente encantada. Pelo reconhecimento, porque um prémio é sempre um prémio e porque vem de uma revista feminina que é a mais importante de Portugal.”
Os críticos literários elogiam-lhe a inovação na construção e na poética romanesca, o experimentalismo sobre a linguagem, a interrogação do poder fundador da palavra. Quando concorre a um prémio, quer saber quem é o júri, já que “a decisão é um pouco uma lotaria que tem até razão de ser, quando há livros com a mesma qualidade literária e se exige uma escolha”. Por ter sido júri de prémios, conhece as regras de jogo, e a propósito recorda a fértil parceria que em tempos passados teve com Agustina Bessa-Luís, nessas circunstâncias. Gostou de transformar Machado de Assis e Eça de Queiroz em teatro, dito por Eunice Muñoz e Eva Wilma, assim como de inspirar Margarida Gil em cinema. Recebe em sua casa, no Bairro do Alto da Ajuda, protegida pela imagem de Nossa Senhora de Lourdes na fachada. A conversa vai e vem entre literatura, gente, família, bichos, coisas, desabafos, circunstâncias, longe estão a revelação por Maina Mendes, o primeiro romance (1969), e a polémica pelas Novas Cartas Portuguesas (1971): “Fui muito combativa na juventude” – era então uma das “Três Marias”, com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. Maria, como figura pública, e Fátima no discurso directo dos cúmplices e amigos, ausentes presenças na sala onde corre a conversa: “Esta casa está construída de uma maneira que me dá paz e me leva a recolher-me bastante. Há 10 anos não tinha uma vida recolhida, como hoje. A casa é a construção de uma vida em miniatura, hoje, que posso utilizar o meu lazer como quero. Cada objecto foi herdado ou foi dado por alguém que eu amei.” Uma cadela chamada Rosa aconchega-se e um gato ronda, curioso: “O gato é uma peste, chama-se Vaz por não poder chamar- -lhe Luís nem Camões. Apareceu em 13 de Maio, se fosse gata era Fátima.” Escreve ao fim da manhã e à tarde, mostra o seu jardim como divisão primeira da casa, tem gostos de doçura e serve canapés que ela própria preparou: “Uma coisa que me tranquiliza é arranjar flores, adoro. Adoro coisas de comer pequeninas. Gosto muito de cozinhar.” Separa as pessoas mais por casta do que por classe e lembra muitos amigos. Bartolomeu Cid e Ilda David, Pedro Tamen, de cada um tem uma arte, um caso, uma memória.
Acha importante saber o signo das pessoas: “O Eduardo Lourenço é Gémeos, entendo-me bem com Gémeos, sou Caranguejo com Lua em Gémeos. Eles têm a curiosidade, a informação nova, a vocação da alegria como divertissement. São os escritores mais divertidos do Zodíaco, estão sempre prontos para a alegria e para o jogo.”
“Uma coisa que percebi melhor
com
os meus netos foi que não
sou uma intelectual. Se alguma
coisa sou, sou uma criativa
de prazer.” |
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Recorda os quase três anos que passou como Adida Cultural em Cabo Verde (1988-91): “Foram uma experiência social e pessoal muito forte, um choque cultural e emocional contra preconceitos num país que não se assume como africano, em que o humor vem da familiaridade com a morte, na grande seca dos anos 20-30.” E os quase sete em Londres (1980-87), onde o choque cultural foi menos estruturante: “Eu estava no King’s College, no departamento de Estudos Portugueses, tinha contactos com o meio judeu e não me senti de fora nesse meio. Morava numa casa deliciosa, que fui estrear. Chamava-lhe a casa alentejana, era branca e tinha umas faixas em azulão.”
Uma experiência forte foi a sua passagem pelo PCP (1974-78): “Depois o Álvaro Guerra convidou-me para o PS.” Além do Curso de Germânicas na Faculdade de Letras, fez Grupanálise, praticou Neurologia e Psiquiatria: “Durante um tempo trabalhei numa enfermaria fechada de mulheres no Hospital Miguel Bombarda. Raramente falo desta enfermaria fechada, que foi uma experiência fascinante e terrível. Eram 80 mulheres trancadas numa enfermaria, havia lá desde garotas esquizofrénicas com 18 anos até mulheres idosas demenciadas. Foi lá que eu conheci o António Lobo Antunes, que era dos médicos com maior dedicação e competência, essencialmente para os casos de psicose muito pesada.”
Torna-se envolvente a falar de escrita: “O milagre disto é o autor.” Não distingue género, na sua arte: “Não sou ‘um escritor’ de histórias, sou ‘um escritor’ de palavras, tenho um grande rigor na escolha das palavras, sempre associei muito a escrita ao lado melódico.” Admite que a sua escrita seja musical: “Não tive uma formação musical, mas poucas coisas me deram tanto prazer na vida como a dança, que é uma ligação quase sensual às maneiras de dizer.” Evoca: “Uma pessoa fundamental para a minha formação até musical foi o meu marido, o único que tive, Adérito Sedas Nunes.”
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A Menina e o Cão “Myra não tinha nome. Tudo começou quando contei o primeiro capítulo ao meu neto Afonso, que tinha 12 anos e hoje tem 14”, diz Maria Velho da Costa sobre o romance que conquistou o Prémio Máxima de Literatura 2009. “Há uma menina russa de 13 anos escondida num barracão, há uns rapazes crescidos, e um pittbull que vem de um combate de cães, uma coisa que existe no Norte e no outro lado do Tejo, com apostas de milhares de euros. Ele deitado na cama, comecei a contar-lhe a história e logo se pôs a perguntar: ‘O que é ‘imigrantes’? Porque é que fazem mal ao pitbull?’ Passou meses a perguntar-me: ‘O que aconteceu?’ Pensei nas perguntas do Afonso, visualizei a história. A miúda Myra passou a pré-adolescência, fez 16 anos. O livro é uma história de crianças para adultos, uma história infantil que deixou de o ser.”
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Afirma-se visual e esteticista. “A escrita fica sempre aquém daquilo que eu visualizo, mais do que imagino. Neste romance [Myra], a encenação da história é muito visual. Há uma cabo-verdiana que fez um jantar russo, toda a casa é cosmopolita. Há as feias, os vestidos, a comida, as flores, os jardins, os bichos. E não é por acaso que dediquei o livro aos meus netos.” E recusa a erudição: “Uma coisa que percebi melhor com os meus netos foi que não sou uma intelectual. Se alguma coisa sou, sou uma criativa de prazer. Sou capaz de ler um ensaio ou um livro de informação histórica que tenha a ver com o que estou a fazer no momento. Não sou consumidora de leituras teóricas, nem de meandros políticos, tenho de ter uma motivação emocional objectiva para ler e estudar um tema.”
Motivo de contentamento é o projecto com Alberto Vaz da Silva, já concretizado: “Um livro que é uma evocação da Sophia [de Mello Breyner], com análise grafológica e astrológica, com um prefácio meu e um posfácio do Tolentino [de Mendonça], que vai sair agora pela Assírio & Alvim. A última dedicatória que a Sophia fez em vida foi para a minha neta. Em O Anjo de Timor, ‘à Júlia Antónia’, escreveu.” Mostra a letra trémula de Sophia no autógrafo, um silêncio fugaz acontece.
Daí a pouco relembra outros afectos: “O único bebé que vi nascer foi o Paulo Portas. Sou madrinha de baptismo dele, e o padrinho é o Nuno Teotónio Pereira.” E, sem menos importância, fala de homens bonitos. Antonio Banderas, Paul Newman e o brasileiro Reynaldo Gianecchini são pontos de exclamação já noite feita, na casa.
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