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INTIMIDADE

A vida é suficientemente dura para que tenha de suportar uma relação penosa. A libertação de relações destrutivas e sem futuro é possível e gratificante, mas requer determinação e empenho.

POR CLARA SOARES


É com uma simplicidade desarmante que a psicanalista Mariela Michelena, a autora do livro Mulheres Mal-Amadas (A Esfera dos Livros), desmonta o puzzle emocional feminino residente nas mulheres para quem “amar é sofrer”. Alternativa? Rever e mudar de crenças e seguir em frente, de cabeça erguida.

Porque se interessou por este assunto?
Quando comecei a receber no consultório mulheres de todas as idades, profissões e estratos sociais, que pretendiam acabar com o sofrimento provocado por relacionamentos insatisfatórios. Todas tinham em comum a escolha do parceiro errado. Mesmo quando terminavam, por exaustão, envolviam-se logo a seguir numa relação parecida: dor, dependência do outro, ansiedade. “Se me liga ou não me liga”, “Se me manda uma mensagem ou não…”


Que se passa com essas pessoas?
Pode ter havido um pai que não estava presente ou não satisfez as necessidades afectivas da filha, em pequena. Essas são as que vão depois sentir-se atraídas por homens que não cuidam, que não estão atentos. E, por necessidade, convencem- se de que as coisas vão ser diferentes com este homem.


Se é assim, é preciso que existam homens com um padrão específico, para se ligarem a elas.
Tradicionalmente, os homens procuram uma mulher como a mãe. Se a referência que têm dela é alguém que está sempre disponível ao ponto de esquecer-se de si mesma, ele tende a procurar uma mulher como a mãe, que perdoa tudo


Este estilo de comportamento é mais frequente nas sociedades latinas?
De todo. Estas referências também se manifestam na cultura americana: no momento de assumirem uma ligação, há sempre mulheres livres e independentes que acabam por cair no mesmo tipo de situação que as suas avós.


O que leva uma mulher ao fracasso amoroso?
Somos biologicamente programadas para nos esquecermos de nós durante alguns meses por um bebé. Aceitamos sacrificarmo-nos incondicionalmente, passar dias sem dormir, em nome de um ser que está totalmente dependente de nós. O problema é quando a mulher usa a função materna com um senhor com bigode! Não sendo um bebé, ele é tratado como se, de facto, o fosse: um ser incapaz de preparar as refeições sozinho, de esperar para receber atenção.


Como reagem quando se dão conta desse equívoco?
Ficam surpreendidas, às vezes chocadas. O lado positivo da questão é descobrir que podem mudar essa maneira de estar, aos poucos. “Que acontece se eu não responder à chamada dele?” “E se eu decidir não ir ao seu encontro no fim-de-semana e optar pelas amigas, como ele costuma fazer?”

A especialista aconselha
às mulheres que se mantêm
em relações doentias que não
tenham medo de ficar sozinhas,
não sejam cúmplices do próprio
mal-estar.






O amor sem reservas não existe?
O amor incondicional acaba por ser uma falta de respeito para com o outro. Uma paciente minha andava a sair com um rapaz há dois meses; ele disse-lhe que não estava preparado para ter um compromisso, sendo melhor acabar por ali. Ela ignora o que ouve, diz-lhe que é a mulher da sua vida, envia-lhe mails, mensagens escritas. É-lhe indiferente a escolha dele. Um amor incondicional pode parecer muito generoso, mas é também uma forma de egoísmo, que não leva o outro em conta.

Mas nestas relações o outro é que é visto como egoísta.
Sim. Fala-se muito da baixa autoestima nestes casos, mas não concordo. Acho antes que estas mu lheres têm uma auto-estima exagerada. Sentem-se omnipotentes, dispostas a perdoar tudo e a mudar o outro. “Ele vai ver que ninguém no mundo o ama tanto como eu.”


O que fazer neste caso? Estabelecer limites?
Precisam conhecer-se, descobrir o que gostam e o que esperam de um homem. Eu espero que o meu marido compreenda que eu gosto de escrever livros, que aceite que eu viaje para os promover e se sinta contente com os meus sucessos. Definem-se os limites logo no início. Uma mulher dependente necessita de um homem que esteja presente, que lhe telefone duas vezes por dia. Por isso deve eleger um homem que leve isso em conta. É a atitude mais sã.


Continua válida a máxima “elas querem mais afecto e menos sexo”?
O sexo interessa a homens e mulheres, o relógio biológico de cada um é que é diferente. No plano inconsciente, o primeiro encontro de um homem leva-o a perguntar: “Poderei ir para a cama com ela?” No feminino, a questão é algo do género: “Como seria ter um filho deste homem?” Pensamos no sexo, mas o desejo de constituir família é muito forte.


Porque há tantas mulheres sozinhas?
Depois dos 40 a solidão é dura. Há mulheres desesperadas, querem uma relação a todo o custo. Eles suportam menos a solidão e têm uma gama maior de escolha, são menos exigentes. Um quarentão pode escolher uma parceira com 20 ou outra com 40 anos. Uma mulher madura pode eleger um de 45 ou 50, porque o que tem 60 é capaz de não lhe agradar para o sexo e o de 20 não vai olhar para ela, quando tem outras mais novas.


Diz-se que quem muito escolhe pouco acerta.
As mulheres têm uma maior capacidade para estarem sós, em relação aos homens, porque vão construindo uma rede social, onde as amigas têm várias funções protectoras.


Mas aspiram sempre a uma relação íntima estável.
Não é esse um desejo legítimo? Se lhes traz sofrimento é um mau negócio. Os anos vividos ao lado de alguém que não gosta de nós são anos perdidos que podiam ter sido usados na procura de outro parceiro, que valesse mais a pena.


No livro fala do mito da Eva e da Lilith, o lado de deusa e demónio em cada mulher. O que é que isso tem a ver com as mulheres mal-amadas?
Quem ainda não ouviu uma mulher dizer “se lhe fizer a comida, vem sempre comer a casa”, “se ele não sabe onde estão as camisas, tem de perguntar-me”? Esta é a Eva, a mulher “mãe”. A Lilith, menos conhecida, aparece nos primeiros textos da Bíblia. Foi criada, não da costela de Adão, mas como uma semelhante. Era a mulher “amante” e por isso foi socialmente condenada. No quotidiano, tendem a identificar-se mais com um destes papéis e a viverem o outro através de outras mulheres.


O que leva tantas a viverem estas duas facetas separadamente?
Para o homem, a primeira mulher é a mãe. Mãe só há uma, que é pura e casta, despojada de sexualidade. Esta imagem idealizada dá-lhe uma referência para se sentir homem. Se tiver em casa uma Lilith [o mito da sedutora] vive isso com angústia e opta por ver na companheira a mãe dos seus filhos. Com isto limita a possibilidade de viver o lado apaixonado da relação, fazendo-o fora de casa. Através da amante ou da prostituta.


Como é possível ter a certeza de que um amor não tem futuro?
Quando é apenas um a fazer tudo e não há reciprocidade; quando é sempre a mulher que está disposta a mudar; quando ela se sente responsável ou culpada por tudo o que não corre bem; quando fecha os olhos a infidelidades ou algo que não lhe agrada. Não tem de ser assim. A vida é suficientemente dura para que tenha de suportar uma ligação penosa. Só vale a pena se for de apoio mútuo.


Quais são os erros de percepção mais comuns a ambos os sexos, nas relações íntimas?
O homem pretende uma mãe, a mulher deseja um deus. Há que enfrentar decepções e seguir em frente, construir relações. Os problemas e marcas de infância não justificam uma vida insatisfatória, é preciso assumir a responsabilidade pelos nossos actos.













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