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A cortina de ferro entre heterossexuais e homossexuais está a ruir. A nova revolução dos costumes é confirmada pela investigação que pondera a hipótese de, num futuro próximo, a bissexualidade ser a norma.
POR CLARA SOARES
Sou bi. E daí?” Há quatro anos, a cantora brasileira Ana Carolina revelou publicamente a sua preferência por ambos os sexos, garantindo ser mais feliz assim. A cantora canadiana Alanis Morissette já o havia feito, pouco tempo |
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antes, e a onda de revelações que inundaram a imprensa cor-de-rosa (e não só) começou a ganhar corpo. Na música, Ricky Martin, Pink, Netinho. No cinema, Angelina Jolie, Lindsey Lohan, Tila, Megan Fox. Esta terceira via, que desconcerta a mentalidade dominante – “É-se uma coisa (hetero) ou outra (gay)” –, começaa conquistar um espaço próprio nas conversas, nos fóruns virtuais, nas vidas privadas e nas mentalidades. Séries (Anatomia de Grey, Letra L, Sexo e a Cidade) e filmes (Henry & June, Batman, Matrix, Vicky Cristina Barcelona) não dispensam personagens sexualmente ambíguas. Este ano ficou musicalmente marcado pela canção de Katy Perry, Beijei uma rapariga e gostei, que conquistou o entusiasmo de milhões de raparigas adolescentes. Não muito tempo antes, o Lesbian Chic entrava nos códigos das gerações mais jovens (Quem não se lembra do beijo entre Madonna e Britney?). A bissexualidade é um fenómeno passageiro, um problema de identidade ou o reflexo de uma nova atitude nos relacionamentos?
A questão não é nova.
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Desde a Antiguidade Clássica que há registo desta forma de relacionar-se. O tema está presente em documentos biográficos de gente famosa (ver caixa). Nos anos 40, o primeiro grande estudo sobre sexualidade humana, liderado pelo investigador Alfred Kinsey (ver caixa), revelou que nove por cento dos americanos eram bissexuais. Duas décadas mais tarde, a psiquiatra alemã Charlotte Wolff dedicou um livro ao assunto (com base na recolha de depoimentos de experiências e aventuras de pessoas atraídas por ambos os sexos), chegando a defender que a homossexualidade tinha as suas raízes na bissexualidade, reconhecida há mais de um século no meio clínico.
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Desde 1993 que estas orientações deixaram de constar na Classificação Internacional de Doenças, como transtornos de personalidade. O que antes se considerava desviante é hoje uma opção comportamental, decorrente daquilo que uma pessoa sente (mais do que o que faz e com quem). Algo que já Freud tinha defendido nos seus Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Numa carta endereçada a uma mãe americana, o médico elucidava: “Não é seguramente uma vantagem, mas não é nada de que se possam envergonhar, nem degradante; nós consideramos que seja uma variante da vida sexual."
Após a emancipação das mulheres e a conquista de direitos dos gays, a ambiguidade sexual é a nova fronteira a explorar. Ou a temer, constituir uma ameaça à ordem social estabelecida. Apesar dos movimentos activistas e do Dia da Celebração Bissexual (23 de Setembro), sentir envolvimento físico ou emocional sem a barreira do género é ainda uma ficção para o comum dos mortais.
Quem não encaixa no modelo dicotómico frequentemente encarado com suspeição e, não raras vezes, etiquetado como estranho (“não é carne, nem peixe”), promíscuo (“joga nos dois tabuleiros”), dissimulado (“não quer dizer em que campeonato joga”), cobarde (“não é capaz de sair do armário”), e até oportunista (“assim, duplica as hipóteses de engatar alguém num sábado à noite”).
Os visados, em contrapartida, não se mostram particularmente interessados em defender o seu posicionamentosexual, mais empenhados que estão em vivê-lo da melhor maneira possível. E com uma dose de sofrimento à mistura. Uma pesquisa levada a cabo por psiquiatras australianos revelou que os bi são mais propensos a problemas de depressão e ansiedade do que os hetero ou gay. Os autores atribuíram esta descoberta ao aumento das pressões sociais exercidas sobre os que tinham uma orientação diferente da que caracterizava a maior parte das pessoas.
Homens e mulheres parecem ter representações mentais distintas acerca da sua identidade sexual, tida como mais ampla. O psiquiatra Júlio Machado Vaz admite que nenhuma teoria é satisfatória neste campo e esclarece: “Sim, a bissexualidade existe, mas é normal que angustie; não é por acaso que, até há algum tempo, certos grupos homossexuais consideravam que os bissexuais eram gays não assumidos.” Membro da Sociedade de Sexologia Clínica, Machado Vaz adianta que esta orientação é menos angustiante e ameaçadora para a identidade no caso das mulheres. Do mesmo modo, a ensaísta americana Camille Paglia, autora de Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990), refere que existem mais mulheres bi do que homens: elas têm maior apetência para integrar sexo e afecto e com menos traumas. No ano passado, cientistas da universidade americana do Estado de Utah concluíram que, no feminino, a bissexualidade não é um estado provisório, mantendo-se ao longo da vida.
Já no universo masculino, a questão ganha outros contornos. Uma equipa de psicólogos americanos e canadianos registou o nível de excitação genital de 101 homens, que eram expostos a cenas eróticas, umas lésbicas e outras gay. Conclusão: cerca de 75 por cento dos que se afirmavam bi (1,7 por cento da amostra) manifestaram respostas semelhantes às dos que se consideravam homo. Os resultados vieram reforçar os da sondagem feita pela revista The Advocate (orientaçãohomo), na década anterior: “Antes de se identificarem como gays, 40 por cento dos homens descrevem-se como bissexuais.”
Independentemente das diferenças de trajectória, o número de homens e mulheres que optam pela ambiguidade sexual está a ganhar visibilidade e há quem assegure tratar-se de uma nova revolução (e não uma mera tendência): a da flexibilidade e da abrangência, afectiva ou sexual. Maria del Mar, 38 anos, psicóloga e terapeuta holística, em Lisboa, refere que nos últimos oito anos tem acompanhado homens e mulheres de 30 e 40 anos que descobriram a sua bissexualidade, geralmente na sequência de fracassos amorosos. “Começam por viver [mais elas do que eles] uma relação homossexual intensa que dura, em média, três a cinco anos; aí encontram uma forma de satisfazer necessidades que não conseguiam preencher, até então, com o sexo oposto (nem no seio da família de origem).” Uma opção compensatória natural que, embora enriquecedora, leva tempo a ser admitida e vivida com harmonia e maturidade no quotidiano, acrescenta.
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A última tendência na comunidade científica encaminha-se para a hipótese de estarmos a assistir, globalmente, a uma postura mais aberta face à atracção, ao amor e aos relacionamentos. O médico e ex-ministro da Saúde italiano Umberto Veronesi afirmou, há dois anos, que “a sociedade evolui para um modelo único, fruto de mudanças hormonais que se mantêm consistentes desde a II Guerra Mundial (a vitalidade dos espermatozóides diminuiu 50 por cento e as mulheres estão a produzir menos hormonas femininas)”. Em entrevista à BBC, Veronesi fez saber que o sexo, por já não ser necessário à sobrevivência da espécie, “será, em três gerações, apenas uma demonstração de afecto, rumo à bissexualidade”.
No documentário Bi the Way (2008) – que conquistou prémios e esteve presente em festivais, Portugal incluído –, as autoras Brittany Blockman e Josephine Decker entrevistaram biólogos evolucionistas, psicólogos, antropólogos e seguiram cinco jovens que abraçaram a ambiguidade sexual. Neste cenário, os neurocientistas apostam agora no mapeamento das vias neuronais que ligam excitação sexual, amor romântico e relacionamentos, na tentativa de ajudar a explicar a complexidade da atracção. Um enigma (ainda) indecifrável. |
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